Candidata do PL tenta transformar projeção conquistada no debate sobre o 8 de Janeiro, apoio de lideranças conservadoras e identificação com famílias atípicas e forças de segurança em votos para deputada federal
Aos 40 anos, Mariana Naime faz em 2026 sua primeira disputa eleitoral. Candidata a deputada federal pelo PL, número 2201, ela chega à corrida por uma das oito vagas do Distrito Federal na Câmara dos Deputados depois de ganhar projeção pública nos últimos anos em um dos debates mais polarizados do país: os processos relacionados aos atos de 8 de Janeiro.
Mariana Fiuza Taveira Adorno Naime nasceu em Niquelândia, Goiás, possui ensino superior completo e não possui candidatura anterior registrada nos dados eleitorais desde 1998.
Sua entrada na política acontece, portanto, sem histórico de votação própria, mas cercada por uma rede de apoios capaz de dar visibilidade nacional a uma candidata estreante.
Maternidade atípica e família entram no centro do discurso
Um dos elementos mais pessoais da candidatura é a experiência de Mariana como mãe atípica.
Em sua apresentação de campanha, ela relata ser mãe de um filho autista que nasceu prematuro e enfrentou problemas neurológicos ainda nos primeiros anos de vida. A experiência passou a sustentar propostas e discursos direcionados às famílias que enfrentam dificuldades para conseguir diagnóstico, terapias, atendimento especializado e inclusão escolar.
Defesa da vida, família, segurança pública e direitos das famílias atípicas aparecem entre as principais bandeiras apresentadas pela candidata.
Mariana também possui alguma experiência anterior dentro da estrutura pública federal. Agenda oficial do Ministério da Justiça registra sua participação, em 2021, vinculada à Diretoria de Políticas de Segurança Pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública em reunião técnica sobre cadeia de custódia.
Caso do coronel Naime projetou seu nome nacionalmente
A maior projeção pública de Mariana ocorreu após a prisão e o processo envolvendo seu marido, o coronel da PMDF Jorge Eduardo Naime Barreto, ex-chefe do Departamento de Operações da Polícia Militar.
Naime foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão no processo relacionado à atuação da cúpula da PMDF durante os atos de 8 de janeiro de 2023. Em março de 2026, o STF determinou o início do cumprimento da pena.
Mariana tornou-se uma das principais vozes públicas em defesa do marido. Participou de audiências na Câmara dos Deputados, manifestações e entrevistas nas quais questionou a condução do processo e passou a defender uma revisão do tratamento dado aos condenados pelos acontecimentos daquele dia.
Essa atuação aproximou seu nome de movimentos conservadores e de grupos ligados às forças de segurança.
Politicamente, porém, cria também uma associação muito forte entre sua candidatura e o 8 de Janeiro. Essa identidade pode mobilizar um eleitorado específico, mas tende igualmente a gerar resistência entre eleitores que apoiam as condenações determinadas pelo Supremo.
Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira ampliam alcance
A candidatura ganhou peso com o apoio de nomes de grande influência na direita.
Em maio, a revista Veja informou que Michelle Bolsonaro trabalhava para impulsionar candidaturas femininas no Distrito Federal e incluía Mariana entre os nomes de sua articulação. A reportagem destacou ainda a aproximação construída entre as duas.
Mariana também participou da caminhada organizada por Nikolas Ferreira entre Minas Gerais e Brasília no início do ano. Mais recentemente, passou a apresentar-se nas redes como a candidata apoiada pelo deputado mineiro no Distrito Federal, apoio que também foi manifestado publicamente em conteúdos de campanha.
Para uma candidata sem mandato e sem eleição anterior, esses apoios são um ativo considerável porque ajudam a reduzir uma das maiores dificuldades de candidaturas estreantes: tornar o nome conhecido rapidamente.
Polarização é também seu principal ponto de desgaste
Nas fontes consultadas, não foi localizada condenação criminal ou escândalo pessoal de grande repercussão envolvendo Mariana Naime.
Seu principal ponto de desgaste é político e está diretamente relacionado à causa que lhe trouxe projeção.
Em 2025, uma entidade pediu nova prisão do coronel Naime sob a alegação de que ele poderia estar utilizando manifestações públicas da esposa para contornar restrições impostas ao uso das redes sociais. A Procuradoria-Geral da República se posicionou contra o pedido, afirmando que não havia elementos suficientes para confirmar a acusação.
Mariana rejeitou a interpretação e declarou que suas manifestações eram próprias e que não poderiam ser atribuídas ao marido.
O episódio exemplifica a situação política da candidata: a defesa dos condenados pelo 8 de Janeiro mobiliza sua base, mas também aumenta a polarização em torno de seu nome.
Quais são as chances de Mariana Naime?
Mariana chega à eleição com potencial de crescimento, mas ainda precisa provar força nas urnas.
Não há histórico eleitoral anterior que permita calcular uma base própria de votos, nem foi localizado um levantamento público robusto que a coloque individualmente entre os líderes da disputa para deputado federal.
Por outro lado, existem ativos relevantes.
O primeiro é a estrutura do PL, que montou uma das nominatas federais mais competitivas do DF. Entre os candidatos estão nomes como Alberto Fraga, Izalci Lucas, Thiago Manzoni e Agaciel Maia. Uma análise eleitoral divulgada neste início de campanha coloca o PL entre as chapas com potencial para disputar mais de uma cadeira federal.
O segundo é sua capacidade de acessar um eleitorado bastante definido: conservadores, famílias de policiais e militares, apoiadores das pautas relacionadas ao 8 de Janeiro e famílias atípicas. A articulação de Michelle Bolsonaro em torno de seu nome reforça essa estratégia.
O terceiro é o apoio de Nikolas Ferreira, um dos políticos de maior alcance digital da direita brasileira, que pode fornecer exposição que normalmente uma candidata de primeira eleição levaria anos para construir.
O desafio está dentro do próprio partido. A mesma nominata forte que pode ajudar o PL a conquistar cadeiras também coloca Mariana frente a candidatos experientes e com dezenas de milhares de votos comprovados em eleições anteriores.
Mariana Naime entra, portanto, como uma candidatura nova com capacidade de surpreender, mas ainda sem dados eleitorais suficientes para ser classificada entre as favoritas. Sua força dependerá principalmente de conseguir transformar a exposição nacional, os apoios políticos e a mobilização em torno de suas bandeiras em voto próprio no Distrito Federal.
