Paulo Eduardo Dias
Folhapress
O manobrista Severino José da Silva, 43 anos, que cuidava das piscinas de uma academia na zona leste de São Paulo, contou à polícia que recebia orientações por WhatsApp de um dos sócios sobre como preparar os produtos químicos.
Ele prestou depoimento no 42º DP (Parque São Lucas) após a professora Juliana Faustino Bassetto, 27 anos, passar mal e morrer depois de uma aula de natação no último sábado (7).
Câmeras mostram Severino preparando um produto para limpar a água. O sócio, conforme relatado, dava todas as instruções e respondeu apenas “paciência” quando foi informado sobre os casos de intoxicação.
O produto não foi colocado na piscina, mas ficou próximo, causando intoxicação no ambiente fechado. Juliana foi levada ao hospital e não resistiu. O marido dela e um adolescente de 14 anos, que estavam na mesma aula, continuam hospitalizados.
A direção da Academia C4 GYM lamentou o ocorrido, afirmou que prestou atendimento imediato e está colaborando com as autoridades.
Severino, acompanhado da advogada Bárbara Bonvicini, trabalha na academia há cerca de três anos e executava diversas tarefas além de dirigir carros, como abrir o local e cuidar das piscinas.
Ele disse não ter qualificação para manusear os produtos químicos, fato que o dono da academia sabia. Severino aprendeu a cuidar da piscina com um antigo manobrista, monitorava a água e enviava fotos dos resultados ao sócio.
Há cerca de um ano, a piscina apresentou sujeira e espuma incomuns. Um especialista foi contratado para resolver o problema, mas teve seu contrato recusado para trabalho permanente pelo sócio da academia.
Severino relatou que na quinta-feira (5) a água estava turva e enviou fotos ao sócio. Na sexta-feira (6), recebeu a orientação de aplicar produtos químicos para melhorar a água para o fim de semana e aplicou cloro na piscina.
No sábado, a água continuava suja e o sócio pediu nova testagem e que Severino preparasse uma solução com seis a oito doses do cloro HidroAll Hipercloro 60, mas ele não aplicou o produto na piscina, apenas preparou o balde com a solução e o deixou próximo à piscina.
Pouco tempo depois, Severino percebeu movimentação estranha e cheiro forte de cloro, alertou os professores e ajudou a evacuar o local. Ele sentiu dificuldade para respirar e pediu ajuda, mas não obteve resposta das equipes de emergência inicialmente.
Ele usou uma camiseta para proteger o rosto ao mover o balde com a solução para uma área externa. A academia foi fechada por ele e uma funcionária. Tentou contato com o sócio, que respondeu somente “paciência” e disse para Severino se preparar para a chegada da polícia.
O produto utilizado foi recentemente trocado por determinação do sócio, mudando o hipoclorito usado antes.
Severino também esclareceu sobre outro funcionário que entrou na academia após o fechamento. Esse homem tem chaves do local e realiza as mesmas tarefas que ele no turno da tarde, mas não estava a serviço no dia do incidente.
