RAFAEL CARIELO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Em uma sala de aula, uma professora ensina jovens e adultos a ler e escrever. Do lado de fora, uma menina observa pela janela: sua avó está ali, escrevendo na lousa. Essa lembrança pertence à primeira década dos anos 2000, na cidade de Lajedo, em Pernambuco.
Sara Manoela Leal de Oliveira, 24 anos, nasceu em São Paulo, onde sua mãe se mudou no final dos anos 1980. Ela costumava visitar a avó em Pernambuco. Conta que sua avó, já com mais de 40 anos, decidiu virar professora e trabalhava na escola algumas horas por dia, dividindo seu tempo com a casa e a família.
Hoje, Sara trabalha em uma empresa ligada ao TikTok. Ela leva cerca de uma hora para ir e outra para voltar do trabalho no metrô. Seu contrato prevê cerca de seis horas e 20 minutos de trabalho diário, em um regime presencial seis dias por semana. Formada em jornalismo, Sara cursa uma segunda faculdade a distância. Começou a trabalhar aos 14 anos ajudando os pais na banca na rua, vendendo acessórios.
Essa diferença entre a realidade de trabalho de Sara e a de sua avó mostra como a dedicação das mulheres ao trabalho no Brasil mudou bastante nos últimos 35 anos.
Um estudo feito pelo economista Daniel Duque, usando dados sobre horas trabalhadas em 160 países, mostra que nos anos 1990 e início dos anos 2000, as mulheres brasileiras trabalhavam menos horas do que o esperado para um país com a produtividade do Brasil naquela época.
Desde então, a carga de trabalho das mulheres no Brasil tem se aproximado do que é comum em países similares, em termos de produtividade e população.
Daniel Duque diz que essa mudança pode estar ligada a transformações culturais na divisão das tarefas entre homens e mulheres, dentro e fora de casa. Ele também comenta que as dificuldades econômicas desde os anos 1990 podem ter feito com que mais mulheres trabalhassem para ajudar a renda familiar.
Observa-se que as mulheres mais jovens trabalham mais horas do que a média mundial para sua faixa etária, por exemplo, entre 15 e 19 anos, elas trabalham quase duas horas a mais do que o esperado.
Duque lembra que o tempo que as pessoas gastam trabalhando não é só o do trabalho pago. Muitas vezes, elas também passam horas se deslocando ou realizando tarefas domésticas e de estudo.
Raphaela Carvalho, 23 anos, trabalha como operadora de telemarketing. Ela frequentemente faz horas extras e ganha parte do salário por comissão. Ela passa mais de três horas por dia no transporte entre sua casa, em Suzano, e o trabalho, em São Paulo. Sua mãe também trabalha muito.
A avó de Raphaela trabalhava menos horas, conta ela. Uma das avós parou de trabalhar por causa de um câncer, e a outra trabalha poucas horas por dia preparando alimentos para vender.
Raphaela deseja continuar trabalhando muitas horas semanais, mas em outra área. Estuda antes de dormir e nos deslocamentos, sonhando cursar medicina. No ano anterior, quase foi aprovada e aguarda a próxima chamada.

