LEONARDO VIECELI
FOLHAPRESS
A inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) desacelerou para 0,62% em maio, depois de atingir 0,89% em abril, conforme dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (27).
Mesmo com essa desaceleração, a taxa de 0,62% é a maior para o mês de maio dos últimos dez anos, desde 2016, que teve 0,86%.
O aumento nos preços dos alimentos e bebidas (1,38%) e da energia elétrica (2,16%) foi o principal motivo para o resultado, enquanto os combustíveis tiveram queda de 1,47%, depois de uma alta expressiva causada pela guerra no Irã.
O IPCA-15 de maio (0,62%) ficou acima da mediana das expectativas do mercado financeiro, que era de 0,57%, segundo dados da Bloomberg. As previsões variavam entre 0,47% e 0,65%.
No acumulado dos últimos 12 meses até maio, o índice do IBGE subiu 4,64%, maior que os 4,37% registrados até abril.
Esse resultado ultrapassa o limite máximo da meta de inflação de 4,5% estabelecida pelo Banco Central (BC), algo que não acontecia desde outubro do ano passado.
A meta de inflação é um parâmetro que orienta a política de juros do BC e baseia-se no índice IPCA, também calculado pelo IBGE.
O IPCA-15, divulgado com antecedência e que possui estrutura similar ao IPCA, indica a tendência para o indicador principal. A principal diferença entre os dois está no período de coleta dos preços.
No caso do IPCA-15 de maio, a coleta ocorreu entre 16 de abril e 15 de maio, enquanto o IPCA considera o mês inteiro de referência. O resultado final do IPCA de maio será divulgado em 12 de junho.
Com base nos dados do IPCA-15, o economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, revisou sua previsão para o IPCA de maio, aumentando de 0,44% para 0,6%. Para o índice acumulado de 2026, a estimativa subiu de 5,2% para 5,4%.
Romão observou que o IPCA-15 surpreendeu positivamente nos itens de alimentação em domicílio, habitação, vestuário e saúde e cuidados pessoais.
Segundo Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do banco Pine, o índice indica uma piora no cenário da inflação. O banco revisou recentemente sua previsão para o IPCA de 2026 para 5,6%.
Alimentos e conta de luz pressionam inflação
O grupo de alimentação e bebidas registrou inflação de 1,38% em maio, uma ligeira queda em relação aos 1,46% de abril.
Esse setor continuou a apresentar a maior variação entre os nove grupos monitorados pelo IBGE, exercendo a maior pressão no IPCA-15 com impacto de 0,30 ponto percentual. A alimentação em casa subiu 1,73% em maio.
O IBGE destacou altas nos preços da batata-inglesa (26,29%), tomate (12,97%), leite longa vida (6,07%) e carnes (1,98%). Por outro lado, preços de maçã (-2,32%) e café moído (-2,09%) caíram.
A alimentação fora de casa, como em bares e restaurantes, teve alta de 0,51%.
A maior pressão individual veio da energia elétrica, que subiu 2,16% devido à aplicação da bandeira tarifária amarela, gerando uma cobrança extra de R$ 1,885 para cada 100 kWh consumidos. Também houve reajustes na conta de luz em cidades como Fortaleza, Salvador e Recife.
Combustíveis apresentaram queda
O grupo de transportes caiu 0,33% em maio, sendo o único com queda no mês, após um aumento forte em abril de 1,34% devido à alta dos preços do petróleo causada pela guerra no Irã.
O IBGE informou que os combustíveis tiveram queda de 1,47% em maio, com reduções nos preços do etanol (-2,73%), óleo diesel (-2,04%) e gasolina (-1,32%).
A gasolina foi a principal responsável pela queda no IPCA-15, com impacto de -0,07 ponto percentual.
Projeções de inflação aumentam com a guerra
A guerra no Oriente Médio fez com que analistas revisassem para cima as projeções de inflação, o que é motivo de preocupação para o governo em ano eleitoral.
No boletim Focus do BC, a mediana das previsões para o IPCA de 2026 subiu por 11 semanas consecutivas, chegando a 5,04% na última divulgação em 25 de maio. A meta oficial do BC é de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, definindo um teto de 4,5% e piso de 1,5% para o acumulado anual.
A meta é considerada descumprida quando a taxa fica fora do intervalo de tolerância durante seis meses consecutivos.
A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, observa que os preços dos serviços, que excluem itens voláteis como passagens aéreas, aumentaram 5,4% nos últimos 12 meses, taxa superior à do IPCA-15 geral (4,64%).
Essa diferença evidencia a dificuldade e a lentidão na convergência da inflação para a meta, segundo Claudia.
Ela afirma que, a curto prazo, medidas como subsídios e redução de impostos podem ajudar a controlar a alta dos preços, mas as tensões no Oriente Médio e o aumento dos preços dos fertilizantes devem continuar afetando os alimentos.
El Niño é uma ameaça adicional
Além da guerra, o fenômeno climático El Niño representa um risco adicional, pois se for intenso poderá prejudicar a produção de alimentos, elevando seus preços ainda mais este ano.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico na região do Equador, geralmente aumentando o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto provoca chuvas intensas no Sul.
No IPCA-15, o grupo alimentação e bebidas teve a maior alta para o mês de maio desde 2022 (1,52%). Naquele ano, o Brasil também vivia um período pré-eleitoral, com a alta dos preços dos alimentos sendo uma das principais dificuldades do governo anterior.
Embora o poder de compra dos alimentos tenha melhorado durante o terceiro mandato do presidente atual, ainda está abaixo dos níveis pré-pandemia, conforme reportagem da Folha de S.Paulo em março.
