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sábado, 24/01/2026

idosos aposentados que continuam a trabalhar para melhorar a renda e manter hábitos

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GABRIELA CECCHIN E ANA PAULA BRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O fiscal de obras Deusdédit Rodrigues, 70 anos, se aposentou em 2017, mas nunca parou de trabalhar.

Ele ficou na construtora MBigucci até 2020, quando a pandemia o afastou temporariamente, retornando ao trabalho em 2022, função que ainda exerce. Seu dia começa por volta das 4 da manhã, pegando dois ônibus e o metrô diariamente. Ele afirma que continuará trabalhando enquanto estiver com saúde.

“O salário da aposentadoria ajuda, mas não é suficiente para ficar sem trabalhar. É preciso complementar financeiramente”, destaca.

Casos como o de Deusdédit ajudam a explicar por que a aposentadoria tem significado para muitos brasileiros não sair do mercado de trabalho. Em 2024, cerca de 25% das pessoas com 60 anos ou mais ainda estavam empregadas, segundo o IBGE. Este é o maior índice desde 2012, desconsiderando os anos da pandemia.

Entre os homens idosos, 34,2% estavam ativos; entre as mulheres, 16,7%. Na faixa acima de 70 anos, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres continuavam trabalhando.

Deusdédit vive apenas com sua esposa, de 66 anos, que não contribui para o INSS. Ele ficou surpreso ao descobrir que sua renda impede que ela receba o BPC (Benefício de Prestação Continuada). “Acho injusto, ela receberia muita ajuda se estivesse aposentada.”

Embora não exija esforço físico intenso, o trabalho é estressante. Ele cuida da fase final dos apartamentos em construção, checando acabamentos e coordenando equipes terceirizadas para garantir qualidade. No prédio sob sua responsabilidade, há cerca de 150 unidades.

Pesquisa da Serasa e Opinion Box mostra que essa é uma situação comum: 60% dos aposentados continuam trabalhando. Desses, 63% buscam complementar a renda, 57% querem manter uma vida ativa e 32% desejam continuar produtivos. A pesquisa ouviu 952 pessoas entre dezembro e janeiro.

Metade dos aposentados entrevistados já recorreu a crédito para pagar contas e 35% a empréstimos para despesas básicas. Para 46%, a aposentadoria não é suficiente para manter o padrão de vida anterior, 33% enfrentam dificuldades em pagar contas básicas e 44% temem precisar de ajuda financeira de terceiros.

A doméstica Maria Aparecida Moura, 66 anos, conhecida como Cida, foi registrada como babá aos 46 anos, após atuar como diarista por muito tempo. Aos 62 anos, aposentou-se por idade com benefício mínimo.

Ela explica que não tinha informações sobre aposentadoria por tempo de contribuição na época que trabalhou sem registro. “Eu só queria cuidar dos meus filhos”, diz.

Nos últimos anos, sua aposentadoria não tem sido suficiente para as responsabilidades familiares. Sua filha mais velha faleceu há oito anos e deixou uma neta de seis meses. Dois anos atrás, o ex-marido, que morava em sua casa, sofreu vários AVCs, ficou acamado e precisa de cuidadora em meio período, custeada pela aposentadoria dele.

A neta também faz acompanhamento psicológico para lidar com a perda da mãe.

Com diabetes e problemas vasculares que causam dores, Cida cuida do ex-marido e da neta, ajudada pela filha mais nova e pela irmã. “Hoje não dá para viver só da aposentadoria. Aposentado não consegue se sustentar só com isso”, afirma.

Ela optou por continuar trabalhando para a mesma família e não sabe quando poderá parar.

Dados do IBGE indicam que os idosos empregados recebem uma média de R$ 3.108, superior à média geral dos trabalhadores em 14,6%. Mulheres idosas ganham em média R$ 2.718, enquanto homens recebem R$ 4.071.

O trabalho autônomo é a principal forma de emprego para idosos, representando 43,3% das ocupações nessa faixa.

A advogada trabalhista Priscila Arraes, sócia do escritório Arraes & Centeno, explica que aposentados podem continuar trabalhando com carteira assinada, mantendo os direitos trabalhistas. “Os direitos permanecem porque decorrem da relação de emprego, não da aposentadoria”.

A única exceção é a aposentadoria por incapacidade permanente, que suspende o benefício se o aposentado retornar ao trabalho. Para aposentadorias especiais, o segurado pode trabalhar, desde que não se exponha novamente aos agentes nocivos originais.

Quem trabalha depois de aposentado deve continuar contribuindo ao INSS, mas não tem direito a reavaliação do benefício ou auxílios como o por incapacidade temporária. A contribuição é obrigatória e baseada na solidariedade do sistema previdenciário.

Lourival Vieira, caminhoneiro de 84 anos, aposentado há mais de 20 anos, também não pensa em parar de trabalhar. “Não gosto de ficar parado”, diz.

Casado há 62 anos, mora com a esposa e dois filhos solteiros. Do seu salário, destina entre 15% e 20% para um projeto social mantido por sua esposa que ajuda crianças carentes. “Fico feliz quando posso ajudar alguém.”

Apesar dos riscos do trabalho, como assaltos e sequestro, Lourival encara com tranquilidade: “O único problema é o perigo, o resto a gente supera.”

A contadora Mônica Acencio, 58 anos, aposentou-se em 2019, mas permaneceu na mesma empresa e função. “Quando me aposentei, não achei que deveria parar”, afirma.

Para ela, a decisão foi tanto financeira quanto de estilo de vida. Motociclista e líder de motoclube feminino, Mônica diz que amigas que pararam precocemente tiveram estresse e depressão. “Vou trabalhar enquanto tiver saúde.”

Priscila Arraes recomenda planejamento previdenciário para quem deseja continuar trabalhando após aposentadoria, considerando valores, impostos e impacto em benefícios diversos.

Euclécio Cerri, metalúrgico de 75 anos, aposentou-se aos 46 devido à insalubridade. Após problemas de saúde, afastou-se do trabalho direto, mas permaneceu na empresa familiar até sofrer um infarto aos 70. Agora, aparece só ocasionalmente para orientar funcionários jovens. “Vou para ocupar a mente”, explica.

Ele destaca que sua aposentadoria não cobre as despesas da casa, especialmente porque sua esposa está em tratamento de quimioterapia. “Só a aposentadoria não dá para viver. Recebo R$ 4.000, como vou viver?”

A jornalista Regina Diniz, 63 anos, se aposentou no último ano depois de mais de 30 anos de carreira, mas mantém sua agência de comunicação ativa. “Trabalho porque gosto, nunca pensei em parar.”

Além do trabalho profissional, oferece práticas integrativas e prestou o Enem para cursar Filosofia em universidade pública. “Vida animada, sempre aprendendo e aproveitando oportunidades.”

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