Vinicius Sassine
FolhaPress
O Exército brasileiro se envolveu em um tiroteio numa área protegida da Amazônia, perto da fronteira com a Colômbia. Foram usados 52 tiros de fuzil e 2 de revólver, segundo relatos de testemunhas, lideranças e indígenas após o suposto confronto entre o 1º Pelotão Especial de Fronteira (1º PEF) e traficantes de drogas no último dia 8.
Os projéteis encontrados foram recolhidos e entregues para investigação sobre os acontecimentos na noite do dia 8, na Terra Indígena Alto Rio Negro, Amazonas. O relato ocorreu em reuniões com a presença de militares do Exército.
Logo após os disparos, um indígena do povo hupda foi achado ferido a bala nas margens do rio Papuri, segundo o Exército. No dia seguinte, outro membro dessa etnia, Sandro Barreto Andrade, de 19 anos, foi encontrado morto por moradores das comunidades próximas.
Os hupdas são um povo com contato recente com a sociedade não indígena, vivendo em áreas remotas próximas à fronteira, incluindo o lado colombiano. Eles enfrentam marginalização e buscam maior representatividade no movimento indígena.
Segundo as reuniões, quatro indígenas hupdas pescavam em duas duplas. Um grupo na foz do rio Papuri sofreu vários tiros que, conforme relatos, vieram do lado brasileiro. O outro grupo conseguiu escapar.
O Exército nega envolvimento na morte e ferimentos dos indígenas e afirma que os disparos foram uma reação legítima a um ataque sofrido vindo de embarcações na direção da Colômbia para o Brasil.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) está preparando um relatório para enviar à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e ao Ministério Público, solicitando investigação do caso.
A Funai lamentou a morte de Sandro Barreto Andrade e está prestando assistência ao povo hupda, com ações de escuta, mediação e proteção territorial. O Ministério da Saúde também lamentou o ocorrido e informou que o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro fez as comunicações necessárias.
O indígena ferido foi transferido para Manaus, onde está estável e recebendo acompanhamento médico.
Testemunhas que visitaram o local notaram marcas de balas em árvores e pedras. Indígenas criticaram a demora do Exército para retirar o corpo e o transporte lento até a comunidade Vila Fátima.
De acordo com o Exército, após denúncias de tráfico de drogas em quatro embarcações, uma operação resultou em troca de tiros na noite do dia 8, durante patrulhamento de rotina. Uma embarcação suspeita fugiu. No patrulhamento seguinte, o indígena ferido foi encontrado na margem brasileira do rio Papuri, atrás da posição da tropa na noite anterior.
O Exército diz estar trabalhando com lideranças indígenas e a Funai para esclarecer os fatos, mantendo a cooperação com as comunidades locais.
A região conhecida como Cabeça do Cachorro, no noroeste do Amazonas, abriga a fronteira com Colômbia e Venezuela e centenas de comunidades de 23 etnias, próximas a São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro.
