NATHALIA GARCIA
Brasília, DF – O Banco Central espera que a inflação oficial do Brasil volte a ficar abaixo do limite máximo permitido a partir do final do primeiro trimestre de 2026. Essa previsão foi feita pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo, em uma carta aberta ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
O estouro da meta de inflação ocorreu devido à economia brasileira estar mais ativa, às expectativas de inflação estarem acima da meta, à inflação passada ainda influenciando os preços e à valorização do dólar. Este é o segundo comunicado desse tipo feito pelo atual presidente do BC em seis meses.
O IBGE confirmou que o IPCA, que mede a inflação, subiu 5,35% em 12 meses até junho, ultrapassando o limite máximo da meta, que é 4,5%. A meta central é 3%, com uma margem de tolerância que varia entre 1,5% e 4,5%.
Gabriel Galípolo apontou que a economia cresceu mais do que o esperado, com o aumento do PIB e um mercado de trabalho aquecido. Esse cenário elevou a inflação em aproximadamente 0,47 ponto percentual.
Ele também ressaltou que as previsões de inflação ficaram acima da meta desde meados de 2024, o que aumentou a pressão sobre os preços em 0,58 ponto percentual.
A inflação passada, que influencia os preços atuais, também contribuiu para o estouro da meta, incluindo reajustes salariais que superaram a inflação anterior e o aumento do salário mínimo em 2025, que foi de 7,5%.
Além disso, a alta do dólar durante 2024 elevou o custo dos produtos importados, como bens industriais e alimentos processados, aumentando a inflação no segundo trimestre de 2025.
O cenário de seca também agravou a situação, aumentando as tarifas de energia elétrica e pressionando a inflação em cerca de 0,27 ponto percentual.
No documento, o presidente do Banco Central garantiu que estão sendo tomadas medidas para que a inflação volte ao intervalo aceitável, incluindo o aumento da taxa Selic, que chegou a 15% ao ano em junho.
Gabriel Galípolo afirmou que o BC continuará monitorando a inflação e agirá se necessário para controlar os preços.
O Copom avalia diferentes cenários para a taxa Selic e as expectativas de juros do mercado. A previsão principal é que a inflação fique entre 5,4% e 5,5% nos três primeiros trimestres de 2025, caindo para 4,9% no final de 2025 e para 4,2% no primeiro trimestre de 2026, mantendo-se dentro da meta a partir daí.
Durante o período em que a inflação ultrapassa a meta, o Banco Central vai reforçar a comunicação explicando as causas do descumprimento, as medidas adotadas e o progresso no controle da inflação.
A nova regra, em vigor desde janeiro, estipula que a meta é descumprida se a inflação ficar fora da margem de tolerância por seis meses consecutivos. O BC deve explicar ao Conselho Monetário Nacional os motivos do descumprimento e as ações para solucionar o problema.
Se necessário, uma nova carta será divulgada para atualizar o prazo de retorno à meta, e o BC também vai publicar relatórios trimestrais para informar a sociedade.
Gabriel Galípolo destacou que essa vigilância contínua ajuda a melhorar a compreensão sobre o impacto das decisões de política monetária no controle da inflação.
Desde que assumiu em janeiro, Galípolo já precisou justificar o resultado da inflação acima do limite superior da meta, que ocorreu na gestão anterior. Ele atribuiu isso a fatores como a força da economia, o dólar valorizado e condições climáticas adversas.
Em audiência recente na Câmara dos Deputados, o presidente do BC demonstrou insatisfação com a situação, mencionando que em seis meses terá que escrever sua segunda carta explicando o descumprimento da meta.
Desde a criação do sistema de metas em 1999, já foram escritas oito cartas explicativas. O ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, teve que justificá-las em três ocasiões entre 2019 e 2024.
Outros ex-presidentes do Banco Central também tiveram que escrever cartas para explicar descumprimentos, seja por ultrapassar o limite superior ou por ficar abaixo do piso da meta.