Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã causaram aumento nos preços e impactaram negativamente a economia global, levando à queda nos mercados de ações e obrigando países em desenvolvimento a racionar combustível e subsidiar energia para proteger as populações vulneráveis.
Os conflitos contra refinarias, oleodutos, campos de gás e portos no Golfo Pérsico podem prolongar essa crise econômica por meses ou até anos.
“Há cerca de duas semanas, eu diria que se a guerra parasse naquele dia, os efeitos a longo prazo seriam pequenos”, comenta Christopher Knittel, economista de energia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. “Mas agora vemos a destruição de infraestrutura, o que indica que as consequências serão duradouras.”
O Irã atacou o terminal de gás natural Ras Laffan, no Catar, que representa 20% da produção mundial de gás natural liquefeito. O ataque de 18 de março derrubou 17% da capacidade de exportação do Catar, com reparos previstos para até cinco anos, segundo a estatal QatarEnergy. A guerra afetou o mercado de petróleo desde o início, com o Irã fechando o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, ameaçando petroleiros que tentarem atravessar.
Exportadores do Golfo, como Kuwait e Iraque, reduziram a produção diante da impossibilidade de enviar petróleo pelo estreito. Essa perda de 20 milhões de barris diários causou a maior interrupção de oferta da história do mercado global do petróleo, conforme a Agência Internacional de Energia.
O preço do barril Brent subiu 3,4% para US$ 105,32, enquanto o petróleo dos Estados Unidos subiu 5,5%, fechando a US$ 99,64. “Historicamente, choques assim no preço do petróleo levam a recessões globais”, observa Knittel.
A guerra revive preocupações com a estagflação, uma combinação de inflação alta e crescimento baixo, que marcou a economia nos anos 1970. “O risco de inflação mais alta e crescimento menor está aumentando”, comenta Carmen Reinhart, da Harvard Kennedy School e ex-economista-chefe do Banco Mundial.
Gita Gopinath, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, indicou que o crescimento global, antes previsto em 3,3% para 2026, pode cair em 0,3 a 0,4 ponto percentual se o preço do petróleo se mantiver em média nos US$ 85 por barril.
Escassez e custo elevado de fertilizantes afetam produtores
O Golfo Pérsico é responsável por grandes proporções da exportação mundial de ureia e amônia, fertilizantes essenciais produzidos com acesso a gás natural barato.
Até 40% das exportações de fertilizantes nitrogenados passam pelo Estreito de Ormuz. Com o bloqueio na passagem, os preços da ureia subiram 50% e da amônia 20% desde o início do conflito. O Brasil, importante produtor agrícola, depende de importações para 85% dos seus fertilizantes, ficando vulnerável, segundo Kelly Xu, estrategista de commodities da Alpine Macro. O Egito, grande produtor, enfrenta queda na produção devido à falta de gás natural.
Com os custos mais altos, os preços dos alimentos devem subir e a oferta cairá, impactando principalmente famílias em nações mais pobres, pois os agricultores usarão menos fertilizantes e colherão menos.
A guerra também interrompeu o fornecimento global de hélio, usado na fabricação de chips, foguetes e exames médicos. O Catar produz cerca de um terço do hélio mundial.
Racionamento de gás e restrições ao uso de ar-condicionado
“Se a crise persistir, nenhum país será imune”, alertou Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia.
Países pobres enfrentarão as maiores dificuldades, pois serão superados nos leilões por petróleo e gás naturais disponíveis, explica Lutz Kilian, diretor do Centro de Energia e Economia do Federal Reserve Bank de Dallas.
A Ásia é especialmente afetada, pois recebe mais de 80% do petróleo e gás natural que passam pelo Estreito de Ormuz.
Nas Filipinas, repartições públicas funcionam quatro dias por semana, com ar-condicionado limitado a 24°C. Na Tailândia, servidores usam escadas ao invés de elevadores.
Na Índia, segundo maior importador mundial de gás liquefeito, o governo prioriza famílias no fornecimento de gás, absorvendo custos para manter preços baixos. Restaurantes enfrentam redução de horário e retirada de pratos que demandam muita energia.
A Coreia do Sul limita uso de carros para servidores públicos e restabeleceu teto para preços de combustíveis.
Crise afeta economia vulnerável dos EUA
Embora os EUA estejam relativamente protegidos, como exportadores de petróleo, o aumento no preço da gasolina pesa no orçamento dos consumidores, com o preço médio do galão chegando a quase US$ 4.
A economia americana mostra sinais de fraqueza, crescendo 0,7% no último trimestre, com criação de empregos em ritmo lento. Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon, acredita que a chance de recessão em 2025 subiu para 40%, contra 15% em condições normais.
A recuperação será lenta
A economia global tem resistido a choques como a pandemia e conflitos recentes, mas o otimismo diminui com as ameaças contínuas à infraestrutura energética no Golfo.
“Os reparos nas instalações do Catar e em refinarias do Kuwait levarão anos”, afirma Lutz Kilian. “Mesmo sob condições ideais, a recuperação será lenta.”
“Não há benefícios econômicos no conflito com o Irã”, afirmam Mark Zandi e colegas. “A questão agora é por quanto tempo o conflito vai durar e quanto dano econômico causará.”
Estadão Conteúdo

