CONSTANÇA REZENDE E NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Uma apuração feita pelo Banco Central revelou que o ex-diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, pode ter simulado a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A suspeita é que isso tenha sido feito para esconder o recebimento de propina do Banco Master ou pessoas ligadas ao grupo.
Um documento reservado, ao qual a Folha teve acesso, mostra que o BC tem provas de que o servidor teve enriquecimento ilícito, com pelo menos R$ 2,6 milhões acima do que ele ganhava oficialmente — em fevereiro deste ano, seu salário bruto era de R$ 37.067,28, conforme Portal da Transparência.
Essa investigação aconteceu entre janeiro e março e indicou que deve ser aberto um processo disciplinar contra Souza. O caso foi enviado à Controladoria-Geral da União (CGU) e pode levar à sua expulsão se for comprovada a culpa.
A defesa dele afirmou que “não houve venda simulada, mas uma venda real da propriedade, pelo preço de mercado, para a empresa ligada a Fabiano Zettel“.
Disseram ainda que a venda foi declarada no imposto de renda e registrada em escritura, com total transparência, sem tentar mascarar qualquer pagamento ilícito ou vantagem indevida.
A defesa acredita que no processo da CGU, os princípios do contraditório e ampla defesa serão respeitados, e será comprovado que os atos do ex-diretor nunca tiveram a intenção de beneficiar o Banco Master.
Desde que operações suspeitas foram identificadas em setembro de 2024 até a liquidação do banco em novembro de 2025, vários fatos ocorreram que, quando investigados, revelarão a verdade e os responsáveis, segundo a defesa.
A defesa de Vorcaro não quis comentar. A reportagem tentou contato com a defesa de Zettel, mas não obteve resposta.
A investigação do BC foca na venda do sítio Mirante, que era propriedade de Souza e seu irmão Luís Roberto Neves de Souza. A empresa Pipe Participações, controlada por Fabiano Zettel, comprou o imóvel em Juruaia (MG).
Em depoimento, Souza contou que em 2019 recebeu uma ligação de Vorcaro pedindo informações sobre o sítio e autorizando a comunicação de uma possível venda a interessados. Zettel entrou em contato e o negócio foi fechado em janeiro de 2020.
Souza afirmou que na época não sabia da ligação familiar entre Zettel e Vorcaro, tendo descoberto só em janeiro de 2021, na escritura do imóvel.
Segundo ele, Zettel garantiu que não tinha vínculo profissional com o Banco Master nem negócios compartilhados com sua esposa.
A sindicância do BC entende que a ação de Vorcaro sugere tentativa de influência sobre o servidor e duvida que Souza desconhecesse Zettel, pessoa envolvida nas ações ligadas ao Banco Master.
Souza foi diretor de Fiscalização do BC de 2017 a 2023 e depois chefe-adjunto de Supervisão Bancária. Nessas funções, tinha grande influência sobre bancos, inclusive o Banco Master, com acesso a informações importantes.
Em seu depoimento, ele negou ter favorecido o Banco Master, afirmando ter tomado medidas contrárias aos interesses do banco e informado seu sucessor na diretoria, Ailton de Aquino, sobre problemas envolvendo o banco de Vorcaro.
A apuração interna destacou divergências nos valores da venda do sítio: nos documentos oficiais consta R$ 3 milhões, em contratos apresentados R$ 5,2 milhões, e em depoimento, Souza mencionou oferta de R$ 4,8 milhões em parcelas ao longo de cinco anos.
Souza declarou ter recebido R$ 2,4 milhões pela venda do sítio, mesmo valor recebido por seu irmão. Ele disse que usou o dinheiro para pagar dívidas, construir sua casa e comprar outros imóveis.
Após adquirir o sítio, a Pipe Participações criou a empresa Noah Empreendimentos e Participações, ligada à cafeicultura, negócio já realizado por Paulo e Luís Roberto na propriedade. O capital inicial era de R$ 100 mil, aumentado em julho de 2023 com a transferência do sítio para a Noah, no valor de R$ 3 milhões.
Zettel nunca tomou posse direta do imóvel. A compra de planos imobiliários foi adiada devido à pandemia e dificuldades em outros negócios, conforme Souza.
Em agosto de 2023, Luís Roberto passou a ser o único administrador da Noah, tomando conta do sítio.
Em 2024, a empresa começou a construir casas para revenda em Guaxupé (MG), área de interesse dos irmãos Paulo Sérgio e Luís Roberto.
A investigação concluiu que existem fortes indícios de que a venda foi uma simulação para ocultar o pagamento de propina, tentando legitimar a relação dos irmãos com Fabiano Zettel.
Souza vendeu uma casa em Guaxupé para a Noah por mais de R$ 1,5 milhão, com contrato assinado por seu irmão como representante da compradora. A sindicância considera essa operação como possível meio de transferência ilegal de dinheiro.
Souza virou arrendatário do sítio em 2025, quando seu irmão ficou doente, passando a participar do contrato com a Noah, sem consultar comissões de ética.
A investigação conclui que há evidências claras de negócios simulados para esconder propina, usando o irmão como representante ou testa de ferro.

