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sábado, 07/03/2026




mulheres líderes enfrentam barreiras por gênero

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CRISTIANE GERCINA E GABRIELA CECCHIN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Oito em cada dez mulheres que ocupam cargos de liderança afirmam ter tido dificuldades no trabalho por causa do gênero, segundo pesquisa feita pela Todas Group junto com a empresa Nexus, que faz estudos e coleta dados.

O estudo revelou que 77% das mulheres líderes ouvidas disseram ter passado por bloqueios por serem mulheres. Desse grupo, 46% relataram enfrentar algumas dificuldades e 31% muitas barreiras. Apenas 17% nunca vivenciaram tais problemas.

Quanto mais alta a posição, maior a percepção dessas dificuldades. Entre presidentes, vice-presidentes, sócias e CEOs, 40% enfrentam muitas barreiras relacionadas ao gênero, um número maior que a média geral.

Quando perguntadas sobre qual mudança gostariam de ver no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, 20% desejaram programas para acelerar e desenvolver suas carreiras.

A pesquisa foi realizada com 1.534 mulheres, no período de 6 a 22 de fevereiro de 2026, totalmente online. A base de pesquisa incluiu 25 mil mulheres cadastradas pela Todas Group, todas atuantes em grandes empresas e startups no Brasil.

Dhafyni Mendes, cofundadora da Todas Group, destaca: “Três em cada quatro mulheres sentem algum nível de desigualdade, seja óbvia ou sutil. Isso mostra que o desafio não é só ter acesso aos cargos, mas conseguir reconhecimento proporcional pelo que contribuem.”

Ela acrescenta que estudos globais confirmam que mulheres entregam resultados iguais aos homens, mas recebem menos reconhecimento, o que prejudica promoções e crescimento na carreira. “Ter mais homens participando dessas conversas é importante para manter talentos.”

Além de programas de aceleração, 17% das mulheres gostariam de ver mais promoções femininas para cargos importantes, enquanto 16% desejam horários de trabalho mais flexíveis para equilibrar vida profissional e pessoal.

Outras demandas incluem conscientização dos homens sobre comportamentos que desvalorizam as mulheres (11%), transparência nos critérios para promoções (10%) e igualdade salarial (10%).

Pamela Satubal, advogada de 32 anos, conta que logo no começo da carreira percebeu desigualdade de gênero. No estágio, colegas homens tinham benefícios melhores mesmo fazendo o mesmo trabalho. “Notei que o vale-alimentação deles era maior e a bolsa aumentava, enquanto a minha não”, relata.

Ela também sofreu com discriminação e comentários machistas: “Homens eram convidados para reuniões importantes; ouvi que a estagiária mais bonita deveria falar com clientes.” Pamela pensou em desistir da advocacia, mas continuou. Hoje sócia da Mota Assessoria, com mais de 60 funcionários, ela fez terapia para entender que não era incapaz, apenas diminuída por ser mulher.

Danielly Oliveira, comunicadora de 31 anos, precisou provar seu talento várias vezes para ser líder. Idade e gênero eram usados para duvidar de sua capacidade. “Mesmo com bons planos, minha ideia só era aceita quando confirmada por um homem”, conta.

Maria Cecilia Lemos, professora de pós-graduação em direito do trabalho, alerta que assédio moral ou sexual prejudica a permanência das mulheres no mercado. “Ele cria ambientes ruins, levando muitas a saírem ou interromperem suas carreiras.”

Ela explica que a desigualdade vem de uma divisão histórica de tarefas: homens com trabalho produtivo e mulheres com as tarefas domésticas, criando uma hierarquia que valoriza mais o trabalho masculino.

“Característica de liderança, como ser firme e competitivo, ainda são vistas como coisa de homem. Muitas mulheres precisam se superar para serem reconhecidas igual”, explica Maria Cecilia.

O estudo detalhou que dificuldades variam por setor. Em marketing e comunicação, 84% enfrentam barreiras de gênero. Na tecnologia e startups, esse número é 81%, mesmo percentual de recursos humanos e consultoria.

Juliana Notari, marionetista com 45 anos, diz que enfrentou discriminação durante seus 25 anos de carreira. Ela conta que é mais difícil ter seus trabalhos aceitos em festivais e editais, porque quem decide ainda são majoritariamente homens. “Quando não somos programadas, parece que não existimos no meio artístico”, comenta.

Juliana já apresentou suas obras em mais de 40 países. Um espetáculo recente que fala sobre corpo e identidade feminina levou anos para encontrar espaço no Brasil.

HOMENS DIFICULTAM PROMOÇÕES

A pesquisa mostrou que 63% das mulheres sentiram que os homens dificultam seu crescimento no trabalho. Apenas 23% acreditam que seus serviços são igualmente valorizados como os dos homens nas empresas.

Além disso, comentários machistas são comuns: só 11% disseram nunca presenciar essas situações.

Ana Lemos, gerente de pesquisa da Nexus, conta que em empresas onde há equilíbrio entre homens e mulheres na liderança, há menos preconceito. “Nesses locais, 65% dizem raramente ou nunca ouvir comentários machistas, número 24 pontos percentuais maior que a média geral, o que mostra que ambientes equilibrados têm menos discriminação.”




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