DANIELE MADUREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A antiga diretoria da Americanas teria cometido fraudes contábeis, criando lucros falsos em seus balanços durante vários anos. Esse caso se tornou o maior escândalo empresarial do Brasil em 11 de janeiro de 2023, quando o então presidente da empresa, Sérgio Rial, anunciou sua saída e revelou uma inconsistência contábil de cerca de R$ 20 bilhões.
Poucos dias depois, em 19 de janeiro, a Americanas entrou com pedido de recuperação judicial. Naquele momento, a empresa tinha apenas R$ 800 milhões disponíveis — valor que caiu para R$ 250 milhões após bancos bloquearem recebíveis — e uma dívida de aproximadamente R$ 43 bilhões com 16,3 mil credores. Esse foi o quarto maior pedido de recuperação judicial na história do Brasil.
Um comunicado oficial divulgado cinco meses após a saída de Sérgio Rial mostrou que o lucro fictício somava R$ 25,3 bilhões. A empresa apontou que as fraudes incluíam valores de R$ 21,7 bilhões, R$ 18,4 bilhões, R$ 2,2 bilhões e R$ 3,6 bilhões.
Essas manipulações foram feitas para apresentar uma situação financeira saudável da Americanas, fundada em 1929 em Niterói (RJ) por imigrantes americanos. Nos anos 1980, a empresa passou a ser controlada por três empresários brasileiros: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Eles mantiveram a maior parte das ações até 2021, quando houve uma mudança societária, reduzindo sua participação de 53,3% para 29,2%. Os três continuam como principais acionistas.
Com o aumento dos juros, as fraudes surgiram como forma de obter financiamentos junto a bancos e ao governo para manter o funcionamento da empresa.
Como funcionavam as fraudes
O que é a contabilidade?
A contabilidade é responsável por organizar e registrar todas as movimentações financeiras e econômicas da empresa. Ela divide os valores em dois grupos: ativos (bens e direitos que a empresa possui, como imóveis e contas a receber) e passivos (obrigações e dívidas da empresa, como salários e impostos).
Analistas usam esses dados para avaliar a saúde financeira das empresas, ajudando investidores e credores a tomar decisões.
Quando uma empresa falsifica seu balanço, ela parece estar em melhor situação financeira do que realmente está.
O lucro líquido – o que sobra depois de pagar todas as despesas – é o indicador mais importante para esses estudos.
Onde estavam as fraudes da Americanas?
Em janeiro de 2023, a Americanas informou que as fraudes aconteceram principalmente na parte de passivos, onde foram criados créditos falsos, chamados “Contratos de Verba Cooperada (VCP)”, para diminuir artificialmente o valor que a empresa deveria pagar a fornecedores.
Além disso, a Americanas usou um método chamado “operação de risco sacado”, onde um banco antecipava o pagamento aos fornecedores e depois cobrava juros da empresa, transformando a dívida de fornecedores em dívida com bancos.
Com o aumento dos juros, a Americanas passou a usar ainda mais esse tipo de operação para ganhar prazo e mais fôlego financeiro.
Por que a Americanas usava tanto o risco sacado?
André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners, explica que apesar do crescimento das vendas, a empresa não gerava caixa suficiente e precisava desse recurso para manter as operações.
Assim, a empresa estendia os prazos para pagar os bancos que antecipavam dinheiro aos fornecedores, conseguindo assim mais tempo para pagar suas dívidas.
Exemplo: o varejo compra algo por R$ 10 com prazo para pagar em 60 dias. O fornecedor quer receber antes e vende essa dívida para o banco por R$ 9. O banco então cobra R$ 11 da Americanas dentro de 120 dias, garantindo assim lucro pelo serviço.
Qual era a fraude na contabilidade?
Normalmente, quando a empresa deve a um fornecedor, essa dívida aparece como “contas a pagar”. Quando o banco antecipa o pagamento e a empresa assume dívida com ele, essa passa a ser uma “dívida financeira”.
A Americanas mantinha esses valores erradamente classificados como “contas a pagar”, o que escondia a verdadeira natureza da dívida e criava uma impressão falsa nos balanços.
Quando a empresa pagava ao banco a taxa pela operação, parecia que estava ainda pagando fornecedores, o que confundia a análise dos números.
Manipulação no balanço
Esses foram os valores das manipulações:
- Contratos de verba de propaganda cooperada (VCP): R$ 21,7 bilhões
- Operações de financiamento de compras (risco sacado): R$ 18,4 bilhões
- Operações de financiamento de capital de giro: R$ 2,2 bilhões
- Descontos fictícios em juros sobre operações financeiras: R$ 3,6 bilhões
Os contratos de VCP
Os contratos de VCP são acordos entre varejista e fornecedor em que o fornecedor oferece descontos em troca de participação em publicidade da empresa. Porém, na Americanas esses contratos eram falsos, o desconto nunca acontecia.
Isso ajudava a equilibrar a conta de fornecedores no balanço, que crescia demais por causa das operações de risco sacado listadas como contas a pagar.
Especialistas sempre conferem se os valores das contas fazem sentido quando comparados com prazos de pagamento, volume de estoque e vendas, por exemplo.
A Americanas tentava esconder o crescimento exagerado da conta de fornecedores inventando descontos falsos, para abrir espaço para novas dívidas decorrentes das operações de risco sacado.
André Pimentel afirma que o objetivo era conseguir dinheiro para resolver problemas de caixa, não apenas aumentar lucros.
Dados da Americanas
- Receita líquida prevista para 2025: R$ 12,3 bilhões
- Fundação: 1929
- Sede: Rio de Janeiro
- Funcionários: 23.988
- Lojas: 1.452, distribuídas por todo o Brasil e Distrito Federal
- Centros de distribuição: Seropédica (RJ), Uberlândia (MG), Itapevi (SP), Benevides (PA), Cabo de Santo Agostinho (PE), Simões Filho (BA), São José dos Pinhais (PR) e Gravataí (RS)
- Principais concorrentes: supermercados, lojas de cosméticos, lojas de doces
