A dívida pública continuará gerando um custo enorme com juros, mesmo com os cortes recentes na taxa Selic. A redução dos juros vinculados à Selic será gradual, enquanto a parte da dívida que depende do risco fiscal seguirá pagando taxas altas para refinanciamento.
Segundo previsões do Banco Central, os juros da dívida pública devem alcançar 7,9% do PIB em 2025 e subir para 8% em 2026, começando a cair lentamente depois, mas sem voltar à média histórica de 6% durante o período até 2035.
Isso significa que, nos anos de 2026 e 2027, o governo terá que pagar cerca de R$ 1 trilhão em juros. O valor já superou essa marca no ano anterior, mesmo com ganhos extraordinários do Banco Central que reduziram um pouco as despesas financeiras.
A maior parte desse valor (88%) é do governo central, que inclui Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central, além de governos estaduais, prefeituras e empresas estatais, exceto a Petrobras.
Mais da metade da dívida está atrelada à Selic, o que torna os juros sensíveis às decisões de política monetária. Ainda assim, fatores como conflitos no Oriente Médio e alta do petróleo levaram o Banco Central a fazer cortes na Selic mais devagar do que o esperado.
Parte da dívida continuará sendo refinanciada a juros altos, mesmo com o ciclo de redução puxado pelo Banco Central a partir do maior nível das últimas duas décadas. Isso mantém o custo para rolar a dívida elevado.
O economista Ítalo Franca, do Santander, destaca que a dívida com custo médio de 12% ao ano está sendo substituída por novas captações com juros de 13,7%. Portanto, a queda do custo médio da dívida será lenta.
Ian Lima, diretor de renda fixa da Inter Asset, afirma que a taxa de juros incide sobre uma dívida que dobrou nos últimos oito anos, passando de R$ 5 trilhões para mais de R$ 10 trilhões, representando 78,7% do PIB. Mesmo com juros menores, o grande volume da dívida impede alívio significativo.
Para Luis Felipe Vital, estrategista da Warren Investimentos, o custo alto decorre tanto da Selic elevada quanto da pressão na curva de juros. Com déficit primário elevado e crescimento econômico moderado, é difícil mudar essa tendência.
Tesouro afirma que não há risco de insolvência mesmo com dívida alta
O crescimento rápido dos juros e da dívida pública nos últimos dez anos não ameaça o pagamento dos credores, segundo especialistas e o Tesouro Nacional. O país não corre risco de inadimplência, pois o arcabouço fiscal prevê ajuste para estabilizar e depois diminuir a dívida.
O Relatório de Projeções Fiscais indica que a dívida bruta pode chegar a 88,6% do PIB até 2032 e estabilizar a partir de 2029, com ligeira queda até 2035.
Com 96% da dívida pública financiada em moeda local no mercado interno, não há risco clássico de calote, mas existe a possibilidade de um ajuste inflacionário, onde a inflação reduz o valor real da dívida, facilitando seu pagamento.
O economista Tiago Sbardelotto, da XP Investimentos, acredita que o refinanciamento deve continuar normal por enquanto, mas alerta que a situação pode piorar se a dívida alcançar 120% do PIB, tornando o ajuste fiscal mais oneroso.
Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro, está mais preocupado com os efeitos negativos da dívida alta, como a redução dos recursos para o setor privado, resultando em juros mais altos para investimentos e menor crescimento econômico.
Só para este ano, o governo precisa captar R$ 1,7 trilhão para financiar a dívida, competindo com o setor privado pelos recursos disponíveis, o que encarece o crédito e limita o crescimento do país.
Ele conclui que o problema maior não é o risco de insolvência, mas os prejuízos ao crescimento provocados pela dívida elevada.
Estadão Conteúdo

