Álexia Sousa
Rio de Janeiro, RJ
A maioria das mortes em operações policiais na Baixada Fluminense ocorre em áreas controladas pelo Comando Vermelho (CV), revela uma pesquisa da IDMJRacial (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial) divulgada nesta sexta-feira (24).
Dos 13 municípios da região, cinco concentram 75% das mortes em ações policiais de 2020 a 2025: Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Japeri.
O estudo contou 5.298 operações no período, resultando em 282 mortes, 652 feridos, 5.783 prisões e 41 apreensões de adolescentes. Duque de Caxias lidera com 66 mortos e 160 feridos, seguido por Belford Roxo e São João de Meriti.
A Polícia Civil explica que o aumento das operações é devido à retomada completa das atividades após a pandemia e à criação de delegacias especializadas, ressaltando que a concentração de ações reflete a presença de organizações criminosas fortemente armadas. A Polícia Militar não comentou.
A IDMJRacial destaca que a concentração foi identificada em áreas específicas das cidades, não necessariamente em todos os bairros.
Kharine Gil, responsável pela pesquisa, afirma que os locais mais afetados coincidem com territórios dominados pelo CV, mostrando concentração territorial e por unidade policial.
O 15º Batalhão da Polícia Militar em Duque de Caxias foi o que realizou mais operações (1.289), com o maior número de mortes (71) e feridos (142). Em seguida, vêm o 20º BPM, em Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita, e o 39º BPM em Belford Roxo.
Os dados foram coletados manualmente a partir das postagens das polícias nas redes sociais, como X (antigo Twitter) da PM e Facebook da Polícia Civil, para garantir a precisão das informações.
Embora o número de operações tenha diminuído de 1.486 em 2022 para 655 em 2025, a violência não necessariamente caiu. O ano de 2024 pode conter dados subnotificados por causa da migração da PM do X para o Bluesky.
A participação da Polícia Civil nas operações aumentou consideravelmente, passando de 47 em 2020 para 336 em 2024, com uma taxa de letalidade que subiu de 2% para 18% em 2025.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que o Rio de Janeiro teve uma redução de 20,7% nas mortes violentas em 2025 em comparação a 2020.
Armas e Barricadas
Entre as apreensões feitas em operações, pistolas representam 21%, rádios comunicadores 19,9% e fuzis 5,5%. A IDMJRacial questiona se a força usada nas ações é proporcional ao armamento encontrado, já que em algumas operações as apreensões incluíam principalmente rádios e pequenas quantidades de drogas, mas poucas armas poderosas.
Foram realizadas 257 operações focadas apenas na retirada de barricadas, sendo 71 em 2025. O programa Barricada Zero, lançado em Belford Roxo, visa combater essas barreiras, mas a presença policial nessas ações é considerada violenta e pode causar confrontos e mudanças no dia a dia dos moradores.
A IDMJRacial destaca que os números de mortos, feridos, presos e adolescentes apreendidos correspondem às informações disponíveis no momento das operações, sem acompanhamento posterior das vítimas ou dos adolescentes no sistema socioeducativo.
Polícia Civil: Sem intenção de confrontos
A Polícia Civil afirma que o aumento das ações se deve à retomada total das atividades e à criação de delegacias especializadas, colocadas como necessidade histórica pela população e autoridades locais.
O objetivo das operações é cumprir mandados judiciais, prender criminosos e proteger a população, e a concentração de ações reflete a forte presença de organizações criminosas armadas nas regiões afetadas.
A corporação esclarece que não planeja confrontos, mas atua dentro dos limites da lei; a reação armada vem dos criminosos que escolhem enfrentar o Estado. Quando há rendição, ocorre prisão; se há ataques com armas de guerra, a resposta policial é legal e proporcional.
