A manifestação da própria tristeza nas redes sociais tem se tornado cada vez mais frequente. Para várias pessoas, compartilhar o sofrimento, especialmente após um término, pode ser uma forma de aliviar a dor emocional. É uma tentativa de organizar os pensamentos e buscar apoio em um ambiente que muitas vezes substitui a escuta que falta na vida offline.
Débora Porto, psicóloga de Brasília, comenta que “isso pode funcionar como uma catarse, especialmente quando a pessoa não encontra espaços íntimos de escuta na vida real. Escrever ou gravar sobre o que se sente ajuda a liberar emoções reprimidas.” No entanto, essa abertura ao público pode ter efeitos confusos e até dolorosos.
Débora enfatiza que, embora compartilhar possa trazer autenticidade e conexão com seguidores, isso pode dificultar o processo de elaboração do luto emocional. “O luto exige tempo, reflexão e muitas vezes privacidade para ser vivido. Ao expor a dor publicamente, a pessoa corre o risco de ser julgada, pressionada a demonstrar seu sofrimento ou até explorada pela mídia.” Esse excesso de exposição pode prolongar a dor, reabrindo feridas a cada comentário ou mensagem recebida.
A psiquiatra Vanessa Greghi, diretora médica do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP), destaca que o impacto pode ser significativo. “Expor um término ou o luto publicamente pode agravar quadros de depressão ou ansiedade. A exposição constante gera um estado de alerta, fazendo a pessoa reviver a dor a cada nova manifestação.”
Esse ciclo pode desencadear crises de pânico, insônia e até depressão, especialmente em adolescentes, que são mais vulneráveis ao bullying e à superexposição digital. Outro fator preocupante é a comparação com a vida perfeita que aparece nas redes sociais. Ver casais felizes e histórias de superação pode ser devastador para quem está emocionalmente frágil.
Débora explica que “a autoestima cai não apenas pelo término, mas pela comparação com um ideal inatingível de amor e felicidade, o que pode gerar ansiedade, isolamento e até comportamentos impulsivos como retomar a relação ou vigiar excessivamente a vida do outro.”
O retorno das redes sociais é uma via de mão dupla. Curtidas e comentários podem trazer alívio e sensação de pertencimento, mas também criam uma dependência emocional perigosa. “Mesmo que as curtidas e mensagens incentivem a buscar ajuda, elas podem causar dependência de validação. Quando o engajamento diminui, a dor tende a voltar mais forte”, alerta a psicóloga.
A exposição em momentos delicados pode causar crises de pânico, insônia e agravamento da depressão. Além disso, comentários muitas vezes reforçam narrativas simplistas, dificultando a elaboração saudável do luto, que passa por sentimentos variados como dúvida, raiva e saudade. Vanessa ressalta que, em estados de fragilidade, a capacidade de julgamento está comprometida.
“É fundamental refletir antes de se expor nas redes nesses momentos. O sistema emocional está fragilizado, diminuindo a capacidade de tomar decisões acertadas. As pessoas podem acabar dizendo coisas que depois irão se arrepender”, alerta a psiquiatra.
Para indivíduos com transtornos de personalidade, como o transtorno borderline, a exposição pode provocar reações ainda mais intensas e impulsivas, aumentando o sofrimento.
Sinais de que a exposição pode estar prejudicando
Existem sinais claros de alerta para identificar quando a exposição ultrapassa limites saudáveis. Compartilhar tudo para se sentir notado, depender das reações da audiência para controlar o humor ou não conseguir enfrentar o luto longe das redes são indícios preocupantes.
Se surgirem sintomas como insônia, pensamentos obsessivos ou comportamentos que colocam a integridade em risco, é fundamental buscar ajuda profissional.
No fim das contas, dividir a dor nas redes pode proporcionar um alívio temporário, mas dificilmente substitui o processo interno necessário para lidar com as perdas.
A reflexão que fica é: será que é realmente benéfico se expor demais? Talvez seja mais saudável reservar momentos íntimos para elaborar os sentimentos e, se necessário, buscar apoio profissional para atravessar o luto ou o término com mais profundidade e menos interferência externa.