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Na China de Xi Jinping, a alienação é gloriosa

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Enquanto o presidente Xi Jinping manobra para se perpetuar no poder, uma importante parcela da população ignora a agenda política

Lijiang, China — Nos últimos meses, duas notícias vindas da China causaram imenso furor na imprensa mundial: a inscrição, na Constituição, do nome do presidente Xi Jinping e de seu “socialismo com características chinesas em uma nova era” e a eliminação dos limites para os mandatos presidenciais. Os chineses comuns não ficaram sabendo. E uma parte deles não se importa.

“Não ligo para política”, responde com um sorriso o agricultor Yan Hunguan, à pergunta sobre se acompanhou o congresso do Partido Comunista Chinês, em outubro, quando a primeira decisão foi tomada, e a reunião do Comitê Central, em janeiro, da qual teria saído a segunda, de acordo com anúncio feito um mês depois.

Yan diz que se informa pelo canal estatal CCTV, mas presta mais atenção nos programas dedicados à minoria yi, à qual pertence, que soma apenas 2 milhões de pessoas. “Nesses programas falam das medidas tomadas pelo governo para ajudar o povo yi”, explica o agricultor.

E elas não são desprezíveis. Pelo fato de pertencer a essa minoria, Yan e sua família recebem 600 yuans (327 reais) por mês. Por morar na montanha, e para proteger o seu meio ambiente, o governo lhes paga outros 120 yuans (65 reais) mensais. Para ajudar na educação de seus dois filhos menores, de 5 anos e de 1 ano e meio, são mais 100 yuans (55 reais) por mês.

Pelo plano de saúde público, a família, composta do casal e três filhos (os dois menores mais uma moça de 18 anos), paga apenas 180 yuans (98 reais) por ano. O plano dá direito a consultas e exames gratuitos. Só no caso de procedimentos mais caros é que o beneficiado tem de desembolsar entre 10% e 20% do custo total.

Os moradores das montanhas contam também com uma ajuda do governo de 60.000 yuans (32.700 reais para construir uma casa) e de 20.000 yuans (10.909 reais) para reformar.

Yan reconhece que a vida “está um pouco melhor que antes”, graças a todos esses programas. Ele faz apenas uma queixa, comum entre os chineses: o custo da educação dos filhos. Em seu caso, ele paga apenas a escola da filha mais velha, que está no ensino médio: 1.800 yuans (982 reais) por semestre. Na China, apenas os nove anos do ensino fundamental são obrigatórios e portanto gratuitos.

Entretanto, pais que optam por colocar seus filhos em escolas particulares já no ensino fundamental, por considerar que a qualidade é melhor do que na rede pública, também pagam uma mensalidade na faixa de 300 yuans (163 reais).

O governo também dá subsídios aos produtores rurais. Mesmo com toda essa ajuda, Yan e sua mulher, Kan Tzanfei, ambos de 45 anos, dão duro. Além de plantar batata e trigo mourisco, criar yakis (animais montanhosos que dão lã, carne, banha e leite) e cabras na montanha, na zona rural da província de Yunnan, no sudoeste da China, ele tem uma distribuidora de milho no povoado de Baisha, perto

da cidade de Lijiang, e ainda trabalha como pedreiro. Por todo esse trabalho, tira cerca de 3.000 yuans (1.636 reais) por mês.

“Isso não saiu aqui”

Não são só os moradores da zona rural que estão pouco informados sobre os passos do regime em Pequim. “Estou chocado”, reagiu Wu Shijun, professor de história em Lijiang, cidade de 1,3 milhão de habitantes, quando foi falado sobre  a mudança constitucional que pôs fim ao limite de mandatos para o presidente.“Isso não saiu aqui.”

Wu critica a linha nacionalista de Xi: “Acho a doutrina dele arbitrária, muito conservadora. Devemos nos abrir para o mundo, aprender com os outros países”.

O professor considera que, a partir de Deng Xiaoping, que sucedeu o líder Mao Tsé-tung em 1978, passou a haver “mais democracia”. Foi Deng quem introduziu o limite de dois mandatos de cinco anos para os presidentes. “As pessoas podem dizer o que pensam”, afirma Wu. “A vida dos chineses está melhorando. Enquanto for assim, as pessoas não vão se importar com quem é que está no poder, qual é o sistema, etc.”

Essa é uma frase ouvida pelo repórter de EXAME desde suas primeiras reportagens na China, em 2004. Naquela época, a economia chinesa crescia dois dígitos ao ano. Esse crescimento arrefeceu nesta década, estacionando atualmente pouco abaixo dos 7%. Mesmo assim, os chineses, sobretudo a grande massa dos mais pobres, sentem que a vida está melhorando.

É difícil culpá-los por sua alienação: a decisão sobre os mandatos ilimitados foi anunciada no dia 25 de fevereiro como se tivesse sido tomada pelo Comitê Central, cuja última reunião fora no dia 26 de janeiro. O Comitê tem mais de 200 membros. Como uma decisão tão importante, num colegiado tão grande, poderia ter se mantido em segredo por um mês?

Tudo indica que o núcleo duro do poder ao redor de Xi, com menos de dez pessoas, tomou a decisão e simplesmente a enfiou goela abaixo do Comitê. Esse tipo de notícia sai de forma cifrada nos sonolentos jornais oficiais, que só os burocratas (e os jornalistas) lêem.

Não que essas decisões não tenham um enorme significado: é a primeira vez, desde Mao, que o nome de um líder é inscrito na Constituição; e também a primeira, desde Mao e de Deng, que isso ocorre com uma doutrina. A de Deng poderia ser resumida com uma frase de fácil entendimento: “Enriquecer é glorioso”. A de Xi ninguém se atreve a perguntar o que significa exatamente.

O nacionalismo criticado por Wu e por outros intelectuais chineses tem impacto econômico negativo em cidades como Lijiang, que vive do turismo. Nos anos 90, a cidade era abarrotada de turistas japoneses. Eles consideravam que seus ancestrais vinham dessa região.

Um dos indícios é que a língua naxi, falada por uma parte da população local, também coloca o objeto antes do verbo, como o japonês.

Os naxis vieram do norte, expulsos pela maioria han, e se instalaram no sudoeste da China há cerca de mil anos. Hoje, eles são apenas 320.000, dos quais 300.000 vivem em Yunnan e os outros 20.000 na província vizinha de Sichuan.

Os japoneses também eram atraídos pelo massutaki, o cogumelo branco típico da região, e pela casca de uma árvore chamada taxol, que se acredita que tenha o poder de curar o câncer. Em troca da hospitalidade, o Japão doou mudas de cerejeiras e banheiros públicos para Lijiang. Eles pararam de vir, no entanto, quando a China começou a disputar com o Japão a posse do arquipélago de Senkaku, que os chineses chamam de Diaoyu, a partir deste século.

Turismo interno

A região só não sentiu tanto porque os turistas japoneses foram substituídos pelos próprios chineses, principalmente os de Pequim, Xangai e Cantão — os mais endinheirados do país. O crescente mercado interno chinês tem tomado o lugar do externo, e Lijiang é um microcosmo disso.

As lojas vendem artesanato, enriquecido pela variedade cultural da província: das 54 etnias da China, 26 estão representadas pelos 46 milhões de habitantes de Yunnan, incluindo tibetanos. As estreitas ruas da cidade antiga estão repletas de pousadas, cafés e lojas, com uma arquitetura preservada e charmosa.

Mas a cidade atrai turistas principalmente graças a uma lenda segundo a qual o amor entre os naxis tradicionalmente era livre, até que os hans chegaram à região no século 7.º, na Dinastia Tang. Os hans introduziram as diferenças de classes e, com elas, os casamentos arranjados. Os jovens continuaram podendo namorar quem quisessem, mas só podiam se casar com o par escolhido pelos pais.

Quando esse par não era quem eles amavam, iam para a Montanha de Neve do Dragão de Jade e se suicidavam, atirando-se do alto. Eles acreditavam que a montanha era o paraíso, forrado de flores, onde a água se transformava em leite, e que ali viveriam com seu amado ou amada para sempre.

Ao pé da montanha é encenado um espetáculo magnífico, com 500 artistas, chamado Impressões de Lijiang, que conta essa história. Criado por Zhang Yimou, o mesmo que dirigiu a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, é apresentado todos os dias, num anfiteatro ao ar livre construído há 11 anos, sempre lotado.

Toda essa mística atrai os jovens chineses, que vêm procurar o seu par em Lijiang, e lotam as discotecas e bares de sua bela cidade antiga, tombada pela Unesco. Enquanto paqueram, enchem a cara, cantam e dançam música pop chinesa como se não houvesse amanhã.

Noivos também vêm fazer as fotos de seu álbum de casamento tendo a montanha como fundo, e recém-casados vêm passar a lua-de-mel.

Como se vê, os chineses têm coisas mais importantes para se ocupar do que as manobras de Xi Jinping para se perpetuar no poder.

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Alemanha decreta lockdown parcial após casos de covid-19 dispararem

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Governo federal consolidou acordo com líderes locais que prevê o fechamento de restaurantes, bares, cinemas e teatros

Alemanha: país enfrenta um crescimento maior que o esperado no número de casos de covid-19 (Sean Gallup/Getty Images)

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, anunciou nesta quarta-feira, 28, uma série de medidas de restrição ao movimento de pessoas para conter o avanço do novo coronavírus. O governo federal consolidou acordo com líderes locais que prevê o fechamento de restaurantes, bares, cinemas e teatros pelas próximas quatro semanas. Lojas e escolas, contudo, permanecerão abertas. O mundo está mais complexo, mas dá para começar com o básico. Veja como, no Manual do Investidor.

“Precisamos agir, e agora, para evitar uma emergência de saúde nacional aguda”, afirmou Merkel, horas depois de o país informar que teve quase 15.000 casos de covid-19 entre ontem e hoje, o maior avanço diário desde o início da pandemia.

AAlemanha, que foi amplamente elogiada por manter sua taxa de infecção bem abaixo da de outros países na fase inicial da pandemia, agora enfrenta um crescimento maior que o esperado no número de casos, com o último dado oficial de terça mostrando 11.409 novos casos, para um total de 449.275.

Europa

O presidente da França, Emmanuel Macron — cujo governo evitou cuidadosamente discutir publicamente uma paralisação nacional devido ao recente aumento de casos de coronavírus —, cedeu na sexta-feira e reconheceu que o país poderia retomar restrições mais amplas de mobilidade.

Como outros líderes da região, Macron começa a ficar sem opções. Embora autoridades no continente tentem combater o avanço da pandemia, seus esforços para limitar a propagação do coronavírus com medidas mais suaves — desde o uso obrigatório de máscaras até toque de recolher parcial — não estão funcionando.

Para os líderes Giuseppe Conte, da Itália, e Angela Merkel, da Alemanha, existem grandes riscos políticos. Embora tenham sido elogiados pela forma como administraram a primeira onda, as críticas agora aumentam. A população está cansada, as divisões entre governos locais e nacionais se acumulam e, se um lockdown prolongado for a única resposta, serão culpados pela destruição das economias.

A nova onda de coronavírus parece diferente da primeira. O número de casos parece muito maior — a França divulgou recorde de novas infecções no domingo —, mas isso também reflete mais testes. Enquanto isso, o número de mortes — embora muito menor do que na primavera europeia — está aumentando, assim como o fluxo de pacientes que precisam de cuidados hospitalares.

Com os serviços de saúde gradualmente sob pressão, uma ferramenta contundente permanece: fechar a economia e emitir a ordem de ficar em casa.

“Os políticos têm decisões difíceis a tomar”, disse Jean-François Delfraissy, médico-chefe que aconselha o governo francês sobre a pandemia, em entrevista à rádio RTL na segunda-feira. “Esta segunda onda provavelmente será pior do que a primeira. Está se espalhando por toda a Europa.”

Cansados da pandemia

Depois do lockdown imposto na primavera, muitos europeus se opõem fortemente a um segundo. Manifestantes em cidades como Londres, Nápoles e Berlim marcharam no fim de semana contra a “tirania” da pandemia. Na Itália, algumas academias e cinemas disseram que não obedecerão às ordens de fechamento.

Na Espanha, exaustos após uma luta contra o coronavírus por mais de seis meses, vários médicos do serviço público iniciaram na terça-feira uma greve nacional, a primeira em 25 anos, para exigir mais reconhecimento.

Em um esforço para melhorar sua resposta diante da segunda onda, a União Europeia anunciou hoje que destinará 100 milhões de euros (cerca de 117 milhões de dólares) para a compra de testes rápidos de covid-19.

“Os testes rápidos estão chegando agora no mercado. Isso pode desempenhar um papel importante. De nossa parte, destinamos 100 milhões de euros para a compra de testes rápidos”, que serão distribuídos pelos países do bloco, disse a presidente da Comissão Europeia, Urusla von der Leyen.

O Irã, por sua vez, anunciou nesta quarta-feira 415 mortos pela covid-19 nas últimas 24 horas, o que representa um novo recorde no país mais afetado do Oriente Médio.

Paciência

Ao contrário da Europa, os comerciantes de Melbourne, sul da Austrália, sentiram um grande alívio nesta quarta-feira com a reabertura de lojas e restaurantes após mais de três meses de confinamento.

Na América Latina, onde o coronavírus atinge com força, a situação também é complicada em vários países, como a Argentina, que mergulhou em uma crise de grandes proporções.

O medo de morrer de covid-19 é tão grande que no México muitas pessoas foram pressionadas a fazer seu testamento.

Ao mesmo tempo, o planeta aguarda uma vacina e a corrida científica é intensa.

A Rússia pediu à Organização Mundial da Saúde (OMS) a “pré-qualificação” de sua vacina, com a promessa de que será “acessível a todos em um período mais curto que as convencionais”.

O laboratório Pfizer, que pretende solicitar autorização para uma vacina até o fim de novembro nos Estados Unidos, pediu na terça-feira “paciência”, depois de informar que os resultados esperados para esta semana ainda não estavam prontos.

Ao mesmo tempo, os laboratórios Sanofi e GSK anunciaram que disponibilizarão 200 milhões de doses de vacina ao programa internacional criado pela OMS para ajudar a garantir um acesso equitativo às futuras vacinas contra a covid-19.

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França entra novamente em lockdown a partir desta sexta, decreta Macron

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Bares, restaurantes e comércios não-essenciais devem permanecer fechados; novo “confinamento” deve ir, pelo menos, até 1º de dezembro

Emmanuel Macron: presidente francês decreta novo lockdown a partir desta sexta-feira (30) (Gonzalo Fuentes/Reuters)

O presidente francês Emmanuel Macron anunciou nesta quarta-feira (28) que a França entrará em lockdown mais uma vez a partir de sexta-feira (30) devido ao aumento dramático no número de casos de coronavírus no país. Nas últimas 24 horas, 33 mil franceses foram diagnosticados com Covid-19, e outros 523 morreram. Os números são semelhantes aos de abril, quando a Europa enfrentava o auge da crise.

Neste novo “confinamento”, que inicialmente vai até 1º de dezembro, bares e restaurantes deverão ser fechados, assim como qualquer outro comércio não-essencial. Reuniões públicas estão proibidas, mas reuniões familiares privadas são permitidas. As creches, escolas e colégios também continuam funcionando, enquanto as universidades oferecerão aulas pela internet. Diferentemente do primeiro lockdown, os serviços públicos permanecem em funcionamento.

O governo vai exigir um atestado para aqueles que necessitam sair de casa para trabalhar pessoalmente, ir à uma consulta médica ou fazer alguma aula.

Macron, que fez um pronunciamento na TV na noite desta quarta (28), também participará de uma reunião do conselho europeu para coordenar as respostas sanitárias dos diferentes países da União Europeia. Na tarde desta quinta, o primeiro-ministro Jean Castex deve detalhar outras regras do confinamento em uma coletiva de imprensa.

Decidi que era preciso um confinamento em todo o território nacional a partir de sexta-feira. (…) As escolas ficarão abertas, o trabalho pode continuar, as casas de saúde e as casas de repouso podem ser visitadas. (…) Como na primavera, você pode sair de casa para trabalhar, ir a uma consulta médica, dar assistência a um ente querido, fazer compras ou tomar um ar perto de casa. (…) Os bares e restaurantes serão fechados. (…) Os trabalhadores e empregadores que não possam trabalhar continuarão a receber seguro-desemprego parcial. ”

Emmanuel Macron, presidente da França

As fronteiras da França continuarão abertas para os vizinhos da União Europeia e para todos os cidadãos franceses que quiserem retornar ao país, independente de que país estejam. Todos aqueles que chegaram à França serão submetidos a testes rápidos nos portos e aeroportos. “Nenhum viajante poderá entrar no território europeu sem a certeza que ele não está contaminado”, disse Macron.

A entrada de não-cidadãos e de pessoas de fora da União Europeia, entretanto, será vetada, assim como viagens entre as regiões francesas.

Macron anunciou também que aumentará o número de leitos de terapia intensiva para 10 mil, e que os cemitérios permanecerão abertos “para que possamos enterrar os nossos entes queridos com dignidade”. O presidente afirmou que “guarda a esperança de festejar as festas de fim de ano em família” e que pode reavaliar as novas restrições em 15 dias, caso a situação dê sinais de melhora.

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Governo confirma prisão de colaborador de Guaidó na Venezuela após “desaparecimento”

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O desaparecimento de Roland Carreño e de outros dois colaboradores de Guaidó ocorreu após a saída da Venezuela de Leopoldo López, mentor político de Guaidó, que ficou 18 meses na residência do embaixador da Espanha em Caracas

Nesta foto de arquivo tirada em 30 de abril de 2019, o líder da oposição venezuelana e autoproclamado presidente interino Juan Guaidó (E) fala a apoiadores ao lado do político de oposição Leopoldo Lopez (D). – (crédito: Federico PARRA / AFP)

Um colaborador do líder parlamentar da Venezuela, Juan Gauidó, foi preso por agentes de segurança, anunciou nesta terça-feira o governo de Nicolás Maduro, um caso que o opositor e aliados haviam classificado de “desaparecimento forçado”.

“Rechaçamos a campanha de descrédito contra o estado de direito na Venezuela a propósito da prisão do cidadão Roland Carreño”, tuitou o ministro de Comunicações e Informação, Freddy Ñáñez.

Carreño e outros dois opositores, Yeferson Sarcos e Elías Rodríguez, sofreram “um desaparecimento forçado”, havia denunciado Guaidó. O fato ocorreu após a saída da Venezuela do mentor político de Guaidó, Leopoldo López, que encerrou uma permanência de 18 meses na residência do embaixador da Espanha em Caracas.

Após ser confirmada a prisão de Carreño, foram libertados os dois opositores que o acompanhavam, informou no Twitter o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa (SNTP).

Sem citar Sarcos e Rodríguez, Ñañez afirmou que Carreño “confessou sua participação em crimes contra a ordem constitucional para alterar a paz na república”, sem dar detalhes sobre a prisão ou os crimes.

O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, informou no Twitter que investigações preliminares ligam Carreño “à entrega de armas de guerra e dinheiro em espécie a determinados sujeitos para promover ações violentas” no país. Segundo Saab, a polícia prendeu Carreño com “12 mil dólares em espécie e um fuzil”.

Paralelamente, o partido Vontade Popular, liderado por Leopoldo López e de cujas fileiras emergiu Guaidó, denunciou que “mais de 20 funcionários vasculham a residência” de Carreño, que é coordenador operacional da organização. Autoridades não se pronunciaram sobre esse procedimento.

Mais cedo, o Colégio Nacional de Jornalistas (CNP) afirmou que Carreño, jornalista, encontrava-se preso na sede do Serviço Nacional de Inteligência Bolivariano (Sebin), no edifício Helicoide, em Caracas.

Quase um dia sem notícias

O governo Maduro confirmou a prisão de Carreño, mais de 22 horas após a equipe de Guaidó denunciar os três “desaparecimentos”.

Os opositores “estão desaparecidos desde as 17h30 de segunda-feira”, alertou Alfredo Romero, diretor da ONG de defesa de direitos humanos Foro Penal, que contabilizou 359 “presos políticos” no país até o momento.

Os Estados Unidos, principal aliado internacional de Guaidó, condenaram o “desaparecimento forçado” de Carreño. Trata-se “da última tentativa de Maduro de deter arbitrariamente cidadãos para silenciá-los e infundir medo”, tuitou o chefe da diplomacia americana para a América Latina, Michael Kozak.

Os “desaparecimentos” acontecem depois que López, ex-prefeito do município de Chacao, em Caracas, deixou a Venezuela, após meses na residência do embaixador espanhol em Caracas, onde permaneceu como hóspede.

Condenado a quase 14 anos de prisão em 2015 – acusado de incitar à violência em protestos contra o governo Maduro que deixaram 43 mortos e cerca de 3.000 feridos em 2014 – López recebeu autorização para ir para a prisão domiciliar em 2017.

Em 30 de abril de 2019, o opositor foi libertado e participou de um levante militar fracassado contra Maduro no mesmo dia, apoiado por Guaidó. Após o fracasso da iniciativa, López se refugiou na casa do embaixador espanhol.

Durante uma coletiva de imprensa em Madri, nesta terça-feira, López denunciou que “nas últimas horas pessoas muito próximas” a ele “desapareceram por causa da ditadura”.

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Estados Unidos têm novo levante racial às vésperas da eleição

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Morte de homem negro de 27 anos, executado com vários tiros por policiais brancos da Filadélfia, reforça o tema do racismo na corrida pela Casa Branca. Biden culpa Trump por “atiçar as chamas da divisão”. Guarda Nacional é mobilizada

(crédito: Mark Makela/Getty Images/AFP)

A morte de mais um cidadão negro pelas mãos de policiais brancos, na tarde de segunda-feira, lançou tensão às ruas da Filadélfia. Ontem, a maior cidade da Pensilvânia — estado-chave na disputa pela Casa Branca — aguardava a chegada de centenas de homens da Guarda Nacional, em meio a protestos e saques. Assim como o trágico fim de George Floyd, em 25 de maio passado, o assassinato de Walter Wallace Jr., 27 anos, foi registrado por uma testemunha. Não demorou para que o vídeo viralizasse nas redes sociais. “Por que não usaram uma Taser (pistola de choque elétrico)? Sua mãe tentava acalmar a situação”, lamentou o pai, Walter Wallace, ao jornal Philadelphia Inquirer. Ele garantiu que o filho tinha problemas psicológicos e estava em tratamento.

O homem foi executado com cerca de dez tiros por dois policiais, por não soltar uma faca que carregaria. Entre a noite de segunda-feira e a tarde de ontem, 91 pessoas tinham sido detidas durante as manifestações e 30 policiais haviam ficado feridos. Uma viatura chegou a ser incendiada. O prefeito da Filadélfia, Jim Kenney; a chefe de polícia, Danielle Outlaw; e outras autoridades se reuniram com familiares de Wallace Jr. e com membros da sociedade civil, em uma igreja da cidade, na tentativa de apaziguarem os ânimos.

A apenas seis dias das eleições, o republicano Donald Trump evitou comentar diretamente o incidente, enquanto o candidato democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, e a vice em sua chapa, a senadora Kamala Harris, culparam o chefe de governo. “Nossos corações estão partidos pela família de Walter Wallace Jr. e por todos aqueles que sofrem o peso emocional de aprender sobre outra vida negra perdida na América. Não podemos aceitar que, neste país, uma crise de saúde mental acabe em morte”, afirmaram, por meio de nota conjunta. “A vida de Wallace, como a de tantos outros, era uma vida negra que importava — para sua mãe, para sua família, para sua comunidade e para todos nós. (…) Como uma nação, somos fortes o suficiente para enfrentar os desafios de uma reforma real da polícia, incluindo a implementação de um padrão nacional de uso da força, e para manter a paz e a segurança em nossas comunidades.”

De acordo com Biden e Harris, “tudo o que Donald Trump faz é atiçar as chamas da divisão em nossa sociedade”. “Ele é incapaz de fazer o verdadeiro trabalho de reunir as pessoas. Nós iremos. Estamos todos orando por toda a família de Wallace, e por nossa nação, para que possamos avançar em direção à cura”, acrescentou o comunicado. Ontem, Biden fez campanha na Geórgia, há décadas um bastião republicano, e prometeu unidade nacional. Kamala Harris também escolheu os estados de Arizona e Texas, onde Trump tem favoritismo.

Por sua vez, o magnata republicano visitou Michigan, Wisconsin, Nebraska e Nevada. Antes, divulgou um vídeo, no Twitter, em que acusa Biden de não ser adequado ao cargo de presidente. “Nós vivemos tempos muito duros. Como exemplo, temos o Antifa. Eles (democratas) não querem condená-lo, não querem mencioná-lo. Eles dizem que é uma ideologia ou uma ideia. Não, não é. Quando uma pessoa bate na outra com um taco de beisebol, atira ou esfaqueia outra, isso não é ideologia”, declarou o magnata, em alusão ao movimento contrário à extrema-direita, cujos integrantes saíram às ruas em protesto contra a morte de George Floyd, em Minneapolis (Minnesota), e a tentativa de assassinato contra Jacob Blake, em Kenosha (Wisconsin).

Investigação

O Caucus Congressista Negro defendeu uma imediata investigação independente sobre o tiroteio e exortou Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, a levar a Lei de Justiça em Policiamento George Floyd a votação imediata. “Por que o uso de força letal pelos policias continua a ser a primeira resposta instintiva, apesar de inúmeros pedidos para a utilização de meios menos letais durante policiamento de nossas comunidades? Os EUA precisam de uma reforma da polícia agora”, afirma o comunicado à imprensa. “Não podemos garantir um país igualitário e justo sem reconfigurar a polícia e sem aprovar uma legislação que mude a cultura do policiamento em comunidades negras.

Em entrevista ao Correio, Emmitt Riley III — cientista político e diretor do Programa de Estudos Africanos da Universidade DePauw (em Greencastle, Indiana) — afirmou que Trump estruturou toda a eleição com base na ideia de que ele é o candidato da lei e da ordem. “Trata-se de um apelo racial implícito aos eleitores brancos nos EUA. Sua estratégia é apelar à base política, formada em sua maioria por homens brancos, que mantêm atitudes negativas em relação às minorias raciais e étnicas nos EUA”, explicou. O especialista acredita que os levantes raciais recentes possam surtir impacto polarizador em 3 de novembro. “Por um lado, as minorias raciais e étnicas estão fartas de seu comportamento racista, o que pode aumentar a participação eleitoral entre os negros. Por outro lado, sua base é atraída por ele por causa de sua retórica racista. Então, a morte de Walter Wallace Jr. pode motivar os partidários a comparecerem na votação”, disse Riley.

Promessa de igualdade no país

“A vida dos negros importa. Nenhum presidente deveria ter medo de dizer isto.” A declaração foi publicada por Joe Biden, candidato à democrata Presidência dos Estados Unidos, em seu perfil no Twitter, acompanhada de um vídeo de campanha. “Aqui é Joe Biden. A vida dos negros importa. Ponto final. Eu não temo afirmar isto. As desigualdades têm de ser enfrentadas. Os afroamericanos precisam de um tratamento justo no que diz respeito a oportunidades econômicas, cuidado à saúde, justiça criminal, educação e moradia. (…) Vou erradicar o racismo sistêmico. Por isso, peço o seu voto”, disse.

Juíza toma posse na Suprema Corte

A magistrada Amy Coney Barrett, indicada pelo presidente Donald Trump, foi empossada oficialmente, ontem, ao prestar o juramento judicial, administrado pelo juiz John G. Roberts Jr., chefe da Suprema Corte. A cerimônia, em caráter privado, ocorreu na Sala de Conferências Leste da sede da mais alta instância do Judiciário norte-americano. Amy esteve acompanhada do marido, Jesse M. Barrett, a quem coube a tarefa de segurar a Bíblia, na qual ela colocou a mão esquerda para o juramento. Com a efetivação de Amy Coney no cargo, a Suprema Corte passa a contar com seis juízes conservadores e três progressistas.

Eu acho…

“Não creio que a morte de Walter Wallace Jr. vá prejudicar Trump mais do que ele já se encontra politicamente danificado por sua resposta à pandemia da covid-19. Os brancos nos Estados Unidos são tão racistas e tão antinegros, que sempre que raça faz parte de nossas conversas políticas, isso geralmente afasta uma proporção significativa de brancos. Espero uma participação em massa de negros em 3 de novembro. Com 44% de negros, a Filadélfia é uma área em que Biden deve conquistar uma parcela significativa de eleitores afro-americanos, se quiser ganhar a presidência.” Emmitt Riley III, cientista político e diretor do Programa de Estudos Africanos da Universidade DePauw (em Greencastle, Indiana).

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Eleições americanas: uma democracia pouco democrática?

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Votar nos Estados Unidos é um direito de todos — ou pelo menos de todos aqueles que conseguem superar certos obstáculos

Fila de votação em Austin, no Texas: estado foi um dos que não flexibilizaram a legislação em 2020 para facilitar a votação à distância (AFP/AFP)

No dia 12 de outubro, a Justiça Federal americana decretou a legalidade de uma decisão tomada pelo governo do Texas que simboliza um dos temas mais controversos da política americana: a supressão do voto. A democracia mais antiga do mundo, no fim das contas, não seria tão democrática assim.

Dez dias antes, o governador do estado, o republicano Greg Abbott, havia determinado que cada condado poderia ter somente uma urna para receber os votos dos eleitores que queriam entregar pessoalmente as cédulas recebidas pelo correio.

Essa modalidade de votação permite que os votos sejam devolvidos também pelo correio, mas cortes de custos realizados pela estatal anunciados neste ano — e depois suspensos — causaram atrasos na entrega de correspondências. Muitos eleitores temem que suas cédulas não cheguem a tempo.

Condados são subdivisões administrativas. No Texas, segundo maior estado americano, eles são 254. Loving, o menor deles, tem apenas 169 habitantes; o maior, Harris, tem 4,7 milhões. Os críticos da decisão apontam que a medida imposta pelo governador é mais uma tentativa de criar obstáculos para o comparecimento dos eleitores.

O Texas foi um dos cinco estados que não flexibilizaram a votação à distância. Só pode pedir cédulas pelo correio quem tem mais de 65 anos ou tem algum tipo de deficiência. Em Houston, a quarta maior cidade americana, o único local para depositar esses votos fica no estacionamento de um estádio de futebol americano, sem acesso fácil por transporte público.

“Minha definição de supressão do voto é qualquer coisa que diminua a probabilidade de o eleitor votar”, disse numa entrevista à rádio NPR o responsável pela eleição no condado de Harris, o democrata Chris Hollins. “Criar inconveniências e obstáculos. Durante a pandemia, as pessoas têm de escolher entre arriscar a saúde ou abrir mão de seu direito de votar.”

Um sistema eleitoral confuso

Para um eleitor brasileiro, pode ser difícil entender a ideia de “suprimir o voto”. As eleições no Brasil são coordenadas por um órgão central, as regras são as mesmas no país inteiro, os locais de votação são muitos e o voto é obrigatório.

Nos Estados Unidos, a situação é muito diferente. Em primeiro lugar, ninguém é obrigado a votar. Mas isso também é verdade em diversas outras democracias, e em nenhuma delas existe um fenômeno remotamente parecido.

A principal explicação está no sistema federalista. Cada estado americano cria suas próprias regras eleitorais. Elas vão desde questões prosaicas como o horário de fechamento das urnas a quem pode votar — porque, mesmo com o direito assegurado, muitos cidadãos na prática são impedidos de participar do processo eleitoral.

Uma das maiores conquistas do movimento dos direitos civis foi a Lei do Direito ao Voto, de 1965. Ela determinava que mudanças nas regras eleitorais nos estados que pudessem prejudicar a participação negra em eleições tinham de antes ser aprovadas pelo governo federal.

A lei foi proclamada depois de uma onda de protestos no sul do país, onde o direito ao voto da população negra era restrito por medidas que incluíam o pagamento de taxas e provas de que o eleitor era alfabetizado, entre outras.

Mas a lei foi derrubada em 2013 pela Suprema Corte, com votos da maioria conservadora, sob a alegação de que o país havia mudado nas cinco décadas que tinham se passado.

O resultado imediato da decisão foi uma nova onda de regras e leis que ostensivamente servem para garantir a lisura do processo eleitoral — mas na prática criam barreiras para eleitores negros, latinos e eleitores de baixa renda.

Você é você mesmo?

Vários estados exigem que o eleitor apresente algum tipo de documento oficial de identificação para votar (nos Estados Unidos não existe o equivalente à carteira de identidade brasileira, então o documento mais usado é a carteira de motorista).

Estima-se que 25% dos negros com idade para votar não tenham carteira de motorista, ante apenas 8% dos brancos. Estima-se que até 10% do total de eleitores não tenha um documento de identificação oficial.

O objetivo declarado dessa regra é impedir fraudes, embora os casos de pessoas votando no lugar de outras sejam raros, segundo estudos. As regras também são confusas. No Texas, o documento de porte de arma é suficiente para votar, mas a identificação da Universidade do Texas, não.

Em alguns lugares, as complicações começam muito antes do dia da eleição. Uma das práticas é conhecida como “purga” dos eleitores registrados. Manter os registros atualizados é natural, afinal de contas, as pessoas vêm e vão.

Mas alguns estados criaram regras curiosas. Em Ohio, o eleitor que não votar em três eleições é automaticamente excluído do sistema e precisa registrar-se novamente — a menos que responda a um aviso enviado pelo correio, no formato de um cartão-postal. E os eleitores nem sequer são avisados da exclusão.

No ano passado, o estado planejava cancelar o registro de 240.000 eleitores, mas 20% deles haviam entrado na lista por erro do governo. Outros oito estados têm regras semelhantes.

Menos urnas

Outra medida utilizada para criar obstáculos à votação é o fechamento de seções eleitorais. Desde a derrubada da Lei do Direito ao Voto, quase 1.700 locais de votação foram fechados nos estados que estavam sujeitos à supervisão federal. Os fechamentos ocorrem de maneira desproporcional em áreas onde há presença significativa de minorias.

Considere o exemplo do Texas. Nos 50 condados que registraram o menor aumento da população negra e latina — na realidade houve uma redução de 13.000 habitantes — 34 seções eleitorais foram fechadas, segundo uma análise do jornal inglês The Guardian relativa ao período entre 2012 e 2018. Já nos 50 condados onde houve o maior aumento dessas duas populações — 2,5 milhões de pessoas a mais —, houve 542 fechamentos de locais de votação.

Nacionalmente, quase 1.700 seções eleitorais foram fechadas no mesmo período, segundo um relatório do The Leadership Conference on Civil and Human Rights. “Depois da cédula eleitoral, o elemento mais identificável do processo de votação da nossa democracia é a seção eleitoral”, afirma a entidade. “Mudar o local ou fechá-las é uma ruptura democrática.”

Isso significa mais gente em cada seção e filas mais longas — o que é especialmente problemático pois as eleições americanas sempre acontecem às terças-feiras. Muitas pessoas não podem se ausentar do trabalho para votar ou não têm com quem deixar os filhos.

“Eles usam o argumento da responsabilidade fiscal, mas é claro qual é o objetivo”, disse numa entrevista recente Carol Anderson, historiadora da Universidade Emory e autora de um livro sobre supressão do voto nos Estados Unidos.

Quem fiscaliza os fiscais?

A organização estadual das eleições dá origem a uma outra peculiaridade do sistema americano: os responsáveis pelas regras podem ser os próprios políticos que participam da disputa.

Foi o que aconteceu em 2018, quando Brian Kemp (republicano) disputou o governo da Geórgia contra Stacey Abrams (democrata). Kemp ocupava a secretaria de estado, responsável por estabelecer e fiscalizar as regras da votação e decretar oficialmente o vencedor da eleição no estado.

Mais de 53.000 inscrições de eleitores ficaram em suspenso por diferenças entre os nomes em seus documentos e o dos registros eleitorais (às vezes por uma abreviação ou pela falta de um hífen). Sete entre dez desses eleitores eram negros; três em cada dez habitantes da Geórgia são negros.

Votos enviados à distância foram invalidados porque as assinaturas não batiam com aquelas do sistema. Em algumas seções eleitorais, as filas eram de 3, 4 ou 5 horas. Prevendo o caos, a campanha de Abrams criou uma linha telefônica para receber denúncias de problemas.

Depois de inúmeras ações na Justiça e sem admitir a derrota nas urnas, Abrams encerrou sua campanha dez dias depois da eleição. Kemp foi eleito com uma vantagem de cerca de 55.000 votos, de um total de 4 milhões.

Partidários de Abrams afirmam que milhares de votos deveriam ser validados — pela lei do estado, caso a diferença entre os candidatos fosse inferior a 25.000 votos, haveria uma nova votação. Kemp só deixou a secretaria de estado dois dias depois da confirmação do resultado.

O excelente documentário Até o Fim: A Luta pela Democracia, disponível na Amazon Prime Video, conta a história da supressão do voto nos Estados Unidos e da eleição de Kemp

Confusão e desinformação

Uma forma menos óbvia de supressão do voto é a desinformação. Alguns eleitores não vão votar porque não sabem se sua seção ainda está aberta. Outros não têm certeza se seus registros ainda são válidos.

Em 2020, muitos têm medo que seus votos não contem porque serão enviados pelo correio. O maior divulgador dessa teoria — comprovadamente falsa, de acordo com décadas de experiência — é o presidente Donald Trump.

Há meses, Trump vem afirmando que a votação à distância abre o caminho para fraudes massivas, embora ele próprio tenha votado pelo correio em eleições passadas.

Trump tenta fazer uma distinção que não faz sentido, afirmam os especialistas em eleições. O voto pelo correio normalmente é uma opção para quem não poderá votar no dia, o chamado “voto ausente”.

Neste ano, por causa da pandemia, as regras para essa modalidade foram flexibilizadas, e em alguns estados todos os eleitores receberam cédulas pelo correio para evitar aglomerações no dia 3 de novembro.

O presidente diz que não há problemas com o “voto ausente” (modalidade que ele usou no passado), mas sim com a votação à distância “universal”. Mas o sistema é o mesmo para ambas.

Ao que tudo indica, as teorias da conspiração promovidas por Trump não têm surtido o efeito esperado. Até nesta quarta-feira, cerca de 65 milhões de eleitores já haviam votado antecipadamente (outra particularidade americana: algumas seções abrem dias antes da data oficial).

Mas o risco de contestações judiciais ainda não foi afastado. Mais de 300 processos em relação ao voto à distância já foram apresentados. Eles vão desde o prazo limite para recebimento das cédulas até a aderência às regras estabelecidas.

Na Pensilvânia, um dos estados-chave no colégio eleitoral, os eleitores têm de colocar suas cédulas num envelope em branco (para garantir o anonimato), que por sua vez vai dentro de outro envelope para postagem.

Se o eleitor esquecer de usar o envelope “de sigilo”, seu voto não será contabilizado. Quatro anos atrás, Donald Trump levou todos os 20 delegados da Pensilvânia no colégio eleitoral com uma vantagem de 44.000 votos. Um integrante da comissão eleitoral do estado afirmou que até 100.000 votos podem ser anulados neste ano por falta do segundo envelope.

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Ministro alemão espera que país tenha 20 mil casos diários de covid-19

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Na Alemanha, novas infecções crescem entre 70% a 75%

O número de novas infecções pela covid-19 na Alemanha provavelmente atingirá 20 mil por dia no fim desta semana, disse hoje (27), em Berlim, o ministro da Economia do país, Peter Altmaier.
“Estamos lidando com um crescimento exponencial”, disse Altmaier em uma conferência econômica franco-alemã por vídeo em Berlim. “Na Alemanha, o número de novas infecções está crescendo entre 70% a 75% comparado com a semana anterior”, afirmou.
A previsão mostra que a Alemanha vive uma alta mais rápida nos casos de coronavírus do que a anteriormente esperada. Ao fim de setembro, a chanceler Angela Merkel disse que poderia haver 19.200 casos diários até o Natal.  Nesta terça-feira, o número de novos casos confirmados de coronavírus foi de 11.409.
Merkel e líderes dos 16 estados do país se reunirão na quarta-feira (28) para decidir sobre novas medidas de restrição para desacelerar a segunda onda da pandemia.

 

Agência Brasil

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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

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