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domingo, 05/04/2026

Facebook investiga vício em suas redes sociais com base em casos no Brasil desde 2019

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PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A empresa que hoje se chama Meta, anteriormente conhecida como Facebook, que também inclui o Instagram e o WhatsApp, vinha analisando casos de uso excessivo e compulsivo de suas redes sociais desde 2019, segundo documentos internos obtidos pela Justiça dos Estados Unidos.

A companhia monitorava usuários do Brasil, Estados Unidos e Índia que relataram dificuldades no controle do tempo passado nas redes sociais. Um jovem brasileiro de 24 anos na época, participante do estudo do Facebook em 2018, relatou: “O tempo que passo na plataforma não é saudável, é como um vício. Abrir o aplicativo a cada meia hora não é bom”.

Este material foi fundamental para a decisão de um júri americano que, no mês passado, considerou a Meta e o YouTube responsáveis pelo uso viciante de suas tecnologias e pelos danos causados à saúde mental de jovens e adolescentes. Esse foi o primeiro de vários julgamentos semelhantes previstos para este ano nos EUA.

Em resposta, a Meta afirmou que discorda do veredito e está avaliando suas opções legais. A empresa e o YouTube planejam recorrer da decisão. Snapchat e TikTok foram mencionados inicialmente nesse processo e chegaram a acordos antes do julgamento, mas os valores não foram divulgados.

O julgamento se baseou em uma petição de uma jovem de 20 anos da Califórnia, conhecida como K.G.M. Ela criou uma conta no YouTube aos 8 anos e entrou no Instagram aos 9 anos.

As empresas foram obrigadas a entregar documentos e comunicações internas referentes a mais de uma década. Esse material mostrou aos jurados que essas companhias sabiam dos riscos e agiram com negligência.

Em um relatório interno, o então Facebook definia o “uso problemático” da plataforma como a “falta de controle” e o “sentimento de culpa” pelo uso excessivo. O documento destacou que as melhores referências científicas independentes indicam que o impacto do Facebook no bem-estar das pessoas é negativo.

Os efeitos do uso problemático incluem perda de produtividade, distúrbios do sono, problemas nos relacionamentos, negligência com os filhos, riscos à segurança e compras impulsivas que causam arrependimento. Um homem de 32 anos relatou: “Às vezes, não dou a atenção devida ao meu filho. Eu adoro brincar com ele, mas o telefone às vezes me distrai”.

Os autores do estudo concluíram que um usuário viciado não é necessariamente aquele que passa muitas horas no Facebook, mas sim alguém que acessa frequentemente a plataforma em relação ao tempo que permanece nela, um sinal de compulsão pelo aplicativo.

Os documentos incluem também e-mails trocados por diretores da Meta em 2016, quando a empresa começou a focar no crescimento entre adolescentes, especialmente nos EUA. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, teria decidido que a prioridade zero da empresa era crescer nesse público, segundo Guy Rosen, então vice-presidente de segurança.

A Meta identificou que o uso entre adolescentes era baixo nos EUA, especialmente entre usuários de iOS, enquanto na União Europeia estava dentro do esperado, mas sob ameaça do Snapchat. No Brasil e outros países, os números eram positivos.

O plano do Facebook, de acordo com Rosen, era ajudar os jovens a aumentar seu círculo de amigos da mesma idade e priorizar as publicações de amigos no feed de notícias, em vez de conteúdo de familiares.

A empresa também buscava crescer nas escolas de ensino médio com alta presença de iPhones, considerando o uso de smartphones Android como indicador socioeconômico, relacionado a baixa renda e comunidades latinas nos EUA.

Quanto ao YouTube, durante o interrogatório da diretora de produto Tanaya Kasavana, em 2019 foi apresentado um documento interno que dizia: “O YouTube não seria mais uma rede social se removêssemos todas as ferramentas sociais”. Ela afirmou que, comparado a TikTok, Snapchat e Meta, o YouTube não possuía um grafo social, que é a base do argumento da empresa.

O processo ainda inclui documentos entregues pelas defesas da Meta e do Google, incluindo um laudo psicológico da jovem K.G.M., que indicava problemas de saúde mental ligados a abusos familiares.

Em sua defesa, a Meta ressaltou que está em jogo a liberdade de expressão online, mencionando a Seção 230 e a Primeira Emenda como proteções importantes que poderiam ser afetadas pelos casos.

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