ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ofereceu um empréstimo temporário para ajudar o banco Master a pagar os Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Porém, esse apoio tinha uma condição: se a Polícia Federal (PF) ou o Ministério Público Federal (MPF) começassem uma investigação contra o banco, a ajuda seria cortada.
Essa regra foi criada depois que uma reportagem mostrou que a PF iniciou uma investigação no final de setembro. A apuração se baseava em documentos que motivaram o Banco Central a rejeitar a venda do banco Master para o Banco de Brasília (BRB), pois havia suspeitas de fraudes na venda das carteiras de crédito.
A cláusula de proteção foi incluída na renovação do empréstimo de curto prazo, que estava sendo negociada desde maio do ano anterior.
O banco Master não quis comentar o caso, enquanto o FGC disse que não comenta sobre suas empresas associadas.
A regra valia não só para o banco Master, mas também para outras empresas do grupo ou fiadores relacionados. Ela previa o fim da ajuda se houvesse uma investigação que pudesse contra a concessão do empréstimo.
O apoio inicial do FGC foi aprovado em maio, logo após o BRB anunciar interesse na compra do banco Master.
O Master argumentou que estava enfrentando uma crise grave para pagar seus compromissos financeiros.
No contrato assinado, o banco admitiu formalmente que estava com falta de dinheiro disponível, situação chamada tecnicamente de falta de liquidez.
O Master pediu ajuda ao FGC e recebeu inicialmente R$ 4,3 bilhões.
Essa admissão e a cláusula de interrupção da ajuda descrita desmontam a ideia de que, sem a intervenção do Banco Central, o banco Master poderia continuar pagando suas dívidas. A liquidação do banco foi anunciada pelo Banco Central em 18 de novembro.
A investigação da Polícia Federal era secreta e só se tornou pública com a prisão de Daniel Vorcaro em 17 de novembro. Isso teria acionado a cláusula e parado o apoio financeiro. Mas como o Banco Central decretou a liquidação, a cláusula não precisou ser aplicada.
Para os investigadores, sem a liquidação, o banco teria ficado sem recursos e acabado por fechar por não poder pagar suas dívidas.
O banco estava sobrevivendo só com o suporte do FGC, que é um fundo financiado por bancos para proteger investidores em caso de quebra de alguma instituição financeira. Desde o início, outros bancos foram contra esse suporte porque previam um grande prejuízo para o fundo, o que se confirmou.
A defesa de Vorcaro afirma que a Polícia Federal agiu em conjunto com o Banco Central para prender o banqueiro e dificultar a venda do banco para o grupo Fictor Holding Financeira. Eles dizem que a liquidação foi feita de forma apressada.
Nos processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Contas da União (TCU), a decisão do Banco Central também é questionada pela mesma razão.
Vorcaro havia anunciado que um grupo de investidores árabes e a Fictor investiriam R$ 3 bilhões para salvar o banco.
O relator do caso no TCU, ministro Jhonatan de Jesus, pergunta se a proposta da Fictor foi avaliada corretamente antes de ser rejeitada considerando o contexto sensível dos fatos.
Investigadores contestam essa versão e dizem que a oferta da Fictor não tinha condições reais de cobrir as dívidas do banco, especialmente após o fim da ajuda do FGC.
A oferta da Fictor foi vista pela PF e MPF como uma tentativa de disfarçar as ações do Vorcaro, que foi preso por crimes contra o sistema financeiro e fraude de R$ 12,2 bilhões na venda de carteiras de crédito falsas ao BRB.
Em outra denúncia, o Banco Central reportou ao MPF suspeitas de irregularidades envolvendo R$ 11,5 bilhões em fundos ligados à gestora Reag, com participação do banco Master.
Por lei, o Banco Central deve comunicar ao MPF qualquer indício de crime encontrado, e essa comunicação pode acontecer a qualquer momento.
Há também suspeitas de que a defesa de Vorcaro esteja colaborando com o TCU para pressionar o Banco Central.
