Após ser vítima de violência sexual e sofrer perfuração no útero e intestino durante um aborto legal no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), em abril deste ano, Larissa Santos* recebeu nossa equipe em sua residência para contar os detalhes do crime e do erro médico pelo qual passou.
Larissa revelou que essa não foi a primeira vez que viveu situações traumáticas como essa. Ela comentou sobre a normalização da violência no contexto de pessoas em situação de rua.
A jovem foi atraída por um conhecido da família, encontrado na Rodoviária do Plano Piloto, até um prédio abandonado no centro de Brasília, sob a falsa promessa de encontrar uma antiga amiga. Lá, sofreu estupro, agressão e ameaças do agressor, que continua morando em prédios abandonados na cidade.
Larissa, que era casada, não contou ao marido sobre o ocorrido por medo de violência, já que ele tinha um histórico agressivo.
Em abril, após descobrir a gravidez resultante do estupro, confiou seu drama à pastora da igreja que frequentava. Dias depois, seu marido descobriu a gravidez ao ler mensagens no celular dela e a agrediu severamente.
Ela deixou a casa, registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil do Distrito Federal e foi acolhida em um abrigo junto com sua filha de 2 anos. No abrigo, foi orientada a buscar atendimento médico para a interrupção legal da gravidez, direito garantido às vítimas de estupro no Brasil.
Com autorização judicial, Larissa realizou o aborto no Hmib em 23 de abril. Ao despertar, sentia fortes dores e sangramento, mas recebeu dos médicos apenas medicação para cólicas e dor comum.
Sentindo dor intensa e sintomas de febre alta e mal-estar, ela voltou ao hospital acompanhada pelo abrigo, onde exames indicaram complicações graves. Foi transferida para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), onde descobriu que órgãos internos foram perfurados durante o procedimento.
Após cirurgia reparadora, Larissa saiu do hospital cinco dias depois, mas continua utilizando uma bolsa de colostomia, aguardando uma cirurgia para reverter o quadro, sem previsão definida, o que compromete sua qualidade de vida e sua capacidade de trabalhar.
Antes do ocorrido, Larissa era chef de cozinha, mas devido ao procedimento não pode mais atuar na área, ficando sem renda além de um auxílio aluguel no valor de R$ 600.
Além da dor física e da limitação profissional, convive com o desconforto e constrangimento causados pela bolsa de colostomia, e enfrenta incertezas sobre seu futuro.
*Nome fictício para preservar a identidade da vítima.