O economista Tony Volpon acredita que transferir a fiscalização dos fundos de investimento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o Banco Central (BC) só funciona se o BC tiver independência financeira para contratar mais profissionais e assumir essa nova responsabilidade. Ele lembra que o governo atual é contra essa autonomia do BC, e considera essa proposta uma forma de desviar a atenção do problema real.
Volpon, que foi diretor do BC entre 2015 e 2016, chama a ideia de ‘idiotice total’ e diz que ela serve para tirar o foco das falhas da CVM na fiscalização.
Segundo ele, se o Brasil quiser seguir o exemplo da Europa, onde o BC cuida de toda a regulação do mercado financeiro, será necessário ajustar o orçamento e a equipe para fazer a transferência dos funcionários e dados da CVM para o BC.
Volpon ressalta que essa mudança só vale a pena se houver corte de pessoal na CVM, recursos para o BC e maior flexibilidade orçamentária para contratar pessoas. Caso contrário, ele acha que é apenas uma ideia sem proposta concreta.
Problemas financeiros e de equipe dificultam a atuação do BC, que tem perdido talentos para o setor privado, segundo Volpon.
Ele acrescenta que tanto o modelo europeu, com tudo concentrado no BC, quanto o modelo em que as funções são divididas entre órgãos como a CVM e a SEC dos EUA, podem funcionar bem, desde que haja boa gestão e recursos suficientes.
O problema no Brasil está nas falhas da CVM, e Volpon questiona quem está sendo contratado para trabalhar lá.
Para ele, essas falhas justificam a transferência das funções para o BC, que é visto como mais independente. No entanto, se essa transferência for feita, talvez todas as funções da CVM deveriam passar para o BC.
O risco é que o BC ganhe mais responsabilidades sem capacidade para cumpri-las, já que o governo não quer dar independência orçamentária ao Banco Central.
Volpon conclui que, se o BC é realmente melhor, por que não acabar com a CVM e colocar tudo no BC? E questiona se a mudança só está sendo pensada por causa de casos como o Banco Master e a Reag, destacando a necessidade de entender as falhas da CVM.
Estadão Conteúdo.
