Bárbara Sá
Folhapress
Na Escola Estadual Professor Lourenço Filho, localizada no Planalto Paulista, zona sul de São Paulo, a rotina dos alunos mudou com a chegada do modelo cívico-militar, implementado pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Agora, os estudantes enfrentam filas, cantam o hino nacional e seguem regras específicas para o cabelo e uso do uniforme.
Dois policiais militares aposentados foram designados para atuar na escola. O monitor, tenente Gilberto Pereira da Silva Junior, 55 anos, explica que os cortes de cabelo devem ser discretos e adequados ao ambiente escolar, proibindo cores chamativas ou estilos extravagantes. Ele ressalta que a mudança é gradual e que o objetivo é estabelecer limites, sem proibir a individualidade dos alunos fora da escola.
O projeto começou em 2 de junho e está presente em 100 escolas estaduais de São Paulo. São 208 policiais militares aposentados trabalhando como monitores para apoiar cerca de 53 mil alunos, o que representa aproximadamente 1,5% do total de matriculados na rede estadual.
Vinicius Neiva, secretário executivo da Secretaria Estadual de Educação, informou que a quantidade de monitores por escola será definida conforme a necessidade individual de cada unidade escolar.
Na Escola Estadual Professor Lourenço Filho, uma revista matinal foi instaurada para orientar os alunos sobre postura, ética, educação e organização. Conforme o secretário executivo, essas regras ajudam a manter a disciplina, o respeito e evitam situações de bullying, brigas e preconceito.
A sargento aposentada e monitora do projeto, Elan Bispo, 55 anos, também formada em pedagogia, destacou que a proposta é contribuir para a formação integral dos alunos, reforçando valores cívicos além do conteúdo escolar. Ela menciona que a educação cívica prepara os alunos para seus direitos e deveres na vida.
Os monitores recebem treinamento e atuam em parceria com a direção e coordenação pedagógica das escolas, seguindo normas da Secretaria da Educação. Vinicius Neiva reforça que o modelo cívico-militar não interfere no conteúdo educacional das aulas. A principal mudança está no suporte à rotina disciplinar e na oferta de uma disciplina complementar focada na cidadania.
Andreia Morais, 50 anos, mãe de um aluno do 6º ano, relata que a mudança representa um desafio para seu filho, que é comunicativo. A família apoiou a implementação do novo modelo. Ela ressaltou que, apesar dos ajustes iniciais, cada família deve escolher a escola que melhor corresponde aos seus valores e necessidades.
Andreia observou que seu filho reagiu à exigência de um corte de cabelo específico, mas que a situação foi resolvida por meio de diálogo. Para ela, regras moderadas são necessárias para manter a ordem, embora discorde de proibições extremas quanto à aparência dos alunos.
Uma estudante ouvida pela Folha disse não se incomodar com a obrigatoriedade do uniforme, mas apontou problemas na qualidade das peças, com algumas camisetas sendo transparentes demais. Em algumas escolas, o ano letivo iniciou sem a entrega dos uniformes, e os pais foram orientados sobre o vestuário adequado para os alunos.
Vinicius Neiva explicou que a entrega dos uniformes está em andamento e que alguns ajustes são esperados devido a problemas na compra, certificação e adequação dos tamanhos. A licitação, aberta em abril do ano anterior, prevê a compra de 1,2 milhão de peças, incluindo camisetas, calças, casacos e bermudas nas cores azul e branco.
Segundo a secretaria, quatro modelos de camisetas não cumpriram as especificações técnicas e foram excluídos da licitação, que segue em processo para garantir a qualidade dos uniformes.
As regras exigem que as meninas usem o cabelo preso e os meninos com cortes curtos. Bonés, piercings e roupas curtas estão proibidos.
Implementação Atrasada
O programa, que era promessa do governador para conquistar apoio da base bolsonarista, deveria ter começado no ano letivo de 2025, mas enfrentou bloqueios judiciais. Apesar da importância política, o programa não é prioridade na equipe de Educação do governo. Em maio de 2024, o governador realizou um evento para sancionar o projeto com presença de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas o secretário de Educação, Renato Feder, não participou.
A implementação terá um custo adicional anual de R$ 17 milhões, destinados aos pagamentos dos militares aposentados que atuam como monitores. Eles recebem uma diária de R$ 301,70, o que totaliza cerca de R$ 6.000 mensais se cumprirem a carga horária máxima de 40 horas semanais, somado à aposentadoria.
A maioria dos selecionados são praças, militares de menor patente, que não precisam ter formação superior, diferentemente dos professores, cujo piso salarial é R$ 5.565 e exige formação superior adequada para atuar em sala.
