BÁRBARA SÁ
FOLHAPRESS
Um grupo de jovens investigado na Operação Lívia, por conta do suicídio de uma adolescente de 13 anos, usou diferentes redes para transmitir o ocorrido na madrugada do dia 22 de julho. A transmissão passou pelo Discord e, quando os canais foram derrubados, continuou pelo Instagram, conforme informou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
A delegada Anne Karine Trevizan relatou à Folha de S.Paulo que seis adolescentes apreendidos recentemente podem responder por atos semelhantes a homicídio qualificado e organização criminosa. Ela destacou que durante os depoimentos, os jovens não demonstraram arrependimento.
A morte da menina, que foi induzida ao suicídio, gerou grande repercussão e levou a ações contra o Discord, incluindo a suspensão de transmissões ao vivo e um processo judicial com pedido de R$ 500 milhões por danos morais coletivos, atualmente em andamento.
O Discord afirmou, em nota, seu compromisso com a segurança dos usuários, utilizando tecnologia e equipes especializadas para remover conteúdos impróprios. A empresa declarou ter investigado e desativado o servidor privado usado pelo grupo antes do suicídio.
A investigação revela que o grupo usava perfis falsos em redes sociais para se aproximar de jovens frágeis, coletar informações pessoais e realizar ameaças e chantagens.
O grupo virtual, conhecido como panela entre seus membros, existia há cerca de dois anos. A vítima participava dele há cerca de três meses, desde seu retorno da Espanha, onde morava com o pai e a irmã.
No ambiente virtual, a garota sofria ameaças e foi orientada por membros do grupo a praticar automutilação, o que foi confirmado pela perícia ao encontrar marcas em seu corpo com referências aos líderes do grupo.
A investigação também aponta que uma adolescente de 13 anos, de uma cidade do interior de São Paulo e considerada amiga pela vítima, teria passado dados pessoais da jovem para o grupo, contribuindo para as ameaças.
Até o momento, a Operação Lívia já deteve 12 pessoas: seis adolescentes entre 13 e 17 anos na etapa recente, além de outros cinco adolescentes e um adulto na primeira fase.
A ação na madrugada de 22 de julho envolveu plataformas como Zangi, Telegram, Discord e Instagram. O Ministério da Justiça, por meio do Ciberlab, notificou as empresas para derrubar os canais, ação que durou 28 minutos no Discord.
À medida que as salas eram encerradas, os criminosos migravam a transmissão para outras plataformas, até chegar ao Instagram. A Meta, que controla o Instagram, colabora com as autoridades e apoia as investigações.
A análise dos aparelhos apreendidos indica que outras adolescentes podem ter sido vítimas do grupo. A Polícia Civil segue extraindo e avaliando dados para identificar mais vítimas e participantes.
Os adolescentes detidos estão sob custódia à disposição da Justiça, que avaliará a necessidade de internação provisória pelo período máximo de 45 dias, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. Os jovens da primeira fase seguem presos ou internados.
O adulto preso na primeira etapa responde por suspeita de homicídio qualificado, organização criminosa e maus-tratos a animais.
A plataforma Zangi informou manter contato com autoridades brasileiras desde 2022, porém disse não ter recebido denúncias relacionadas ao caso. A empresa afirmou que seu aplicativo é fechado para comunicação entre contatos adicionados e que não possui recursos para transmissões públicas como a do caso.
Apesar de contato feito ao Telegram, a empresa não respondeu até o momento.
