Nos últimos dias, dois ataques de tubarão foram registrados em Pernambuco, trazendo à tona questões sobre os fatores que podem contribuir para esses incidentes no litoral do estado, que possui o maior número de casos no Brasil.
O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) confirmou que as vítimas foram João Lucas Nemézio Sales, de 11 anos, atacado na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos, mordida na Praia de Boa Viagem, no Recife.
Os ataques aconteceram em um curto intervalo de tempo durante a chamada Lua Azul, que é a segunda lua cheia em um mesmo mês. Embora a fase da lua por si só não explique os ataques, estudos dos órgãos responsáveis indicam que as fases de lua nova e lua cheia merecem atenção especial devido à maré de sizígia, quando as marés sobem e descem mais do que o normal.
O Cemit ressalta que a maré alta pode aumentar o risco de encontros entre tubarões e banhistas, pois os animais conseguem se aproximar mais da costa e áreas protegidas pelos arrecifes ficam mais acessíveis.
Além da influência das marés, os ataques em Pernambuco são resultado de uma combinação de fatores ambientais, geográficos e humanos acumulados ao longo das últimas décadas.
Alterações ambientais e urbanização
Um dos fatores mais discutidos é o impacto ambiental causado pela fundação e expansão do Porto de Suape, situado entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho. O complexo portuário, inaugurado em 1983, provocou alterações significativas na paisagem costeira por meio de obras de dragagem, abertura de canais e supressão de manguezais, que modificaram habitats e rotas de espécies marinhas, incluindo tubarões.
Pesquisas realizadas por universidades federais de Pernambuco e pelo Cemit relacionam essas mudanças ao aumento dos encontros entre tubarões e humanos na região metropolitana do Recife.
A expansão urbana no litoral sul da região também é um ponto importante para entender o fenômeno. A ocupação intensa da costa transformou a relação entre a população e o ambiente marinho, elevando o número de pessoas em áreas com risco maior de ataques.
Ultrapassar a linha dos arrecifes, onde a água é mais profunda, coloca os banhistas em contato direto com áreas usadas por tubarões. Permanecer na água durante a maré alta exige cuidado redobrado.
Outros riscos
As chuvas são outro fator de risco, pois a água turva que resulta dificulta a visibilidade tanto dos tubarões quanto dos banhistas. Além disso, o aumento do volume de água doce e matéria orgânica nos rios e canais altera temporariamente o ambiente costeiro.
