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quinta-feira, 02/04/2026

Mais pessoas adultas recebem diagnóstico de autismo graças à maior informação

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DANIELLE CASTRO
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS)

Pesquisas recentes mostram que o número de adultos diagnosticados com TEA (transtorno do espectro autista) aumentou bastante nos últimos anos. Segundo especialistas, isso aconteceu porque hoje em dia há um entendimento melhor sobre o autismo, mudanças nas regras para diagnóstico e menos preconceito.

Um estudo feito nos Estados Unidos revelou que entre 2011 e 2022, o diagnóstico de TEA em adultos entre 26 e 34 anos cresceu 450%.

Outro relatório publicado em 2025 estimou que, em 2021, uma em cada 127 pessoas no mundo tinha autismo, um aumento de 53,1% em comparação a 2019, quando era uma a cada 271.

Os especialistas afirmam que essas mudanças são resultado de melhores métodos para identificar o autismo e da maior informação disponível.

José Guilherme Giocondo, psiquiatra especializado em infância e adolescência do Hospital Israelita Einstein, explica: “O autismo não ficou mais comum, o que mudou foi a forma de diagnosticar e a qualidade das informações disponíveis.”

A neuropsicóloga Thais Barbisan reforça que o autismo já está presente desde o nascimento, mesmo quando o diagnóstico é feito na fase adulta. “Principalmente nos casos em que os sintomas são mais suaves, as pessoas aprendem a esconder ou compensar essas características ao longo da vida”, diz.

Esse é o caso de Thomás Levy, de 41 anos, consultor e cofundador da ONG Octo, que apoia pessoas com dificuldades invisíveis. Ele só recebeu o diagnóstico em 2019, após uma colega notar sinais que ele não tinha percebido.

Thomás recorda que teve dificuldades em se socializar e na escola, mas naquela época o autismo era pouco conhecido e mal compreendido.

Depois de muitos exames, confirmou-se que ele tem TEA nível 1, com altas habilidades. “Foi um misto de tristeza e alívio, porque entendi que não estou quebrado, apenas tenho uma característica do autismo que não muda, mas posso aprender a viver melhor com ela”, conta.

A psiquiatra Fabricia Signorelli, mestre em distúrbios do desenvolvimento da Unifesp, destaca que o diagnóstico ajuda não só o autoconhecimento, mas também define o tratamento adequado.

Antes de 2013, o autismo era dividido em vários tipos, mas com a chegada do DSM-5, as categorias foram unificadas em um espectro mais amplo e flexível.

Importância do diagnóstico precoce

Detectar o autismo na infância traz grandes benefícios. Quanto mais cedo, melhor, especialmente antes dos 6 anos de idade, pois permite iniciar terapias que ajudam no desenvolvimento da comunicação, habilidades sociais e autonomia, podendo melhorar casos mais graves.

Giocondo explica que o cérebro da criança é mais capaz de se adaptar com os estímulos, um fenômeno chamado neuroplasticidade.

Barbisan diz que quanto mais estímulos adequados a criança recebe, melhor ela responde e se adapta.

Signorelli acrescenta que usar essa fase para tratar o autismo ajuda a manter a saúde mental e evita dificuldades sociais e emocionais futuras.

Ela lembra que em geral o diagnóstico só ocorre na vida adulta porque é quando as exigências sociais aumentam e as dificuldades ficam mais evidentes.

Para adultos com TEA, esse cenário pode provocar problemas como depressão, ansiedade, medo de situações sociais, abandono escolar e dificuldades no trabalho e nas relações pessoais.

Mesmo assim, receber o diagnóstico em qualquer idade traz vantagens. Giocondo afirma que entender as próprias diferenças ajuda a lidar com questões de autoestima e explica desafios do passado, como dificuldades em fazer amigos ou sofrer bullying.

Debora Saueressig, jornalista e mãe de uma criança autista, recebeu seu diagnóstico de TEA há dois anos. Ela diz que foi o fim de uma busca por respostas e que outras mulheres autistas foram as primeiras a perceber seus sintomas.

“Gostaria de ter tido esse diagnóstico quando criança, para ter sofrido menos preconceito. Mas aceitei e trabalho com essa realidade hoje”, comenta.

Signorelli diz que o autismo pode ser camuflado especialmente por meninas, que costumam aprender a imitar o comportamento das outras para se adaptar melhor.

Bea Duarte, cantora e compositora de 28 anos, recebeu o diagnóstico aos 26 depois que fãs autistas identificaram em suas letras aspectos comuns ao espectro.

Ela comenta que durante muito tempo os estudos sobre autismo eram focados em homens brancos, e só recentemente foi dada atenção ao autismo em mulheres, o que explica o aumento dos diagnósticos nesse grupo.

“Saber que não sou tão diferente assim e que apenas vejo o mundo de um jeito diferente me trouxe paz”, diz Duarte.

Barbisan destaca que o autismo não é só um tipo único de comportamento, como não olhar nos olhos ou ser frio. Hoje há mais informações e muitas pessoas começam a se reconhecer no espectro, mas o diagnóstico deve ser feito com cuidado e por profissionais capacitados.

O tratamento do TEA envolve vários especialistas, como psicólogos, neuropsicólogos, neurologistas, pediatras, psiquiatras, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, trabalhando juntos para ajudar o indivíduo.

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