JORGE ABREU
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O primeiro dia do Acampamento Terra Livre, a maior manifestação dos povos indígenas do Brasil, começou nesta segunda-feira (6) em Brasília, com o foco nos projetos que planejam atuar dentro das terras indígenas.
Com o tema “Nosso futuro não está à venda – a resposta somos nós”, o evento busca pressionar o governo para proteger os territórios indígenas. Os organizadores esperam reunir até 8.000 indígenas, como nas edições anteriores.
Entre os casos discutidos na tenda da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) está o projeto da empresa canadense Belo Sun, que pretende explorar ouro na região da Volta Grande do Xingu, no Pará.
As etnias dessa região estão há mais de um mês acampadas na sede da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) em Altamira (PA), protestando contra o projeto. As lideranças participam das atividades em Brasília.
A liderança indígena Taiani Xypai afirmou que a consulta feita pela Belo Sun não seguiu as regras da convenção 169 da OIT, da qual o Brasil faz parte.
Ela disse que a empresa não consultou a comunidade xypai Marapanim, que vive em Senador José Porfírio (PA), perto do local onde querem construir uma barragem para resíduos com substâncias tóxicas.
Taiani contou que há dez anos a comunidade luta para ser reconhecida, mas a Funai não respondeu às demandas e nem mapeou todos os grupos indígenas da Volta Grande do Xingu.
Em nota, a Belo Sun afirmou que todas as licenças ambientais foram seguidas e acompanhadas pelas autoridades competentes. O projeto pode se tornar a maior mina de ouro do Brasil.
O presidente da empresa, Adriano Espeschit, enviou carta dizendo que as etnias juruna e arara próximas ao projeto aprovaram a mineração em consulta acompanhada pelas autoridades.
Um relatório do Ministério dos Povos Indígenas indica que comunidades indígenas foram ignoradas no processo de licenciamento, mesmo após pedidos para participar do debate.
Taiani alertou que a mineração deixará a situação da região ainda pior, destruindo os rios com substâncias nocivas.
A Funai não comentou as críticas, mas anteriormente afirmou que acompanha os desdobramentos do caso junto a órgãos competentes.
Outro alvo de protestos é o projeto Ferrogrão, que prevê uma ferrovia de 933 km ligando Sinop, Mato Grosso, ao porto de Miritituba, no Pará, passando pela Amazônia.
Alessandra Munduruku, liderança indígena da região do Tapajós, falou que a ferrovia está ligada à empresa americana Cargill, cuja sede foi ocupada por indígenas em Santarém durante mais de 30 dias contra o projeto.
Ela destacou que o Tapajós já demonstrou sua força e que a ferrovia precisará abrir caminhos no rio, o que poderá afetar a região grave- mente.
Nesta quarta-feira (8), o Supremo Tribunal Federal (STF) retomará o julgamento sobre o projeto Ferrogrão, reacendendo o debate sobre sua viabilidade.
*O repórter viajou a convite da Aliança pela Volta Grande do Xingu

