LUCAS MARCHESINI E ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O prejuízo causado pelo Banco Master ao BRB pode ser maior que os R$ 2,6 bilhões identificados até agora pelo Banco Central. Isso porque, para ressarcir o banco estatal de Brasília, Daniel Vorcaro usou fundos compostos por créditos em atraso, ações que perderam valor e imóveis ligados à sua família, que são ativos menos fáceis de vender rapidamente.
Em novembro, o Banco Central constatou que R$ 12 bilhões em carteiras de crédito vendidas pelo Master ao BRB eram fraudulentas, determinando a devolução do montante ao banco de Brasília. O BRB comunicou que recuperou aproximadamente R$ 10 bilhões.
A investigação inicial feita pelo BRB sobre as perdas com o Master identificou que esse total inclui oito fundos vinculados ao banco de Vorcaro. Conforme reportado pela Folha, esses fundos foram transferidos ao BRB e hoje fazem parte do conglomerado financeiro do banco.
Foi descoberto que esses fundos investiram em empreendimentos imobiliários relacionados à família Vorcaro, contêm mais de R$ 800 milhões em créditos com inadimplência, além de ações da Ambipar, empresa de gestão de resíduos que está em recuperação judicial.
O BRB afirmou que qualquer necessidade de aporte financeiro será considerada levando em conta a avaliação completa dos fundos e ativos recebidos do Banco Master. Essa análise integra o levantamento do Banco Central e uma investigação independente conduzida por Machado e Meyer, com apoio técnico da Kroll.
O Banco Central já ordenou que o BRB reserve R$ 2,6 bilhões para cobrir prejuízos provocados pela fraude na negociação com o Master.
O maior dos oito fundos é o Jeitto, que atua com crédito e possui uma carteira superior a R$ 1 bilhão. Desse total, em dezembro de 2025, R$ 952 milhões estavam inadimplentes, levando o fundo a reservar R$ 873 milhões para potenciais perdas.
Esses créditos originaram-se de empréstimos do Banco Master, que tinha um contrato com o fundo estipulando que empréstimos com atraso acima de 90 dias seriam pagos pelo fundo. Essa obrigação foi interrompida ainda no primeiro semestre de 2025.
Em outubro do ano passado, o Master notificou oficialmente os fundos para que recomprassem os créditos vencidos. No entanto, a situação não se regularizou e o fundo suspendeu a aquisição de novos direitos creditórios até a resolução do impasse.
O segundo maior fundo entre os cedidos pelo Master ao BRB é o Kyra, com uma carteira de R$ 882 milhões. Todo esse valor baseia-se em ações da Ambipar, que está sob recuperação judicial.
O valor de mercado das ações da Ambipar caiu de R$ 10,75 para R$ 0,26 após iniciar a suspensão dos pagamentos judiciais e ainda não se recuperou.
Essa queda também impactou outro fundo transferido pelo Master ao BRB, o Texas I. Em setembro de 2025, o patrimônio do fundo era de R$ 634 milhões, sendo R$ 530 milhões em ações da Ambipar. Em dezembro do mesmo ano, o patrimônio líquido caiu para R$ 122 milhões.
O BRB não informou a data nem o valor dos ativos quando os fundos foram transferidos pelo Master.
O terceiro maior fundo é o Supreme Realty, focado em investimentos imobiliários, com uma carteira de R$ 737 milhões.
Desse valor, R$ 264 milhões correspondem a investimentos em projetos imobiliários liderados por Nathalia Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro. O investimento está dividido entre duas empresas, MG I Desenvolvimento Imobiliário, onde Nathalia é diretora, e Brazil Realty Empreendimentos.
A MG I possui a empresa Minas Gerais II Desenvolvimento Imobiliário, que detém 69,5% de um terreno de 76 mil m² chamado “Campo do Meio” em Contagem (MG), região metropolitana de Belo Horizonte. A Brazil Realty detém os 30,5% restantes.
O fundo também investe em outro projeto de Nathalia Vorcaro, o Mountain View, um residencial do programa Minha Casa, Minha Vida em Contagem avaliado em R$ 388 milhões, gerido pela empresa Focus Participação, na qual Nathalia também é diretora.
Outro fundo imobiliário cedido pelo Master ao BRB, o CMX Realty, inclui projetos ligados à família Vorcaro. De seus R$ 118 milhões, R$ 108 milhões correspondem a um empreendimento chamado Pedra Histórica, localizado em Brumadinho (MG).
Esse projeto é gerido pela CMX Realty e Pedra Histórica Holding e Participações, cujos diretores participam de outras iniciativas das empresas do pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro, e de seu cunhado, Fabiano Zettel.
O Banco Master declarou que não houve transferência de ativos ocultos ou fora dos parâmetros contábeis e regulatórios aplicáveis e que as operações seguiram critérios técnicos válidos na época.
O BRB destacou que o valor do aporte necessário para cobrir eventuais perdas será definido após o término das apurações.
Todos os ativos cedidos ao BRB estavam registrados no balanço do Banco Master e integravam suas demonstrações financeiras. Esses ativos passavam por auditorias periódicas e avaliações conforme metodologias formais de risco, respeitando os padrões do banco e supervisores financeiros.
