Italo Nogueira
Rio de Janeiro, RJ (FolhaPress)
O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), afastou no final do ano passado um dos delegados responsáveis por uma investigação da Polícia Civil que encontrou suspeitas envolvendo o juiz federal Macário Júdice no estado.
Outros policiais que participavam da investigação também foram transferidos dentro da corporação. Essas mudanças ocorreram logo depois da finalização do relatório que apontou o indiciamento de um empresário, cujo telefone teve conversas suspeitas com o magistrado.
O secretário de Segurança do Espírito Santo, Leonardo Damasceno, declarou que nem ele nem o governador tinham conhecimento das conversas envolvendo o juiz. Ele explicou que as exonerações aconteceram devido a conflitos internos entre parte da equipe que trabalhou no inquérito e o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda.
A relação entre Casagrande e Macário Júdice está sob investigação da Polícia Federal, que solicitou abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal. A PF encontrou em outra apuração conversas no celular do juiz que podem indicar troca de favores ilegais entre eles.
As investigações da PF sobre Macário relacionadas ao Rio de Janeiro, onde ele atuava no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, resultaram em sua prisão preventiva. Ele é suspeito de vazar informações de investigação ao ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União).
Em nota, o governador afirmou que o contato com o juiz foi sempre “institucional e republicano”. A reportagem tentou contato com o advogado Fernando Fernandes, defensor de Macário, sem retorno.
As conversas suspeitas de Macário foram encontradas pela Polícia Civil durante a Operação Baest, iniciada em maio de 2025 para combater o suposto braço financeiro da facção Primeiro Comando de Vitória.
Um dos investigados é o empresário Adilson Ferreira, cujo celular continha mensagens indicativas da participação do juiz em processos licitatórios na administração de Casagrande.
O relatório final da Operação Baest foi concluído em setembro de 2025, indicando Adilson Ferreira como suspeito de lavagem de dinheiro. Após a conclusão, quatro delegados que assinaram o documento foram afastados.
O delegado-geral José Darcy Arruda transferiu o delegado Alan Moreno de Andrade do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat). Em outubro, José Lopes Pereira deixou a coordenação do Ciat, e em dezembro, o delegado Ricardo de Almeida Soares foi transferido para o Departamento de Narcóticos.
Renato Casagrande exonerou também, em outubro, o delegado Romualdo Gianordoli Neto do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança. Ele chegou a assumir cargo de assessor, mas foi desligado em dezembro.
Após sua saída, Romualdo declarou que foi afastado devido ao avanço da Operação Baest sobre um empresário da Serra, referindo-se a Adilson Ferreira.
Ele afirmou que “essa pessoa tem contato com diversas autoridades e pessoas ligadas ao governo e à Polícia Civil, infelizmente bastante afetada”, em suas redes sociais.
Romualdo diz que sua exoneração aconteceu logo após uma reunião na Secretaria de Segurança sobre a Operação Baest e que outros três policiais da investigação também foram removidos.
Demissão por conflitos e política, diz secretário
Leonardo Damasceno disse à Folha que duas exonerações da equipe ocorreram por conflitos com o delegado-geral e negou relação com as conversas suspeitas do juiz e do empresário. Ele afirmou não ter conhecimento dessas evidências, assim como o governador.
Sobre o delegado Romualdo, explicou que o afastamento se deu por desgaste institucional e uma investigação interna por apropriação indevida de documentos da Polícia Civil.
Ele explicou que Romualdo teria trazido documentos da polícia para a secretaria, causando um conflito interno. Por isso foi dispensado daquela função. Além disso, Romualdo iniciou atuação política junto ao Movimento Brasil Livre (MBL), o que gerou nova exoneração.
Romualdo nega apropriação indevida e afirma que as investigações contra ele são motivadas por causa da Operação Baest. Ele também afirmou não estar filiado a partido político e ainda não decidiu candidatar-se a cargo eletivo.
O secretário também comentou a troca do delegado Alan Moreno por perda de confiança e esclareceu que José Lopes Pereira, delegado-geral adjunto, não foi prejudicado e tem papel relevante na PF.
Ricardo Soares foi transferido para o Departamento de Narcóticos, cargo de igual importância ao anterior em homicídios.
A defesa de Adilson Ferreira, representada pelo advogado Douglas Luz, classificou as acusações como infundadas e motivadas por interesses políticos e autopromoção. Segundo ele, o Ministério Público ainda não concorda com as acusações do relatório e não houve denúncia formal.
O advogado afirmou ainda que as conversas encontradas não indicam qualquer ato ilícito e que o envio dos diálogos à Polícia Federal foi uma medida de precaução.
Entenda o caso
Principais envolvidos:
- Renato Casagrande: Governador do Espírito Santo
- Romualdo Gianordoli: ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança
- Macário Júdice: juiz federal do Tribunal Regional Federal da 2ª Região
- Adilson Ferreira: empresário investigado na Operação Baest
Principais fatos:
- Maio 2025: Polícia Civil do ES inicia Operação Baest contra o braço financeiro do tráfico; empresário Adilson Ferreira é um dos alvos
- Setembro 2025: Relatório final indica indiciamento de Adilson Ferreira
- Outubro 2025: Romualdo Gianordoli é exonerado por Renato Casagrande
- Janeiro 2026: Ministério Público do ES solicita compartilhamento com PF de diálogos suspeitos entre Macário Júdice e Adilson Ferreira. PF pede inquérito sobre a relação entre Casagrande e Macário
Outro lado
O secretário Leonardo Damasceno afirmou que ele e o governador não tinham conhecimento das conversas entre o empresário e o juiz. Disse também que a exoneração de Romualdo ocorreu por desgaste com a Polícia Civil e início de atuação política.

