CRISTIANE GERCINA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A empresa iFood planeja aplicar R$ 17 bilhões nas suas operações até 2026 e alcançar 1 bilhão de pedidos por ano nos próximos três anos. No entanto, ainda enfrenta desafios para regularizar a situação dos entregadores, que é um problema enfrentado mundialmente por aplicativos similares.
Esses investimentos foram anunciados em 5 de abril por Diego Barreto, CEO do iFood, durante o evento iFood MOVE 2025 em São Paulo, evento que teve protestos de entregadores pela manhã. Além disso, a empresa começará a oferecer empréstimos aos clientes.
Diego Barreto mencionou que a maior dificuldade para a regulamentação dos entregadores está nas contribuições à Previdência Social, conforme previsto no projeto de lei complementar (PLP 12) enviado pelo governo federal ao Congresso em 2024.
“O projeto tem consenso em 90% dos pontos, o único em aberto é a questão da Previdência. Precisamos sentar e resolver isso”, declarou.
Durante a manhã no evento, um pequeno grupo de entregadores protestava com faixas dizendo que a profissão é uma “escravidão moderna”.
O PLP 12, resultado de negociações entre plataformas, governo e trabalhadores, garante salário mínimo aos entregadores, contribuição de 7,5% ao INSS, transparência nos algoritmos e cria a categoria de trabalhador autônomo por plataforma. Porém, ele não inclui entregadores de motos e bicicletas, abrangendo apenas transportes de passageiros por falta de acordo sobre remuneração e contribuição previdenciária.
Diego Barreto explicou que o problema principal é calcular quanto o entregador deve pagar ao INSS. A contribuição seria automática pelas plataformas, mas poucos entregadores atingem o mínimo necessário para benefícios previdenciários.
O CEO afirmou que a plataforma aceita contribuir com 80% desse valor para o governo, enquanto os entregadores pagariam os 20% restantes.
Uma possível solução seria um sistema integrado ao eSocial que somaria os ganhos dos entregadores que trabalham para várias plataformas, permitindo o cálculo correto da contribuição.
Ele citou como exemplo a regulamentação das empregadas domésticas em 2015, onde o governo ajustou as contribuições para garantir direitos trabalhistas, abrindo mão de parte da arrecadação para facilitar a aprovação.
“Precisamos encontrar uma maneira semelhante ao que o Estado fez para as domésticas no passado”, afirmou.
O movimento do iFood sobre o PLP 12 está relacionado ao fato de que, este ano, motoboys conseguiram apresentar suas demandas em um projeto de lei (2.479/2025) apoiado por deputados de vários partidos.
Outra proposta parlamentar sugere aumentar a contribuição das plataformas ao INSS, o que preocupa a empresa pela possível redução dos ganhos dos entregadores e aumento do custo para os consumidores.
O Brasil é um dos países com maior número de entregadores, cerca de 2 milhões estimados, e as decisões tomadas aqui podem influenciar regulamentações em outros países e para outras atividades via plataformas.
Diego Barreto acredita que a regulamentação ainda é possível mesmo com as eleições se aproximando. “Não estamos longe disso e vamos lutar para aprovar”, completou.
Apesar disso, para os entregadores, o mais importante é o quanto recebem por entrega. Uma nova modalidade chamada subpraças reduz os pagamentos para entre R$ 3,30 e R$ 3,70 por hora.
Os trabalhadores pedem salário mínimo de R$ 10 por hora, o fim do pagamento fixo por várias entregas agrupadas e a volta do sistema onde podem se cadastrar pelo CPF, pois atualmente, apenas o sistema que exige CNPJ permite trabalhar.