15.5 C
Brasília
sexta-feira, 26/06/2026

Fraude na Americanas: o maior escândalo contábil do Brasil

Brasília
nuvens quebradas
15.5 ° C
15.5 °
15.5 °
67 %
4kmh
72 %
sex
25 °
sáb
26 °
dom
25 °
seg
26 °
ter
26 °

Em Brasília

DANIELE MADUREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A antiga diretoria da Americanas teria cometido fraudes contábeis, criando lucros falsos em seus balanços durante vários anos. Esse caso se tornou o maior escândalo empresarial do Brasil em 11 de janeiro de 2023, quando o então presidente da empresa, Sérgio Rial, anunciou sua saída e revelou uma inconsistência contábil de cerca de R$ 20 bilhões.

Poucos dias depois, em 19 de janeiro, a Americanas entrou com pedido de recuperação judicial. Naquele momento, a empresa tinha apenas R$ 800 milhões disponíveis — valor que caiu para R$ 250 milhões após bancos bloquearem recebíveis — e uma dívida de aproximadamente R$ 43 bilhões com 16,3 mil credores. Esse foi o quarto maior pedido de recuperação judicial na história do Brasil.

Um comunicado oficial divulgado cinco meses após a saída de Sérgio Rial mostrou que o lucro fictício somava R$ 25,3 bilhões. A empresa apontou que as fraudes incluíam valores de R$ 21,7 bilhões, R$ 18,4 bilhões, R$ 2,2 bilhões e R$ 3,6 bilhões.

Essas manipulações foram feitas para apresentar uma situação financeira saudável da Americanas, fundada em 1929 em Niterói (RJ) por imigrantes americanos. Nos anos 1980, a empresa passou a ser controlada por três empresários brasileiros: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Eles mantiveram a maior parte das ações até 2021, quando houve uma mudança societária, reduzindo sua participação de 53,3% para 29,2%. Os três continuam como principais acionistas.

Com o aumento dos juros, as fraudes surgiram como forma de obter financiamentos junto a bancos e ao governo para manter o funcionamento da empresa.

Como funcionavam as fraudes

O que é a contabilidade?

A contabilidade é responsável por organizar e registrar todas as movimentações financeiras e econômicas da empresa. Ela divide os valores em dois grupos: ativos (bens e direitos que a empresa possui, como imóveis e contas a receber) e passivos (obrigações e dívidas da empresa, como salários e impostos).

Analistas usam esses dados para avaliar a saúde financeira das empresas, ajudando investidores e credores a tomar decisões.

Quando uma empresa falsifica seu balanço, ela parece estar em melhor situação financeira do que realmente está.

O lucro líquido – o que sobra depois de pagar todas as despesas – é o indicador mais importante para esses estudos.

Onde estavam as fraudes da Americanas?

Em janeiro de 2023, a Americanas informou que as fraudes aconteceram principalmente na parte de passivos, onde foram criados créditos falsos, chamados “Contratos de Verba Cooperada (VCP)”, para diminuir artificialmente o valor que a empresa deveria pagar a fornecedores.

Além disso, a Americanas usou um método chamado “operação de risco sacado”, onde um banco antecipava o pagamento aos fornecedores e depois cobrava juros da empresa, transformando a dívida de fornecedores em dívida com bancos.

Com o aumento dos juros, a Americanas passou a usar ainda mais esse tipo de operação para ganhar prazo e mais fôlego financeiro.

Por que a Americanas usava tanto o risco sacado?

André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners, explica que apesar do crescimento das vendas, a empresa não gerava caixa suficiente e precisava desse recurso para manter as operações.

Assim, a empresa estendia os prazos para pagar os bancos que antecipavam dinheiro aos fornecedores, conseguindo assim mais tempo para pagar suas dívidas.

Exemplo: o varejo compra algo por R$ 10 com prazo para pagar em 60 dias. O fornecedor quer receber antes e vende essa dívida para o banco por R$ 9. O banco então cobra R$ 11 da Americanas dentro de 120 dias, garantindo assim lucro pelo serviço.

Qual era a fraude na contabilidade?

Normalmente, quando a empresa deve a um fornecedor, essa dívida aparece como “contas a pagar”. Quando o banco antecipa o pagamento e a empresa assume dívida com ele, essa passa a ser uma “dívida financeira”.

A Americanas mantinha esses valores erradamente classificados como “contas a pagar”, o que escondia a verdadeira natureza da dívida e criava uma impressão falsa nos balanços.

Quando a empresa pagava ao banco a taxa pela operação, parecia que estava ainda pagando fornecedores, o que confundia a análise dos números.

Manipulação no balanço

Esses foram os valores das manipulações:

  • Contratos de verba de propaganda cooperada (VCP): R$ 21,7 bilhões
  • Operações de financiamento de compras (risco sacado): R$ 18,4 bilhões
  • Operações de financiamento de capital de giro: R$ 2,2 bilhões
  • Descontos fictícios em juros sobre operações financeiras: R$ 3,6 bilhões

Os contratos de VCP

Os contratos de VCP são acordos entre varejista e fornecedor em que o fornecedor oferece descontos em troca de participação em publicidade da empresa. Porém, na Americanas esses contratos eram falsos, o desconto nunca acontecia.

Isso ajudava a equilibrar a conta de fornecedores no balanço, que crescia demais por causa das operações de risco sacado listadas como contas a pagar.

Especialistas sempre conferem se os valores das contas fazem sentido quando comparados com prazos de pagamento, volume de estoque e vendas, por exemplo.

A Americanas tentava esconder o crescimento exagerado da conta de fornecedores inventando descontos falsos, para abrir espaço para novas dívidas decorrentes das operações de risco sacado.

André Pimentel afirma que o objetivo era conseguir dinheiro para resolver problemas de caixa, não apenas aumentar lucros.

Dados da Americanas

  • Receita líquida prevista para 2025: R$ 12,3 bilhões
  • Fundação: 1929
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Funcionários: 23.988
  • Lojas: 1.452, distribuídas por todo o Brasil e Distrito Federal
  • Centros de distribuição: Seropédica (RJ), Uberlândia (MG), Itapevi (SP), Benevides (PA), Cabo de Santo Agostinho (PE), Simões Filho (BA), São José dos Pinhais (PR) e Gravataí (RS)
  • Principais concorrentes: supermercados, lojas de cosméticos, lojas de doces

Veja Também