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domingo, 29/03/2026

Municípios que mais desmatam têm renda 27% menor que a média do Brasil

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Em Brasília

GABRIEL GAMA E GUSTAVO QUEIROLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

As 50 cidades do Brasil com maior desmatamento têm uma renda 27% menor que a média dos municípios do país, segundo estudo da Folha.

O levantamento comparou o desmatamento acumulado entre 2008 e 2022, com base no sistema Prodes do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e a renda mensal por município em 2022, dado mais recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em 2022, a renda média nacional do trabalho para pessoas com 14 anos ou mais era de R$ 2.850,64, sem ajuste pela inflação. Nas cidades com maior devastação da natureza, esse valor cai para R$ 2.092,68.

“Existe um mito de que o desmatamento traz progresso e desenvolvimento humano, mas estudos científicos mostram que isso não é verdade”, afirma Patrícia Pinho, autora do próximo relatório do IPCC, painel das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, e diretora adjunta de ciência da ONG Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Das 50 cidades com maior destruição de ecossistemas, 47 têm renda abaixo da média. Exemplos são Altamira (PA), o município mais extenso do país e com maior índice de desmatamento no período, onde a renda per capita é de R$ 2.491,17, e Lábrea (AM), que lidera o desmatamento no Amazonas, com renda de R$ 1.590,46.

Apenas três cidades, todas em Mato Grosso, têm renda acima da média nacional: Aripuanã (R$ 3.209,40), Nova Bandeirantes (R$ 2.875,32) e Paranatinga (R$ 2.852,79).

Em Paranatinga, a área de plantio de soja aumentou quatro vezes entre 2008 e 2022, passando de 63 mil hectares para 260 mil hectares, conforme o IBGE. Já em Aripuanã e Nova Bandeirantes, não havia cultivo de soja em 2008, mas em 2022 as plantações atingiram, respectivamente, 4.200 e 3.700 hectares.

Jaçanan Milani, professora de engenharia florestal na UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), explica que o aumento da renda média não reflete uma distribuição justa da riqueza. “As regiões de Aripuanã e Paranatinga possuem grandes propriedades rurais que pertencem a poucos fazendeiros, que concentram a maior parte dos recursos.”

A cientista Luciana Gatti, do Inpe, ressalta que os lucros ficam nas mãos de poucos. “A economia é limitada, pois a agricultura ultramecanizada emprega pouca gente, o que mantém as populações dessas cidades em situação de pobreza.”

Patrícia Pinho, do Ipam, observa impactos financeiros e sociais negativos causados pelo desmatamento, como doenças e violência. “O desmatamento pode gerar um aumento temporário de renda para alguns que retiram a madeira, mas não oferece uma renda estável nem progresso social duradouro.”

Além disso, a destruição das florestas contribui para as mudanças climáticas. “O desmatamento reduz a chuva e aumenta a temperatura, afetando diretamente a produção agrícola. As áreas mais desmatadas terão um clima mais alterado, prejudicando as comunidades locais”, explica Luciana Gatti.

Também há uma grande economia ilegal ligada ao desmatamento. “Grande parte do desmatamento está relacionada a atividades clandestinas e lavagem de dinheiro”, diz Philip Fearnside, cientista do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

Segundo uma estimativa do governo federal, 74% do desmatamento em propriedades rurais no Brasil em 2022 foi ilegal. A ilegalidade representa 50% do desmatamento no cerrado e chega a 90% na Amazônia.

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