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sexta-feira, 29/08/2025

Livro traz receita da sobremesa preferida de Rubens Paiva em homenagem

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Em Brasília

A saudade pode ter sabor e, para Loveane Dias, esse sabor é de pizza. A professora de São Paulo escolheu uma receita do prato italiano para lembrar do filho William, que está desaparecido desde 2016. Loveane recorda que os dias de pizza eram momentos especiais, com toda a família envolvida no preparo. William era quem esticava a massa.

“Sinto muita falta dele, mas não desisto de encontrá-lo ou, pelo menos, de saber o que ocorreu”, conta Loveane. O jovem estudava Direito e a última vez que a mãe o viu foi numa segunda-feira de outubro, quando ele saiu de casa para trabalhar.

Esta sexta-feira (28/8) marca o lançamento do livro “Sabor da Saudade” promovido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Movimento Nacional de Familiares de Pessoas Desaparecidas, na Universidade de Brasília (UnB). A obra reúne 40 receitas de familiares de pessoas desaparecidas, como uma forma afetuosa de chamar atenção para a dor dessas famílias.

A receita da pizza de William está incluída, assim como a da sobremesa favorita da família Rubens Paiva: o sorvete napolitano.

“Este sorvete nos lembra deles: o gosto de meu pai e o talento de minha mãe. E prova que a memória deles permanece viva entre tios, primos e irmãos”, declarou Nalú Paiva, filha de Rubens e Eunice, aos organizadores do livro. A história do desaparecimento de Rubens Paiva e a luta de sua esposa por justiça são retratadas no filme “Ainda Estou Aqui”.

Um problema que não se vê

Simone Rodrigues, professora que lidera o Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes) na Universidade de Brasília, explica que a sensação de uma história interrompida paralisa os familiares, deixando-os presos ao momento do desaparecimento.

“Tanto a vida emocional como a cidadã dessas famílias fica profundamente abalada”, afirma Rodrigues. Ela destaca que o Brasil ainda não reconhece legalmente o crime de desaparecimento forçado.

“Os motivos dos desaparecimentos são diversos – desde violência sexual até tráfico de pessoas. O observatório serve para estudar o fenômeno, identificar os grupos mais vulneráveis e propor políticas públicas adequadas”, explica.

Os familiares também requerem a criação de um cadastro nacional único de desaparecidos, integrado entre os estados, para possibilitar o reconhecimento por meio do material genético e a identificação dos corpos não reclamados nos IMLs.

“O desaparecimento de pessoas no Brasil precisa de maior visibilidade, pois é uma violência tão grave como os crimes mais severos”, conclui Simone Rodrigues.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, 81.873 pessoas desapareceram e 57.568 foram encontradas. Esses números podem não refletir a realidade, já que contabilizam qualquer desaparecimento registrado na polícia, incluindo casos resolvidos com o retorno da pessoa à casa.

Portanto, essa imprecisão oculta casos de desaparecimento forçado, que afetam os grupos mais vulneráveis.

Livro Sabor da Saudade

O livro é uma homenagem com receitas que mantêm viva a memória das pessoas desaparecidas, registrando um sabor especial que representa amor, memória e esperança para as famílias.

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