MATEUS VARGAS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O governo do presidente Lula está acelerando a liberação das canetas nacionais para tratamento de diabetes e emagrecimento, alterando o cenário da disputa no mercado farmacêutico.
Recentemente, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa que a análise dessas canetas seja priorizada, permitindo que esses medicamentos sejam aprovados antes de outros que aguardam na fila.
Essa medida pode fazer com que mais marcas cheguem ao mercado rapidamente. No entanto, parte da indústria critica a decisão, questionando a prioridade dada aos emagrecedores em detrimento de medicamentos essenciais. Já outros setores veem como positivo o aumento do acesso a remédios seguros e mais baratos.
O Ministério da Saúde esclareceu que está focado em aumentar a independência e capacidade do Brasil em produzir tecnologias de saúde. Além disso, ressaltou que a redução de preços pode facilitar a disponibilidade desses medicamentos.
“Com mais medicamentos genéricos no mercado e maior concorrência, os preços devem cair significativamente, o que pode permitir a inclusão dessas drogas no SUS”, afirmou a pasta.
A Anvisa justifica a priorização alegando risco de falta do produto, embora a fabricante Novo Nordisk conteste essa afirmação.
Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma, criticou a mudança na ordem de avaliação, afirmando que isso compromete a transparência da Anvisa e questionando por que priorizar um produto para emagrecimento em vez de remédios essenciais que salvam vidas.
Por outro lado, a PróGenéricos destacou que a alta demanda por esses produtos torna urgente a ampliação do número de marcas autorizadas pela Anvisa, reforçando que a priorização é uma medida técnica, excepcional e em benefício do interesse público.
Além do governo federal, autoridades locais como os prefeitos Eduardo Paes (Rio de Janeiro) e Rodrigo Manga (Sorocaba) planejam distribuir as canetas pela rede pública. No entanto, técnicos do SUS ainda avaliam como o medicamento pode ser incorporado nas políticas públicas, já que o alto custo é um desafio para a oferta gratuita.
O Ministério da Saúde informou que o fornecimento da caneta ao SUS poderia custar mais de R$ 8 bilhões, quantia superior ao dobro do orçamento para medicamentos básicos, como insulina. Em agosto, a Comissão Nacional de Incorporações de Tecnologias (Conitec) rejeitou propostas para incluir as canetas no SUS devido ao custo.
No início de agosto, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou os novos medicamentos nacionais à base de liraglutida lançados pela EMS e comemorou a redução de preço para a população. Essa declaração gerou debate, já que produtos controlados têm restrições quanto à propaganda e distribuição de amostras.
O ministério afirmou que as declarações de Padilha refletem o incentivo à indústria nacional e não configuram propaganda dos medicamentos.
A associação Interfarma, que representa farmacêuticas internacionais, discordou da priorização, afirmando que não há base regulatória para essa medida e que ela pode gerar insegurança jurídica e atrasar análises de outros produtos prioritários.
Laboratórios públicos também têm interesse nesse mercado bilionário. Em agosto, EMS e Fiocruz firmaram acordo para transferir tecnologia de produção da liraglutida e semaglutida para a fundação. Entretanto, outros laboratórios públicos tiveram pedidos negados para parcerias de desenvolvimento produtivo com empresas privadas.
A EMS informou que analisa, junto a parceiros públicos, maneiras de disponibilizar as canetas no SUS e ressaltou que elas representam uma ferramenta inovadora e eficaz para prevenção e cuidado em políticas públicas. A empresa não comentou a decisão da Anvisa de antecipar a análise dos produtos nacionais.
Mercado bilionário
As canetas em questão são baseadas no hormônio GLP-1, que ajuda a controlar glicose no sangue e a sensação de saciedade. As marcas líderes no mercado são a semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk) e a tirzepatida (Mounjaro, da Lilly).
Dados da Anvisa indicam que produtos com semaglutida foram os segundos que mais faturaram na indústria farmacêutica brasileira em 2024, com mais de R$ 1 bilhão em vendas.
A Novo Nordisk tenta estender a duração da patente da semaglutida, que vence em março de 2026, enquanto empresas como EMS, Biomm e Hypera Pharma se preparam para lançar concorrentes.
A EMS foi pioneira no país a obter aprovação da Anvisa para produtos à base de liraglutida, fabricando as canetas em uma unidade que recebeu investimentos do BNDES durante os governos Bolsonaro e Lula.