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sábado, 24/01/2026

Mais casos de câncer de pâncreas em pessoas jovens, especialmente mulheres

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CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Recentemente, a morte da atriz Titina Medeiros, aos 48 anos, e do jornalista André Miceli, aos 46, ambos vítimas de câncer de pâncreas, chamou atenção para um fenômeno que vem sendo notado em estudos internacionais e em consultórios médicos: o aumento do número de casos desse câncer agressivo em adultos jovens, abaixo dos 50 anos.

Embora esse tipo de câncer seja mais comum em pessoas com mais de 60 anos, no Brasil ele representa cerca de 1% de todos os tumores esperados (11 mil novos casos em 2025) e 5% das mortes por câncer.

Nos Estados Unidos, dados recentes mostram que o número de casos em pessoas com menos de 45 anos tem aumentado cerca de 1% ao ano, e estima-se que até 5% dos casos ocorram antes dos 50 anos.

Em grupos ainda mais jovens, entre 15 e 34 anos, o crescimento percentual é ainda maior, embora os números em valores absolutos sejam baixos.

No Brasil, informações do Globocan 2022 indicam que cerca de 5,8% dos casos de câncer de pâncreas são diagnosticados antes dos 50 anos. Embora pequeno, esse número é motivo de preocupação.

Segundo a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, essa é uma mudança epidemiológica semelhante à observada no câncer colorretal jovem.

Os fatores de risco para o câncer de pâncreas, como obesidade, consumo de álcool, tabagismo, diabetes e histórico familiar, são os mesmos associados ao aumento de tumores em jovens.

A médica Maria Ignez Braghiroli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e Rede D’Or, afirma que, em sua prática clínica, quase metade dos pacientes internados com essa doença tem menos de 50 anos, o que é preocupante. Ela relata casos extremos, inclusive uma paciente de 19 anos com predisposição hereditária.

Estudos da Itália, Austrália, Reino Unido e Estados Unidos mostram mesma tendência, e acredita-se que o Brasil seguirá esse padrão, embora os dados locais tendam a se consolidar nos próximos anos.

Apesar do aumento entre os jovens, o risco maior ainda é para pessoas idosas, mas subgrupos mais jovens têm crescido.

Outra mudança importante é o aumento da frequência do câncer de pâncreas entre mulheres. Pesquisa do A.C. Camargo mostrou que, ao longo de duas décadas, a proporção de mulheres com o diagnóstico subiu de 43,8% para 50,9%.

O oncologista Felipe Coimbra, do A.C. Camargo Cancer Center, destaca que o aumento entre os pacientes mais jovens ocorre principalmente nas mulheres, alinhado a tendências globais.

Hipóteses para esse crescimento incluem maior exposição precoce a fatores de risco como obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, alimentos ultraprocessados e diabetes.

Para as médicas Baldotto e Braghiroli, fatores ambientais parecem ser o principal motivo do aumento, pois não se observam grandes diferenças moleculares entre tumores em jovens e idosos.

A genética também é importante: 10 a 15% dos casos são hereditários, e pacientes jovens devem fazer testes genéticos, especialmente se houver histórico familiar.

O diagnóstico é desafiador, pois o pâncreas é um órgão profundo e os sintomas geralmente aparecem tardiamente. Sintomas como dor abdominal vaga, dor nas costas, perda de peso e desconfortos que podem ser confundidos com gastrite ou problemas na coluna devem ser observados com atenção.

A oncologista Baldotto alerta que sintomas persistentes por mais de um mês devem ser investigados, mesmo em pessoas jovens, para evitar atrasos no diagnóstico.

Não existe exame de rastreamento eficaz para a população geral; a vigilância é recomendada apenas para grupos de risco, como pessoas com síndromes genéticas, histórico familiar, pancreatite crônica ou cistos pancreáticos.

Um alerta importante é o surgimento recente de diabetes, que ocorre em até 80% dos pacientes com câncer de pâncreas pouco antes do diagnóstico.

Coimbra destaca que diabetes de início rápido, especialmente acompanhada de perda de peso, deve motivar investigação do pâncreas.

O tratamento ainda enfrenta muitos desafios. O adenocarcinoma pancreático, que corresponde a 90% dos casos, é muito agressivo.

A base do tratamento é quimioterapia, associada à cirurgia quando possível, mas há poucas inovações comparadas a outros tipos de câncer, como pulmão e melanoma.

No entanto, há expectativa de novas terapias-alvo direcionadas a mutações do gene KRAS, presentes na maioria dos adenocarcinomas pancreáticos.

Ensaios clínicos internacionais estão avaliando medicamentos que podem atingir diferentes variantes da mutação, ampliando as opções de tratamento. Dados mais concretos sobre esses avanços podem ser divulgados ainda neste ano.

O estudo do A.C. Camargo mostra que, apesar da sobrevida em cinco anos do câncer de pâncreas ainda ser baixa, melhorou de 5,2% para 14,3% nas últimas duas décadas, graças a diagnósticos mais precoces e redução de casos em estágios avançados.

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