GABRIEL ALVES
FOLHAPRESS
Um estudo recente mostrou que o uso de inteligência artificial (IA) pode ajudar a detectar câncer de mama de maneira mais eficiente durante os exames de rotina. Esta é a primeira vez que uma pesquisa controlada comprova que a IA reduz casos de câncer mais agressivos entre exames.
A pesquisa, chamada Masai, acompanhou cerca de 105 mil mulheres na Suécia e foi publicada na revista científica The Lancet. O uso da IA diminuiu em 12% o número de tumores que aparecem entre exames regulares, os quais são mais difíceis de tratar.
A médica e pesquisadora Kristina Lång, da Universidade de Lund, conduziu o estudo que comparou o método tradicional — onde dois radiologistas analisam cada mamografia — com um sistema que usa IA para avaliar primeiro o exame. O sistema encaminha casos de baixo risco para apenas um especialista, mantendo a dupla avaliação apenas nos casos suspeitos. Além disso, a IA atua como um segundo olhar, destacando áreas que merecem mais atenção.
Os resultados foram impressionantes: a IA detectou 29% mais tumores do que o método comum, sem aumentar os falsos positivos, que podem levar a exames desnecessários. Além disso, o trabalho dos radiologistas foi reduzido pela metade.
O programa usado, Transpara, da empresa ScreenPoint Medical, já está aprovado na Europa e nos Estados Unidos. Ele foi treinado com mais de 200 mil exames e classifica o risco de câncer em uma escala de 1 a 10, encaminhando para revisão os casos mais preocupantes.
Os chamados ‘cânceres de intervalo’ são tumores que crescem rápido e surgem entre os exames regulares, geralmente em estágios mais avançados. No grupo que utilizou IA, foram 82 casos desses cânceres, contra 93 no grupo tradicional. Além disso, houve menos cânceres invasivos, tumores grandes e tipos mais agressivos.
Kristina Lång destacou que este é o maior estudo de IA em rastreamento de câncer até hoje, mostrando que a tecnologia pode facilitar o trabalho dos médicos e detectar mais casos precocemente.
A oncologista Laura Testa, da Oncologia D’Or, explicou que esses tumores crescem rápido e podem aparecer entre exames, por isso é importante detectar cedo. Ela também revelou que sistemas de IA precisam passar por testes rigorosos para garantir a mesma eficiência, como remédios genéricos que precisam comprovar sua eficácia.
O oncologista Fernando Maluf, do Hospital Israelita Albert Einstein, enfatizou a importância do estudo, afirmando que a IA pode se tornar um padrão para a leitura de mamografias.
Apesar dos benefícios clínicos, o custo da tecnologia ainda é uma questão em aberto. Laura Testa ressaltou que, como um novo medicamento, o sistema pode ser caro, mas economias podem acontecer na redução do tempo dos médicos.
Segundo Kristina Lång, o custo-benefício está sendo avaliado e estudos indicam que a IA pode ser econômica, especialmente ao diminuir casos avançados que demandam tratamentos caros.
No Brasil, o desafio é implementar um rastreamento eficiente, pois o exame ainda é feito de forma irregular e não organizada, como explicou Laura Testa. O sistema privado também enfrenta dificuldades nesse sentido.
Fernando Maluf vê na IA uma chance de reduzir desigualdades em áreas com menos especialistas, desde que os sistemas sejam bem treinados e validados.
Essa tecnologia também tem potencial em outros tipos de câncer, como de próstata e pulmão, apresentando resultados promissores.
