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Economia

Juros do Tesouro sobem muito e preocupam especialistas

Foto: Reprodução

FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Os juros pagos pelo Tesouro Nacional para financiar a dívida pública do Brasil estão aumentando rapidamente e alcançando níveis muito elevados.

Isso torna mais caro continuar pagando a dívida federal, que atualmente está em R$ 8,8 trilhões, e demonstra a preocupação dos investidores sobre a capacidade do país de manter esses pagamentos, especialmente com o presidente Lula (PT) buscando reeleição e planejando novos gastos.

Em menos de um mês, todas as taxas de juros que o Tesouro oferece para vender seus títulos aumentaram. Por exemplo, os títulos corrigidos pela inflação que vencem em 2032 (IPCA + 2032) saltaram de 7,63% ao ano para 8,3%. Os que vencem em 2040 subiram de 7,15% para 7,65% ao ano.

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Para ilustrar, quem tivesse investido R$ 100 mil no título IPCA + 2032 no dia 11 de maio receberia no vencimento R$ 162,2 mil, mais a inflação. Agora, quem investir o mesmo valor verá esse montante se tornar R$ 169 mil, mais inflação — uma diferença de R$ 6.800 a mais.

“Vários fatores estão pressionando as taxas: o desequilíbrio fiscal que o governo Lula piora com medidas para tentar se reeleger; o aumento do preço do petróleo e a redução dos estoques; a expectativa de alta nos preços dos alimentos devido ao fenômeno El Niño; e a possível mudança na jornada de trabalho que pode impactar as empresas”, explica Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Tudo isso contribui para pressionar a inflação e pode fazer o Banco Central adiar a redução da taxa Selic, que atualmente está em 14,5% ao ano. Segundo Vale, o principal problema é o desequilíbrio das contas públicas.

“Enquanto o governo projeta um superávit primário de R$ 8 bilhões para 2027, o mercado espera um déficit de R$ 130 bilhões. Se não houver um ajuste, a situação só vai piorar”, afirma. Essa diferença vem de estimativas muito otimistas das receitas e projeções irreais de aumento de despesas, além de gastos que não são oficialmente contabilizados na meta fiscal.

José Júlio Senna, pesquisador do FGV-Ibre e ex-diretor do Banco Central, chama de “assustadoras” as taxas de juros que o Tesouro está pagando para rolar a dívida federal.

“Muitos dizem que um ajuste nas contas públicas será inevitável em 2027. Mas, para que isso aconteça, Executivo e Legislativo precisam entender a gravidade da situação. O que vemos é que esses poderes estão promovendo gastos insustentáveis, sem parecer se preocupar”, afirma.

Senna destaca que o uso de fundos e bancos públicos, como o BNDES e a Caixa Econômica Federal, para financiar políticas para a reeleição torna o cenário mais incerto.

“Há empréstimos subsidiados para motoqueiros, motoristas de Uber, caminhoneiros, para o Minha Casa Minha Vida, para reformas de casas, e não há como saber exatamente quanto desse dinheiro será recuperado”, diz.

“Esses recursos não impactam nas regras fiscais, mas aumentam imediatamente a dívida pública. É uma situação muito confusa que dificulta a compreensão do mercado, o que explica a alta dos juros.”

Em artigo recente, Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics e com experiência no Ministério da Fazenda/Economia, ressaltou que o problema não é só o nível atual dos juros, mas a dificuldade do mercado em ver sinais claros de quando eles voltarão a níveis mais baixos, como antes de 2023.

Manoel aponta que os juros reais estruturais passaram de cerca de 5% ao ano entre 2016-2022 para 7% no período de 2023-2025. Esse aumento foi causado por mais gastos governamentais e por medidas parafiscais que cresceram significativamente.

“Enquanto os agentes econômicos não perceberem uma mudança real na política fiscal e nas regras que controlam gastos, anúncios pontuais terão impacto limitado sobre os juros reais de longo prazo”, conclui.

André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV, diz que a alta recente nos juros dos títulos de longo prazo se deve principalmente ao risco fiscal e à incerteza política, mais do que à inflação.

“Embora a inflação ainda esteja alta, o que realmente faz os juros subirem para mais de 8% ao ano é a desconfiança sobre a sustentabilidade das contas públicas e o medo de novos gastos em ano eleitoral”, explica.

Nesse contexto, a inflação é um sintoma, mas o problema principal é a política fiscal, que gera desconfiança e eleva os juros futuros, tornando o crédito mais caro e desvalorizando os ativos locais.

Além disso, a alta nos juros coincidiram com o caso “Dark Horse”, em que o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) foi gravado pedindo dinheiro a um ex-banqueiro preso por fraudes.

Desde então, pesquisas mostram que Flávio perdeu apoio em uma possível disputa com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno.

Muitos investidores acreditam que, se a gestão petista continuar, não haverá ajustes importantes nas contas públicas, aumentando a necessidade de financiamento do Tesouro e, consequentemente, as taxas de juros que os investidores exigem.

Enquanto isso, a equipe de Flávio traça planos de ajustes, como o “Plano Brasil”, formulado pelo economista Adolfo Sachsida, ex-assessor econômico de Jair Bolsonaro e colaborador de Flávio.

No entanto, há dúvidas sobre a viabilidade dessas medidas, pois o próprio Flávio não comenta publicamente sobre elas.

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