LAIZ MENEZES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Quase metade das mulheres que têm câncer de mama enfrentam dificuldades para pagar os custos do tratamento, segundo pesquisa do Datafolha feita para a Astrazeneca e divulgada nesta segunda-feira (27). Os principais desafios são pagar remédios, exames, transporte, alimentação, moradia e conseguir benefícios sociais.
Segundo o levantamento, 48% dessas mulheres têm problemas para custear medicamentos, exames e obter benefícios previdenciários, enquanto 45% têm dificuldade para pagar o transporte até o tratamento. Além disso, 42% têm problemas para manter uma alimentação adequada e pagar moradia.
A pesquisa foi feita entre 22 de setembro e 10 de outubro, ouvindo 241 pacientes com câncer de mama em todo o país.
Entre as mulheres que trabalhavam com carteira assinada (52%) ao receber o diagnóstico, 53% disseram que não tiveram apoio suficiente do empregador, seja para ajustar horários, rever metas ou diminuir a cobrança no trabalho.
Para Luciana Holtz, fundadora e presidenta do Instituto Oncoguia, esses dados mostram um problema comum para mulheres com câncer de mama: o que ela chama de “dificuldade financeira causada pela doença”. “Esses custos aparecem de repente e afetam muito a vida dessas mulheres. Muitas vezes elas não têm apoio no trabalho, na família ou no sistema de saúde para o que precisam naquele momento”, explica.
Perder o emprego ou precisar de auxílio-doença piora a situação financeira da paciente e da família. Mesmo quem tem plano de saúde acaba gastando com remédios para controlar efeitos colaterais e exames específicos que não são cobertos.
A pesquisa também revelou falta de ajuda social. Três em cada dez pacientes disseram que faltou alguém para levá-las às consultas ou apoiá-las durante internações ou cirurgias. Uma em cada quatro sentiu falta de um acompanhante nas sessões de tratamento ou exames importantes.
Além dos desafios financeiros e sociais, o acesso a exames que ajudam a personalizar o tratamento é desigual. Apenas 39% das mulheres fizeram teste genético para identificar mutações ligadas ao câncer de mama, caindo para 16% entre as que são atendidas somente pelo SUS.
Especialistas afirmam que esse exame é fundamental para prevenir e escolher tratamentos eficazes, mas ele ainda é feito em poucos centros e custa entre R$ 1.600 e R$ 4.000 na rede privada.
Holtz destaca que falta informação sobre o exame genético e sobre o próprio câncer de mama. “Muitas mulheres não sabem se fizeram o teste ou qual o tipo de câncer têm. Essa informação é muito importante, pois define os passos do tratamento”, afirma. “Cabe ao médico passar essa informação e à sociedade conscientizar as pacientes.”
45% das pacientes relataram dificuldade para pagar transporte ao tratamento. O Ministério da Saúde anunciou recentemente um auxílio para transporte, alimentação e hospedagem para quem precisa se deslocar para radioterapia pelo SUS.
Além disso, 43% das pacientes sentiram falta de espaços para trocar experiências com outras mulheres que passam pela mesma situação, mostrando a importância do apoio e acolhimento emocional durante o tratamento.
CUIDADORES ENFRENTAM DESAFIOS FINANCEIROS E SOBRECARGA
Outra pesquisa Datafolha, feita para a Astrazeneca e divulgada também nesta segunda-feira, ouviu 600 cuidadores em todo o país entre 25 de setembro e 3 de outubro. Eles formam a rede de apoio das pacientes, composta em sua maioria por familiares (69%) e amigos (31%).
O SUS é o local mais citado para tratamento (44%), seguido por clínicas particulares (33%) e o uso dos dois sistemas juntos (23%).
Quase todos os cuidadores oferecem apoio emocional (99%), além de trocar informações sobre a doença (94%), dar suporte espiritual (87%), ajudar nas tarefas domésticas (86%), transportar (85%), cuidar das finanças (67%) e dos filhos (55%).
Mais de três em cada quatro cuidadores (77%) disseram já ter se sentido despreparados para a situação, e 73% sentiram falta de ajuda de outras pessoas. A falta de dinheiro também é uma das principais dificuldades (64%).
Embora 78% tenham conseguido equilibrar a vida pessoal e o trabalho de cuidar, muitos abriram mão de outras coisas: 56% deixaram os estudos em segundo plano, 45% sacrificaram a própria saúde, 39% tiraram menos tempo para lazer e vida social, e 28% reduziram o trabalho. Quase metade (45%) sentiu muita sobrecarga.
Oito em cada dez cuidadores ficaram mais ansiosos (78%) ou cansados (77%), seis em cada dez tiveram problemas emocionais (60%) e quatro em cada dez notaram efeitos físicos negativos (41%).
