Nathalia Garcia e Ricardo Della Coletta
Brasília, DF (FolhaPress)
As ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o bloco dos Brics tiveram um efeito pequeno nas ações do grupo durante a presidência brasileira, avalia a secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito.
Em entrevista, a embaixadora responsável pelas negociações econômicas destaca que o diálogo tem aumentado em busca de convergência, mesmo com o multilateralismo enfrentando desafios, enquanto a expansão do grupo torna essa busca mais complexa.
Além do Brasil, fazem parte integral do Brics: Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A Arábia Saudita, convidada em 2023, ainda não oficializou sua entrada, mas tem enviado representantes às reuniões. A próxima cúpula está marcada para os dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro.
Entrevista sobre o momento e atuação do Brics
Como o cenário global atual afeta o grupo?
Tatiana Rosito: A importância da reunião do Brics no Brasil cresce. O grupo não se posiciona como antagonista; pelo contrário, apoia o multilateralismo e as Nações Unidas, expressando isso fortemente.
Como defender o multilateralismo sem prejudicar as relações com os EUA?
Tatiana Rosito: Buscamos valorizar o Brics como um grupo que atrai países em desenvolvimento, priorizando o fortalecimento institucional. A presidência brasileira pretende destacar o papel do Brics na defesa do multilateralismo, reformas em instituições financeiras internacionais para maior voz desses países, e ampliar relações comerciais, econômicas e políticas entre os membros, incluindo os novos integrantes.
As ameaças de Trump influenciaram a estratégia do Brasil na presidência do Brics?
Tatiana Rosito: O impacto foi pequeno, pois a agenda financeira do Brics já estava definida. Ela abrange facilitação do comércio via inovações em sistemas de pagamento, expansão do comércio e investimentos intra-Brics, e fortalecimento dos mecanismos financeiros já criados pelo grupo, como o acordo contingente de reservas e o Novo Banco de Desenvolvimento.
Quais são as novidades?
Tatiana Rosito: Pela primeira vez, o Brics discute mecanismos inovadores para financiamento climático e participa do diálogo para a COP30, que ocorrerá em novembro em Belém. A agenda inclui reformas em bancos multilaterais, fundos climáticos, mobilização de capital privado, mercado de carbono, e legislação prudencial, buscando construir convergência mesmo sem negociar como grupo.
O grupo conta com uma força-tarefa em parcerias público-privadas para impulsionar financiamentos mistos e mitigar riscos cambiais. Instrumentos que facilitem o fluxo de capital para países em desenvolvimento e a transição climática são centrais nas discussões atuais.
Qual o papel do Brics nesses instrumentos?
Tatiana Rosito: O primeiro passo é criar diálogo para compartilhar experiências e identificar problemas. Por exemplo, países líderes em investimentos em energia renovável como a China; digitalização como a Índia; e soluções baseadas na natureza como a Indonésia.
Depois, o Brics visa convergência em mecanismos multilaterais e cooperação concreta, com o Novo Banco de Desenvolvimento e o acordo contingente de reserva como instrumentos-chave. Um dos temas é criar um mecanismo de garantias do Brics para facilitar investimentos de longo prazo em áreas como transição energética e infraestrutura sustentável.
Como funcionaria esse mecanismo?
Tatiana Rosito: Ele reduziria riscos relacionados a um projeto, diminuindo seu custo de capital e atraindo investidores. As garantias poderiam cobrir riscos políticos, comerciais e de construção, entre outros.
A expansão do Brics facilitou ou dificultou o consenso sobre a reforma do sistema financeiro internacional?
Tatiana Rosito: A expansão fortalece a agenda de ampliação do peso dos países em desenvolvimento nas instituições financeiras. Um grupo maior facilita a cooperação para essa reforma, apesar de trazer mais diversidade ao grupo.
Com a posição dos EUA, é mais difícil avançar em uma reforma do sistema financeiro?
Tatiana Rosito: As mudanças específicas nos pesos institucionais são delicadas no momento, mas a agenda também se amplia. Ações unilaterais motivam os países a dialogar e se unirem em posições comuns, dando mais peso a mecanismos alternativos e maior diálogo em tempos de multilateralismo enfraquecido.
Muitos avanços dependem de decisões conjuntas, especialmente em temas como mudanças climáticas, fome, pandemias e sistemas financeiros e comerciais mais justos. Na área tributária, o Brics também apresentará instrumentos e documentos específicos para cooperação internacional.
Como o Brics pode contribuir no financiamento climático, considerando alguns membros exportarem petróleo?
Tatiana Rosito: O grupo reafirma a necessidade de ampliar o capital dos bancos, alavancar recursos privados e garantir uma combinação de instrumentos para atingir as metas financeiras da COP30. O Brics destaca a importância de recursos concessionais para tecnologias inovadoras e situações de riscos climáticos elevados.
Como seria uma presidência financeira bem-sucedida?
Tatiana Rosito: Gostaríamos de entregar um comunicado que demonstre convergência entre os países do Brics expandidos, com elementos cruciais para países em desenvolvimento. Isso inclui reformas institucionais, aumento de recursos concessionais e instrumentos inovadores para a transição climática, além da contribuição das economias avançadas.
A agenda também mostraria a consolidação do grupo, com fortalecimento dos instrumentos internos como o Novo Banco e o acordo contingente, maior integração de mercados de capitais e exploração de novos setores como resseguros. O Brics surge assim como uma força que alia transformação e estabilidade num mundo cada vez mais desafiador ao multilateralismo.
Perfil – Tatiana Rosito, 52 anos
Embaixadora e secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, responsável pela coordenação das negociações econômicas do Brics. Economista e diplomata de carreira, possui experiência em instituições públicas e organizações internacionais. Atuou como consultora do Novo Banco de Desenvolvimento e foi representante da Petrobras na China.
