Brasília, 24 – A delegada da Polícia Federal Marília Ferreira de Alencar, que foi diretora de inteligência no Ministério da Justiça durante as eleições de 2022, declarou em depoimento que solicitou um estudo para identificar locais onde Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro receberam mais de 75% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais daquele ano. Contudo, ela nega que esses dados tenham sido usados pela Polícia Rodoviária Federal para realizar blitze na região Nordeste no segundo turno.
Marília Ferreira de Alencar afirmou: “Pedi dados de todos os municípios, não apenas do Nordeste, e para todos os candidatos”. Ela também destacou que nunca planejou usar o painel de dados para a Polícia Rodoviária Federal ou qualquer outra finalidade.
Em depoimento, o ex-analista de inteligência Clebson Ferreira de Paula Vieira revelou que recebeu solicitações para estudos sobre a distribuição de agentes da PRF antes do segundo turno das eleições de 2022. Segundo ele, as solicitações foram feitas diretamente por Marília Ferreira de Alencar, envolvendo análise da concentração de votos superiores a 75% para ambos candidatos, e criação de planilhas e relatórios para possíveis decisões sobre o posicionamento da PRF.
Clebson Vieira explicou que suspeitou uso político dos dados e percebeu que os pedidos tinham um viés. Em outra ocasião, relatou que Marília solicitou análise da relação entre votos em Lula e áreas controladas pelo Comando Vermelho, após o petista ter realizado campanha no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A análise não encontrou nenhuma relação conclusiva.
Um relatório do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) apontou indícios de que as blitze feitas pela PRF no segundo turno retardaram a chegada dos eleitores aos locais de votação.
Djairlon Henrique Moura, ex-diretor de operações da PRF, confirmou ter participado de uma reunião em 19 de outubro de 2022, onde teria sido discutido um policiamento direcionado para o segundo turno.
A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) inclui conversas de WhatsApp em que Marília de Alencar se refere a Anderson Torres como “isento p.. nenhuma” e menciona um ataque contra o número da urna de Bolsonaro.
Marília Ferreira de Alencar é a única mulher entre os 34 denunciados pela PGR por tentativa de golpe de Estado. Ela é acusada de usar de forma indevida a estrutura da Polícia Rodoviária Federal para dificultar o trânsito dos eleitores rumo às zonas eleitorais em regiões do Nordeste, coordenando ações que visavam manter de forma ilegítima Jair Messias Bolsonaro no poder.
Em janeiro de 2023, Marília ocupava o cargo de subsecretária de Inteligência do Distrito Federal.
Estadão Conteúdo