DIANA TOMAZELLI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Apenas dez dias antes do prazo final definido pelo governo para apoiar os Correios, Dario Durigan, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, liderou uma reunião importante para concretizar um empréstimo de R$ 12 bilhões, firmado pela empresa no fim de 2025.
No dia 10 de dezembro, Durigan e o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, receberam na sede da Fazenda em Brasília o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, vice-presidentes da Caixa representando o presidente, Carlos Vieira, e executivos do Itaú Unibanco participando por videoconferência. Esse encontro não estava na agenda pública da pasta.
Durigan pediu aos principais bancos privados que analisassem a proposta de participação junto ao Banco do Brasil e à Caixa, ambos controlados pelo governo federal. Ele destacou a necessidade de agir rapidamente, já que não haveria prorrogação das negociações.
Participantes relataram que o objetivo da reunião foi transmitir a urgência de salvar uma empresa estratégica para o governo, além de explicar que o Tesouro aceitaria garantir o empréstimo considerando o custo como aceitável.
O governo e os Correios enfrentavam dificuldades para aprovar a operação após duas propostas iniciais serem rejeitadas por taxas de juros muito altas. A preocupação era garantir recursos para pagar o 13º salário dos funcionários até 20 de dezembro, data considerada crítica pelo Executivo.
Na reunião, o Itaú sugeriu chamar o Santander para completar o sindicato de bancos que concederiam o empréstimo. Também ficou definido que o valor seria de R$ 12 bilhões, abaixo do pedido inicial de R$ 20 bilhões feito pela empresa. Antes, os Correios já haviam sinalizado que poderiam fracionar o valor para reduzir custos e atrair mais instituições financeiras.
Mesmo antes da formalização da proposta, o governo demonstrou confiança na aceitação dos bancos.
O Banco do Brasil já havia confirmado sua participação, com sua presidente, Tarciana Medeiros, mantendo reuniões frequentes com a Casa Civil e a Fazenda. Ao lado de BTG Pactual, Citibank, ABC Brasil e Safra, o BB ofereceu um empréstimo com custo de 136% do CDI, acima do limite de 120% estabelecido pelo Tesouro.
Dois dias após a reunião na Fazenda, os cinco maiores bancos (Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander) propuseram o empréstimo a uma taxa total de 115% do CDI. A divisão do valor ficou em R$ 3 bilhões para Banco do Brasil, Caixa e Bradesco e R$ 1,5 bilhão para Itaú e Santander.
Segundo um membro da equipe econômica, a reunião foi marcada após interesse dos bancos privados e pedido da empresa para que o governo enfatizasse a urgência da operação.
Outra parte da articulação foi atribuída à presidente do Banco do Brasil, que tem relações próximas com o Bradesco, parceiro em empresas como a Livelo, programa de recompensas.
O Banco do Brasil afirmou que não participou da aproximação entre bancos, que foi coordenada pela Fazenda.
Bradesco, Itaú, Caixa e Santander não responderam aos pedidos de comentários.
O contrato foi assinado em 26 de dezembro, alguns dias além do prazo inicial, o que fez a empresa atrasar outros pagamentos para acertar o 13º salário em dia. Deste valor, R$ 10 bilhões foram liberados aos Correios ainda em 2025, e o restante até o fim de janeiro de 2026.
Esse acordo encerrou um processo complexo, mas não resolve completamente a crise da empresa, que ainda precisa de mais R$ 8 bilhões para seu plano de reestruturação.
Uma das cláusulas do contrato prevê um aporte de R$ 6 bilhões da União até 2027, compromisso confirmado pelo Tesouro Nacional. Isso significa que o Tesouro terá que destinar esse valor, seja de uma vez ou em parcelas, independentemente de novas operações de crédito.
Na reunião, o governo indicou que o aporte será feito em 2026 ou 2027 e os bancos pediram essa garantia contratualizada para compartilhar o risco da operação. O governo concordou sem objeções.
A PGFN declarou que a garantia oferecida pela União está de acordo com a legislação vigente.
Além da negociação financeira, o Palácio do Planalto agiu para proteger politicamente o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon. A empresa, tradicionalmente marcada por indicações políticas, recebeu ordens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para suspender novas nomeações e permitir que a atual gestão realize as mudanças necessárias.
Essa orientação diminuiu pressões políticas, embora indicações anteriores permaneçam em seus cargos. A reestruturação pode gerar novas pressões.
O plano inclui um novo programa de demissão voluntária para desligar 15 mil funcionários nos próximos dois anos, venda de imóveis, revisão de cargos e salários e ajustes no plano de saúde, entre outras medidas. Os benefícios são esperados a partir deste ano, com impacto total até 2029.
A crise dos Correios tem raízes antigas, com falta de investimentos, queima de caixa e gestão política. Desde 2017, a empresa apresentou liquidez corrente negativa, indicando que suas dívidas de curto prazo eram maiores que seus ativos disponíveis.
Apesar disso, teve lucro entre 2017 e 2021 devido ao crescimento do comércio eletrônico, mas a partir de 2022 acumulou prejuízos que pioraram durante o governo Lula. A administração anterior continuou aumentando despesas, enquanto a receita diminuiu devido à perda relacionada à cobrança de impostos sobre pequenas encomendas internacionais.
CRONOLOGIA DO SOCORRO AOS CORREIOS EM 2025
- 29 de dezembro: divulgação do plano de reestruturação com medidas para cortar despesas e aumentar receitas
- 16 de junho: diretoria anterior alerta o governo sobre a necessidade de aporte financeiro; governo nega espaço para recursos
- 4 de julho: presidente dos Correios entrega carta de demissão, mas permanece até a nomeação de substituto
- 16 de setembro: governo indica Emmanoel Schmidt Rondon como novo presidente da empresa, que assume em 26 de setembro
- 9 de outubro: ministros e representantes discutem socorro via operação de crédito com garantia da União
- 15 de outubro: diretoria confirma negociação de empréstimo após revelação pública da necessidade de R$ 20 bilhões
- 12 de novembro: decisão de fracionar contratação para reduzir juros e aumentar concorrência bancária
- Meados de novembro: CGPar avalia decreto para contemplar aporte ou garantia da União
- 28 de novembro: envio de plano formal de reestruturação ao Ministério da Fazenda e TCU
- 29 de novembro: conselho aprova contrato após nova proposta do sindicato bancário
- 2 de dezembro: Ministério da Fazenda suspende garantia devido a custos elevados
- Entre 2 e 5 de dezembro: governo tenta retorno da Caixa ao sindicato bancário e discute aporte
- 8 de dezembro: retomada das reuniões para definição do socorro; ministro Rui Costa se reúne com Fazenda e Banco do Brasil
- 9 de dezembro: governo descarta aporte e publica decreto para garantia ao empréstimo; BTG sai das negociações; Bradesco entra no sindicato
- 10 de dezembro: reunião decisiva com bancos para confirmar participação e redução do valor para R$ 12 bilhões; plano de reestruturação aprovado
- 12 de dezembro: proposta formalizada pelos cinco bancos com taxa de juros dentro do limite
- 16 de dezembro: contrato enviado para análise no Tesouro
- 18 de dezembro: Tesouro analisa e concede garantia
- 26 de dezembro: assinatura do contrato com liberação parcial dos recursos
