Pular para o conteúdo
Dólar R$ 5,08 ▼ 0,57% Euro R$ 5,87 ▼ 0,00% Libra R$ 6,84 ▼ 0,18% Bitcoin R$ 333.134 ▲ 0,34%
Mundo

Multidão canta saudação nazista em show na Croácia

Emica Elvedji/PIXSELL/picture alliance

No último sábado (6/7), uma multidão participou de um show do polêmico cantor nacionalista croata Marko Perković Thompson na cidade de Zagreb, Croácia. O evento foi anunciado como o maior concerto privado da Europa e chamou atenção pelo uso de uma saudação associada à era nazista em uma das músicas mais conhecidas do artista.

A música inicia com a frase “Pela pátria, prontos!”, lema do regime fascista Ustase, aliado dos nazistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O público presente, segurando bandeiras croatas, repetiu essa saudação durante a apresentação.

O grupo Ustase foi responsável por perseguições e assassinatos brutais de milhares de sérvios, judeus, ciganos e opositores antifascistas croatas entre 1941 e 1945. Eles chegaram ao poder após a invasão da Alemanha e a criação do Estado Independente da Croácia, governo considerado fantoche. Além da frase, o regime usava saudações nazistas com gestos específicos.

Apesar das evidências históricas, ainda há quem veja os líderes do regime como fundadores da independência da Croácia. O regime caiu com a derrota do Eixo, e a Croácia voltou a integrar a antiga Iugoslávia.

Publicidade

Segundo os organizadores, cerca de meio milhão de pessoas assistiram ao show na capital croata. Imagens exibidas pela mídia local mostraram inúmeros fãs repetindo a saudação nazista ao longo do dia.

Marko Perković, conhecido artisticamente como Thompson, nega que suas músicas tenham ligação com o fascismo. Ele afirma que suas letras expressam amor a Deus, família, pátria e povo. Thompson diz que a saudação presente em sua canção remete à guerra étnica ocorrida entre 1991 e 1995, quando a Croácia declarou independência da antiga Iugoslávia, definindo sua música como um “testemunho de uma época”. Naquele conflito, a frase foi usada informalmente por tropas separatistas.

A saudação é alvo de controvérsia na Croácia. Políticos nacionalistas defendem uma interpretação histórica ligada ao conflito dos anos 1990, enquanto opositores ressaltam sua conexão com o regime fascista. Apesar de proibida oficialmente, a aplicação da lei varia, e decisões judiciais autorizam seu uso em contextos artísticos e históricos, como no caso da música de Thompson.

O cantor também expressa em outras canções uma visão expansionista da Croácia, considerando regiões da Bósnia parte do país. Due a tais conteúdos, já teve apresentações proibidas em países como Holanda, Suíça e Bósnia por alegações de associação à ideologia nazista.

A polícia da cidade de Zagreb mobilizou cerca de 6 mil agentes para garantir a segurança do evento que ultrapassou a venda de 490 mil ingressos, em uma cidade de 800 mil habitantes. As autoridades enfrentaram um desafio sem precedentes para evitar incidentes graves.

Críticas vieram de diferentes setores. O jornal croata Večernji List destacou que o show foi marcado pelo uso de símbolos de um regime responsável por execuções em massa. A emissora regional N1 ressaltou que as origens da saudação são claramente ligadas ao regime Ustase e comentou que a Croácia ainda está longe de romper com símbolos associados ao nazismo para evitar distorções históricas e o ressurgimento de um passado sombrio.

Em países como a Alemanha, o uso de saudações nazistas é ilegal, podendo levar a multas e prisão. O presidente sérvio Aleksandar Vučić criticou o evento como uma demonstração de apoio a valores pró-nazistas, e o ex-presidente sérvio Boris Tadić qualificou a apresentação como uma vergonha para a Croácia e para a União Europeia, da qual a Croácia é membro.

O presidente croata Zoran Milanović já se posicionou contra a presença de símbolos Ustase em eventos, afirmando que esses elementos não têm espaço na atual república democrática da Croácia.

A popularidade de Thompson no país reflete o clima nacionalista que persiste desde o fim da guerra de independência croata nos anos 90. O cantor ganhou destaque especialmente no período pós-guerra e já se apresentou em eventos oficiais junto a políticos influentes.

A historiadora e musicóloga Lada Duraković argumenta que, diante do avanço da direita na Croácia e em outras partes do mundo, a popularidade de Thompson é compreensível. Na Croácia, seu sucesso está ligado mais à libertação de 1995 que à guerra contra os sérvios, apontando para uma aceitação social do extremismo de direita, inclusive com apoio das elites.

Duraković ressalta ainda que, em um país onde até a Academia Croata de Ciências e Artes busca reabilitar a imagem do regime Ustase, os símbolos fascistas presentes nos shows de Thompson são parte de um processo institucional de normalização do revisionismo histórico.

Boletim Imprensa Pública

Comece o dia bem informado

O essencial do DF, do Entorno e do Brasil, de graça, no seu e-mail.