Catia Seabra e Victoria Azevedo
Brasília, DF (Folhapress) – O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), expressou nesta quarta-feira (2) ao Palácio do Planalto seu descontentamento com as críticas que tem recebido nas redes sociais, em meio a uma crise que afeta a relação do governo Lula (PT) com a liderança do Congresso Nacional.
Durante sua viagem a Portugal para o 13º Fórum de Lisboa, Motta reclamou principalmente das declarações feitas por Lula e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre suposta quebra de acordo em relação à tramitação do aumento das alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O deputado nega ter concordado com a proposta do governo.
Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), também em Lisboa, sugeriram a interlocutores do governo um gesto de aproximação para o presidente da Câmara, buscando restabelecer o diálogo com Motta.
Alertada por emissários do governo sobre o incômodo gerado e contrariada com vídeos críticos ao presidente da Câmara, a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) repudiou os ataques a Motta. Ela afirmou nas redes sociais que, embora a disputa política seja legítima em uma democracia, isso não justifica ataques pessoais e desrespeitosos contra o presidente da Câmara.
“Não é desse modo que construiremos soluções para o Brasil, especialmente em temas como a justiça tributária”, declarou Gleisi.
Também o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), manifestaram apoio a Motta. Guimarães ressaltou que a derrota do governo na votação do IOF não serve de motivo para ataques pessoais, reafirmando sua solidariedade ao presidente da Câmara, que tem direito a defender suas convicções em uma democracia plena.
Aliados do presidente da Câmara interpretam as declarações como reflexo do temor do governo diante de possíveis novas derrotas na Câmara, onde várias pautas de interesse do governo estão em tramitação.
O ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, que participou do mesmo fórum, reforçou os esforços de conciliação conduzidos pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, relator da ação do governo para reativar o decreto do IOF.
Messias enalteceu a capacidade de diálogo de Motta e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ambos envolvidos na decisão de colocar a derrubada do decreto em pauta sem aviso prévio ao governo.
“Tenho confiança que, com a liderança do presidente Lula, que já indicou a intenção de se encontrar com eles após o encontro dos Brics, será possível encontrar uma solução”, afirmou Messias.
No Brasil, o presidente Lula classificou a decisão de Motta de levar a votação a derrubada do decreto como “absurda”, alegando descumprimento do acordo fechado. Ele ressaltou que não há ruptura entre o Executivo e o Congresso.
As declarações do presidente da República intensificaram a irritação de Motta, conforme relato de aliados. O parlamentar assegurou em Lisboa que jamais assumiu compromissos sobre os textos e evitou confrontar o presidente Lula diretamente nas redes sociais.
A relação entre Motta e o governo deteriorou-se após o anúncio repentino pela internet de que a votação do decreto ocorreria no dia seguinte, sem consulta prévia ao governo, ato interpretado por Lula como uma traição. Motta preferiu não se manifestar publicamente sobre o episódio.

