Guilherme Mello, secretário de Política Econômica e indicado para a diretoria do Banco Central, escreveu um texto em 2019 criticando a ideia de estimular o crescimento econômico apenas com medidas de política monetária não convencionais, como juros negativos e compra de títulos.
O artigo, assinado também por Felipe Da Roz, Fernanda Oliveira Ultremare e Olívia Maria Bullio Mattos, explica por que a redução dos juros para níveis muito baixos ou negativos após a crise de 2008 não conseguiu eliminar a especulação financeira nem gerar pleno emprego nas economias avançadas.
Na crise, os principais bancos centrais do mundo baixaram os juros para cerca de zero, buscando aquecer a economia, sem sucesso total. Por isso, passaram a usar táticas consideradas heterodoxas, que são discutidas no artigo, especialmente a cobrança de juros negativos.
A publicação destaca medidas como o “quantitative easing”, no qual bancos centrais compram títulos públicos ou privados para aumentar seu preço e reduzir seus juros, e o “forward guidance”, que são compromissos públicos para orientar as expectativas do mercado sobre a direção futura dos juros.
Também são citadas estratégias do Banco do Japão e do Banco Central Europeu, que usaram juros negativos para incentivar os bancos a emprestar ou investir, aquecendo a economia.
Segundo os autores, essas ações facilitaram o crédito, reduziram juros dos títulos e aliviaram medos de deflação no curto prazo, mas seus benefícios diminuíram com o tempo. Por outro lado, causaram efeitos negativos como alta nos preços de ativos, queda nos lucros bancários e aumento da desigualdade patrimonial.
Os autores defendem a visão keynesiana de que essas medidas monetárias especiais ajudam em aspectos pontuais, mas não conseguem por si só resolver o desemprego. É necessário combiná-las com políticas fiscais que aumentem o investimento público e o consumo, algo muitas vezes dificultado por regras de austeridade e conflitos políticos.
O artigo enfatiza que, para Keynes e seguidores, a política monetária é fundamental para evitar a “armadilha da liquidez”, mas a política fiscal é essencial para criar demanda e reduzir a incerteza. Se a política de juros negativos se foca em reservas bancárias, não está claro como a liquidez chega à economia real. Em contrapartida, Keynes destaca o papel ativo do governo em estimular a economia.
O gasto público é considerado chave para restaurar lucros empresariais durante crises. Em 2019, os autores apontavam que a combinação de incertezas políticas e econômicas, altos riscos nos empréstimos e elevado endividamento mantinham as economias avançadas presas a um cenário difícil.
Estadão Conteúdo
