O Mercosul e a União Europeia estão prestes a assinar um acordo importante neste sábado (17), no Paraguai. Esse acordo criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com o objetivo de encontrar uma ‘terceira via’ diante dos Estados Unidos e da China, embora gere críticas de agricultores europeus e empresários do Brasil e da Argentina.
Juntos, os dois blocos representam 30% do PIB mundial e mais de 700 milhões de consumidores. Apesar da assinatura estar próxima, produtores europeus estão organizando protestos contra o acordo.
A Comissão Europeia negocia esse tratado desde 1999 com os países fundadores do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), e aprovou o texto na última sexta-feira.
A cerimônia de assinatura ocorrerá no teatro José Asunción Flores, na capital paraguaia, às 12h locais (mesmo horário de Brasília). O Paraguai assumiu em dezembro a presidência rotativa do Mercosul, que também inclui a Bolívia.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, viajará para o Rio de Janeiro com António Costa, presidente do Conselho Europeu, antes de seguir para Assunção.
O Conselho Europeu afirmou que “o Brasil é um parceiro-chave da União Europeia em comércio, investimento, clima, multilateralismo, democracia e direitos humanos”.
Além do presidente anfitrião, Santiago Peña, participarão da assinatura o presidente uruguaio Yamandú Orsi e o presidente argentino Javier Milei. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que teve papel fundamental no avanço do tratado, não confirmou presença.
Lula descreveu a data como “histórica para o multilateralismo”, apesar do crescimento do protecionismo global.
– Uma terceira alternativa –
Para o Brasil, a principal economia da América Latina, o acordo é uma forma de mostrar que há um caminho que não depende apenas dos Estados Unidos ou da China, segundo Luciana Ghiotto, doutora em Ciências Sociais.
Ela destacou que o tratado reflete a situação geopolítica atual, já que sua demora se relaciona com as tarifas elevadas impostas pelo governo Trump.
O acordo é uma tentativa da Europa de diversificar suas relações comerciais diante das tarifas americanas e da competição chinesa.
Para a União Europeia, o acordo é uma maneira de reforçar sua autonomia e manter sua relevância política e econômica internacional, segundo Alejandro Frenkel, cientista político.
Para o Mercosul, o acordo representa um avanço frente à crise e fragmentação interna no bloco.
– Protestos e preocupações –
O tratado elimina tarifas para mais de 90% do comércio entre os blocos, facilitando exportações de automóveis, máquinas, vinhos e bebidas europeias para o Mercosul e, em troca, abrindo o mercado europeu para produtos sul-americanos como carne, açúcar, arroz, mel e soja.
Após a assinatura, o pacto precisa ser aprovado por cada país do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, onde a aprovação ainda é incerta.
Produtores agrícolas europeus temem perder espaço para os produtos sul-americanos, que têm normas de produção consideradas menos rigorosas. Protestos já acontecem na França, Polônia, Irlanda e Bélgica.
A Comissão Europeia incluiu cláusulas de proteção para setores como carne, aves, arroz, mel, ovos e etanol, limitando o volume de produtos sul-americanos isentos de tarifas e podendo intervir em caso de desequilíbrios no mercado.
Alguns empresários sul-americanos também estão preocupados. Luciana Ghiotto alerta que o impacto no setor industrial, especialmente automotivo, pode causar a perda de centenas de milhares de empregos no Brasil e Argentina, afetando também indústrias de calçados, couro e móveis.
AFP
