Pesquisadores de várias regiões do Brasil publicaram o maior estudo já feito sobre os efeitos do vírus Zika na infância. O Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio), que reuniu dados de 843 crianças com microcefalia nascidas entre 2015 e 2018, analisou informações de 12 centros de pesquisa no Norte, Nordeste e Sudeste do país.
Maria Elizabeth Lopes Moreira, pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), destacou a importância do estudo, pois nunca antes havia sido feito um levantamento com esse número de crianças.
Publicado em dezembro de 2025 no periódico PLOS Global Public Health, o estudo descreve casos e define o que caracteriza a microcefalia causada pelo vírus Zika.
O Brasil teve a maior incidência mundial de microcefalia por Zika durante a epidemia de 2015 a 2016, conforme lembrou Maria Elizabeth. O estudo é especial pois analisou os dados primários, permitindo observar a variedade e gravidade das manifestações da Síndrome Congênita do Zika (SCZ), algo não possível em estudos anteriores.
O professor Demócrito Miranda, da Universidade de Pernambuco, destacou que o estudo consolida conhecimento desenvolvido desde o início da epidemia. A microcefalia por Zika apresenta características específicas, como o colapso do cérebro e da estrutura óssea, acompanhado de distúrbios neurológicos, auditivos, visuais e convulsões associadas à epilepsia.
Principais resultados
- Microcefalia presente ao nascer em 71,3% das crianças, com 63,9% sendo grave;
- Microcefalia desenvolvida após o nascimento em 20,4%;
- Prematuridade entre 10% a 20%;
- Baixo peso ao nascer em média de 33,2%;
- Malformações congênitas comuns, como epicanto, occipital proeminente e pele extra no pescoço.
As alterações neurológicas incluem déficit de atenção social em metade das crianças, epilepsia em média de 58,3%, e persistência de reflexos primitivos em 63,1%. Problemas sensoriais, como alterações oftalmológicas e auditivas, também foram frequentes. Calcificações cerebrais, ventriculomegalia e atrofia cortical foram constatadas por neuroimagem.
Maria Elizabeth informou que cerca de 30% das crianças estudadas já faleceram, e as sobreviventes, com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam dificuldades escolares, incluindo paralisia cerebral grave e deficiências de atenção e aprendizagem.
Recomendações
Não existe tratamento específico para o Zika, então a prevenção é fundamental. Mulheres grávidas devem evitar áreas com mosquitos Aedes aegypti, usar repelentes e roupas que protejam, especialmente em épocas de epidemia.
O estímulo precoce das crianças é fundamental para melhorar o desenvolvimento, mesmo para aquelas que nasceram sem microcefalia, mas cujas mães foram expostas ao vírus. Isso porque a criança tem capacidade de formar novas células e responder positivamente à fisioterapia e outras terapias.
Maria Elizabeth ressaltou que muitos casos de Zika na gravidez são assintomáticos e que ainda não há exame confiável para identificar exposição da gestante ao vírus.
Cuidados permanentes
Crianças com sequelas do Zika precisam de cuidados multidisciplinares e acompanhamento contínuo, conforme afirmou o pesquisador Ricardo Ximenes. O acesso a esses cuidados pode ser difícil no Brasil, o que gera grande impacto social especialmente para mães solo.
A pesquisa reforça a necessidade de desenvolver uma vacina para mulheres em idade fértil e destaca a importância de continuar acompanhando essas crianças para oferecer apoio adequado e prevenir complicações.
Vida escolar
O acompanhamento da vida escolar dessas crianças é essencial, especialmente para as que não têm microcefalia, mas apresentam risco de atrasos no desenvolvimento. Estímulos adequados podem ajudar a minimizar problemas futuros, sendo crucial o acompanhamento cuidadoso do neurodesenvolvimento.
