Nossa rede

Brasília

Lanterneiro estuda direito no DF para evitar impunidade em morte de irmão

Publicado

dia

Maurício é irmão de Antônio de Araújo, morto em 2013 após ação da PM.
História é similar ao ‘caso Amarildo’, do RJ; júri está marcado para fevereiro.

Na tentativa de evitar que a morte do irmão entre para as estatísticas de impunidade, um lanterneiro do Distrito Federal decidiu voltar para a sala de aula e se formar em direito. Maurício Araújo é irmão do auxiliar de serviço gerais Antônio de Araújo, encontrado morto em 2013 após uma abordagem policial em Arapoanga, região de Planaltina.

Se [o julgamento] passar de quatro anos, eu estarei como assistente de acusação. Isso é fato, já coloquei na minha cabeça. São meses contados, dias após dias, igual eu conto desde o desaparecimento do Antônio. Todos os dias, eu confiro os processos que tem na Justiça, os andamentos, procuro conhecer. Se demorar, eu estarei como assistente de acusação e ninguém vai me impedir”
Maurício Araújo,
lanterneiro e estudante de direito

Dois anos e seis meses depois do assassinato, ninguém foi punido pelo crime. “Foi cinco meses e 21 dias de luta, de decepções, humilhações, de fatos que eu nunca imaginei que pudesse acontecer comigo”, diz Maurício, citando o período em que o corpo ficou desaparecido.

Araújo desapareceu em 27 de maio de 2013,após ser abordado por policiais militares da região dentro da chácara de um sargento da corporação, no Córrego do Atoleiro. Os restos mortais foram encontrados quase seis meses depois, em 21 de novembro, em uma área de cerrado em outra região de Planaltina.

No mesmo dia, o irmão diz ter feito uma promessa a si mesmo. “[Prometi] que a morte dele não seria mais uma, que a morte dele seria um exemplo de justiça a ser seguido”, afirma. Com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ele conseguiu vaga em uma faculdade da Asa Sul, no fim do ano passado.

Maurício mora e trabalha em Planaltina, e usa metade do salário de R$ 2 mil para custear os estudos. Neste mês, ele concluiu o primeiro ano de faculdade e já definiu: quer atuar como promotor.

“Se [o julgamento] passar de quatro anos, eu estarei como assistente de acusação. Isso é fato, já coloquei na minha cabeça. São meses contados, dias após dias, igual eu conto desde o desaparecimento do Antônio. Todos os dias, eu confiro os processos que tem na Justiça, os andamentos, procuro conhecer. Se demorar, eu estarei como assistente de acusação e ninguém vai me impedir”, afirma o estudante.

\
O lanterneiro tem 30 anos, é casado e pai de três filhos pequenos. Sem estudar há oito anos e com o ensino médio completo, ele diz que decidiu voltar à sala de aula após ouvir desaforos, durante a investigação da morte do irmão. “Me cansei muito de você chegar nos lugares e ser visto, simplesmente, como um peão.”

Me cansei muito de você chegar nos lugares e ser visto, simplesmente, como um peão”
Maurício Araújo,
lanterneiro e estudante de direito

A primeira audiência do “caso Antônio” está marcada para 22 de fevereiro, no Tribunal de Justiça de Planaltina. Dois policiais militares denunciados à Justiça estão soltos e continuam na corporação, cumprindo trabalho administrativo no Batalhão de Planaltina.

Sem solução
O desaparecimento de Antônio Araújo aconteceu durante a gestão do ex-governador Agnelo Queiroz, mas a família só recebeu uma resposta do GDF neste ano. Em julho, após o indiciamento dos suspeitos, a família decidiu enterrar a ossada do auxiliar, que permanecia no Instituto Médico Legal (IML).

Responsável pelas investigações, a delegada Renata Malafaia diz que o homem estava em crise de abstinência alcoólica e, por isso, falava sozinho quando saiu para comprar bebida e passou pela chácara de um PM. “Isso fez os policiais acreditarem que ele estava invadindo a chácara com outra pessoa”, afirmou a delegada.

Familiares do homem desaparecido após suposta ação policial exibem faixas e cartazes pedindo investigação do caso (Foto: Gabriella Julie/G1 DF)

Em 2013, familiares do homem desaparecido após suposta ação policial exibiram faixas e cartazes pedindo investigação do caso (Foto: Gabriella Julie/G1 DF)

Renata disse que os policiais torturaram Araújo para que ele dissesse onde estava o possível comparsa. A delegada também informou que, devido às agressões, a vítima teve uma hemorragia, mas que não foi sentida pelo clima e pela abstinência.

Segundo ela, os policiais torturaram Araújo para que ele dissesse onde estava o possível comparsa. A delegada também informou que, devido às agressões, a vítima teve uma hemorragia, mas que não foi sentida pelo clima e pela abstinência.

“Depois que ele deixou a 31ª DP, ele caminhou pelo mato, o que fez acelerar a hemorragia. Tanto que ele morreu a 1,5 quilômetro da delegacia, muito perto para quem queria matar alguém e esconder o corpo”, declarou  em julho.

Os dois sargentos denunciados pelo MP tem uma ocorrência registrada em Planaltina, em 2011, por lesão corporal. O crime de tortura seguida de morte tem com pena de 8 a 16 anos de prisão, aumentada entre um sexto e um terço quando cometido por agentes públicos. Se condenados, eles podem ser expulsos da corporação. Outro processo tramita na Corregedoria da PM.

O caso de Antônio ficou famoso pela semelhança com a história do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido em 14 de julho de 2013 após operação policial na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Imagens de uma câmera de segurança registraram o ajudante de pedreiro entrando em um carro da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Em junho, o caso foi reaberto pela polícia do Rio de Janeiro.

Versões
Na época do desaparecimento de Antônio de Araújo, o delegado Leandro Ritt, da DRS, chegou a dizer que a principal hipótese a respeito do desaparecimento dele era “abandono do lar”. Ele disse que, apesar de não ter tido “comportamento de ladrão”, Araújo era uma pessoa “desorientada” por causa do alcoolismo.

Manifestantes fecham o Eixo Monumental durante protesto contra a Copa e por um ano de desaparecimento de auxiliar de serviços gerais no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)

Em 204, manifestantes fecharam o Eixo Monumental durante protesto contra a Copa e por um ano de desaparecimento de auxiliar de serviços gerais no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)

“Ele tem um quadro condizente com o das pessoas que desaparecem, que simplesmente desaparecem por vontade própria. É o abandono do lar. Quem sabe ele está perdido nesse mundo afora? Muito provavelmente. Uma pessoa alcóolatra sumir, ganhar o mundo, é muito comum. É o que mais você vê”, disse Ritt para a época.

O então diretor da Polícia Civil, Jorge Luiz Xavier, compartilhava a opinião do delegado. “Parece que ele tinha algum distúrbio mental ou tendência a isso. A DRS, que está cuidando desse caso, já tentou de todo jeito. Já fizemos buscas nos IMLs da redondeza, para ver se o corpo dele apareceu em algum lugar e nada.”

No dia 28 de agosto de 2013, três meses após o desaparecimento, Xavier disse  que ainda havia dúvidas de que Araújo tenha sido levado para a delegacia, apesar da investigação da PM e da confirmação de Ritt.

“Não está claro isso. Embora exista essa declaração da família, isso não está claro, mas não foi descartado também. As viaturas aqui não têm GPS. Mas o caso dele, há grandes possibilidades de ser confusão mental e de que ele tenha saído andando por aí.”

Familiares e amigos 'velam' auxiliar de serviços gerais em frente à sede do GDF (Foto: Isabella Formiga/G1)

Familiares e amigos ‘velam’ auxiliar de serviços gerais em frente à sede do GDF (Foto: Isabella Formiga/G1)

O auxiliar de serviços gerais chegou a ser tratado como “um zé” pelo então secretário-adjunto da Secretaria de Segurança Pública do DF, Paulo Roberto Batista de Oliveira, ao afirmar que não parecia ‘lógico’ que policiais militares fossem responsáveis pelo sumiço e morte de Pereira.

“Tenho oito anos de Corregedoria e investiguei muitos PMs. Não me parece lógico, não estou dizendo que não ocorreu, que oito policiais tenham matado um ‘zé’ porque ele entrou na casa do cara”, disse.

A declaração provocou revolta na família do auxiliar de serviços. “Eles acharam que mataram um ‘zé’ e que ninguém ia atrás do ‘zé’. Mas atrás desse zé tinha alguém”, disse. “Como pode chamar meu irmão de zé? Matou meu zé, e meu zé tinha dono e agora a polícia vai ter que dar explicação para a população”, disse o irmão de Antonio, Silvestre Araújo.

Oliveira se desculpou no dia seguinte, dizendo que não tinha preconceito “contra qualquer tipo de pessoa”.

Clique para comentar

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Brasília

Writing a Cheap Essay – Strategies to Produce a Inexpensive Essay

Publicado

dia

There are several ways to compose a cheap essay but to make a inexpensive informative article it demands some preparation. It’s not a fantastic idea to simply type up a newspaper without knowing the different methods and techniques that are utilised to produce essays that are cheap. If you want to impress a college admissions officer, a terrific (mais…)

Ver mais

Política BSB

CPI da Covid: diretor-presidente da Anvisa critica passeio de moto de Bolsonaro

Publicado

dia

Por

O chefe da Anvisa se posicionou contra vários tipos de comportamento do presidente durante a pandemia: “Não, não concordo. Qualquer coisa que fale de aglomeração, não usar álcool, não usar máscara e negar a vacina são coisas sem nenhum sentido do ponto de vista sanitário”

(crédito: Marcos Corrêa/PR)

Na sessão da CPI da Covid, o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, criticou o passeio de motocicleta que o presidente Jair Bolsonaro fez no domingo, acompanhado de vários outros motociclistas. Ele classificou o ato de “sanitariamente inadequado”, por causa da aglomeração.

Torres deu sua opinião ao ser perguntado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). A parlamentar quis saber, também, se o depoente, que é motociclista, participou do passeio. “Eu não estive nesse evento, sou contra aglomeração. Nas mídias sociais dos grupos de motociclistas, apareceram vários motogrupos, com todas essas questões, mas eu, realmente, não compareci. Aliás, além de ser sanitariamente inadequado, não é preconizado.”

Perguntado pela senadora se era contra aglomerações, o chefe da Anvisa se posicionou contra vários tipos de comportamento do presidente durante a pandemia. “Não, não concordo. Qualquer coisa que fale de aglomeração, não usar álcool, não usar máscara e negar a vacina são coisas sem nenhum sentido do ponto de vista sanitário”, enfatizou.

Apesar do discurso, o chefe da Anvisa reconheceu, durante o depoimento, que cometeu um erro ao participar, em 15 de março de 2020, ao lado de Bolsonaro, de uma manifestação em frente ao Palácio do Planalto. À época, ele foi fotografado sem máscara, enquanto o chefe do governo cumprimentava apoiadores em uma aglomeração. Questionado sobre o assunto pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), ele disse que, se tivesse pensado por cinco minutos, não teria ido ao local naquele momento.

O depoente afirmou, ainda, que não foi ao Planalto para a manifestação, mas para encontrar o presidente. Quando chegou, conforme disse, o ato já estava acontecendo. “Tenho plena ciência de que, se pensasse mais cinco minutos, não teria feito. O assunto (do encontro com o presidente) não necessitava de urgência para ser tratado. Foi um momento em que não refleti na imagem negativa que isso passaria, e, depois disso, nunca mais houve esse tipo de comportamento meu.”

O presidente da Anvisa também justificou o motivo de não ter usado máscara no evento. “Naquela época, o que preconizava o Ministério da Saúde é que máscaras deveriam ser usadas por profissionais de saúde, cuidadores de idosos, mães amamentando e pessoas diagnosticadas com covid. Não havia consenso do uso por parte da população”, argumentou. Segundo ele, “a própria OMS (Organização Mundial da Saúde), um pouco antes, colocou dúvida quanto à eficácia (da máscara)”. “Isso foi um processo que evoluiu e, hoje, ninguém mais tem dúvida sobre a importância do uso.”

O médico acrescentou que, apesar da amizade que tem com Bolsonaro, pensa diferente do presidente no que diz respeito ao distanciamento social e às determinações da ciência. “As manifestações que faço tem sido todas no sentido do que a ciência determina”, destacou. “Na última live em que participei com o presidente, permaneci de máscara, o que foi comentado pela imprensa até de forma elogiosa. São formas diferentes (de pensar) de pessoas diferentes”, afirmou.

Ofendido

Em outro momento do depoimento, Torres relatou que “se sentiu ofendido” com críticas feitas pelo líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), ao trabalho da agência. Em fevereiro, o parlamentar disse que iria “enquadrar a Anvisa” por considerar exageradas as exigências para a aprovação de vacinas contra a covid-19. Na ocasião, afirmou que os diretores da agência “não estavam nem aí para a pandemia”. “Recebi muito mal (a declaração). Não só eu, os servidores da Casa se sentiram profundamente ofendidos por essa declaração. Primeiro, porque ela não é verdadeira. Pessoas que trabalham na Anvisa abriram mão de tudo o que um ser humano pode abrir mão. Já abriram mão de família, tempo livre, final de semana, noite de sono; e ouvir de uma autoridade do cenário político nacional que ‘não estamos nem aí’ foi muito ruim. Eu não sou capaz de qualificar o quanto foi ruim.” (JV, RS e LC)

Ver mais

Brasília

Reasons to Buy Essays Online

Publicado

dia

If you are seeking a means to essay writer increase your writing abilities then you need to buy essays online. The first explanation is that you’re able to read an article prior to actually needing to write one. You can assess the different writing styles that various folks use and write in the style (mais…)

Ver mais

Brasília

How to Pick the Most Effective Online Photo Editor

Publicado

dia

Using an online photo editor is very simple to use. But when you start off with your new job, you may not fully understand the characteristics of the photoediting program that you are utilizing.

There are many things to remember while you’re choosing the photo editing system. You will discover there are many diverse kinds of picture (mais…)

Ver mais

Brasília

Research Paper Available – How to Locate Great Ones

Publicado

dia

Most of us need to do some work to make money, but sometimes there are certain research papers available that are available to a school teacher who would like to learn something new and can’t get a full time occupation. Sometimes, merely having an academic in a field that she loves can be difficult. Even if you’re only an entry-level employee (mais…)

Ver mais

Brasília

Top 5 Suggestions to Use For Photo-editing

Publicado

dia

The internet Photo Editor is among the easiest methods to edit or resize a picture. With these applications, you can enhance almost any photograph. You can use them at your own personal computer or onto your cell phone or PDA. These editing programs are very easy to use and also you do not require some technical abilities to make utilize of (mais…)

Ver mais

Hoje é

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Publicidade

Disponível nosso App

Publicidade

Escolha o assunto

Publicidade

Viu isso?