Cláudia Collucci
Folhapress
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), em quase dois terços dos tipos de cirurgia de câncer realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025, pelo menos 25% dos pacientes esperaram mais do que os 60 dias previstos por lei para começar o tratamento.
A análise feita pelo TCU usou dados de 2019 a 2025 da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e mostrou que o tempo de espera em 2025 foi o pior desde 2022, ano que serve como referência após o período afetado pela pandemia entre 2019 e 2021.
Apesar de mais tipos de cirurgias estarem sendo monitorados — aumentou de 12 para 30 procedimentos —, a quantidade de pacientes que esperam além do prazo legal cresceu. Em alguns casos, o tempo médio de espera já ultrapassa o limite de 60 dias, indicando que o problema é estrutural.
A auditoria avaliou também outras áreas da saúde, como cardiologia e oftalmologia, mas o câncer foi o que apresentou a situação mais crítica, com aumento contínuo no atraso das cirurgias, enquanto outras especialidades mostraram melhora.
O caso mais complicado é a cirurgia para câncer de tireoide, seguida das de próstata e mama. Por exemplo, a espera média para cirurgia de tireoide teve grandes variações nos últimos anos, chegando até a 1.121 dias em 2022 e voltando a subir para 719 dias em 2025, sem sinais claros de melhora.
Luiz Paulo Kowalski, cirurgião e professor da USP, explica que esses atrasos estão ligados ao crescimento do número de casos, má distribuição dos centros especializados e falta de recursos. Ele destaca que no sistema público as cirurgias são mais demoradas e complexas, já que os pacientes chegam em estágios avançados da doença.
Os diagnósticos de câncer de tireoide aumentaram de cerca de 9 mil em 2014 para mais de 16 mil em 2024 no Brasil. Mutirões ajudam a reduzir as filas, mas é necessário reorganizar os serviços para atender a demanda crescente.
Embora a espera média para cirurgia de próstata tenha diminuído, o tempo máximo para casos mais graves aumentou muito, chegando a mais de seis anos em alguns casos. Já a cirurgia parcial de mama sofreu atrasos nos anos da pandemia, mas não é atualmente uma das mais críticas.
Os atrasos acontecem em várias etapas do tratamento, como diagnóstico, definição do tratamento e acompanhamento, e dependem de poucos centros especializados disponíveis.
O relatório destacou ainda a desigualdade no acesso a exames de imagem, pois o Brasil tem poucos aparelhos e o acesso a esses exames é muito maior para quem tem plano de saúde do que para usuários do SUS.
Existem também diferenças regionais na assistência, e a cobertura do sistema nacional de regulação é muito baixa em estados que realizam a maior parte das cirurgias, o que pode deixar o panorama incompleto.
Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, chama atenção para a necessidade urgente de adequar os serviços às disparidades entre as regiões e garantir acesso igual para todos.
O caso de Talita da Silva Lopes, que descobriu um nódulo na mama em 2024, mas só teve diagnóstico completo quase dois anos depois devido a múltiplos atrasos, mostra a gravidade da situação e o quanto o câncer pode avançar enquanto o paciente espera.
A auditoria do TCU avaliou apenas alguns aspectos do programa governamental para reduzir filas, como cirurgias e pacotes de consulta e exames, deixando de fora outros pontos importantes como ampliação da radioterapia e reorganização do diagnóstico oncológico.
Bruno Dantas, relator do TCU, alertou para a gravidade da situação e pediu que o Ministério da Saúde publique regularmente dados sobre os tempos de espera com informações claras. O ministério afirmou que os dados ainda estão sendo organizados, mas essa justificativa foi rejeitada pelo relator.
Em entrevista, o secretário de Atenção Especializada Mozart Sales reconheceu que o câncer é um dos grandes desafios do ministério, mas disse que o governo já identificou os problemas e está mudando a forma de diagnóstico e tratamento.
Um dos entraves é que, por muito tempo, o SUS exigia que o paciente chegasse aos centros especializados já com a biópsia pronta, mas os profissionais para realizar esses exames estão justamente nesses centros, dificultando o acesso. A nova estratégia inclui oferecer esses exames próximos ao paciente para facilitar o atendimento.
Há também desigualdade na distribuição dos cirurgiões especializados, concentrados principalmente em São Paulo, enquanto outras regiões têm poucos profissionais.
Um ponto crítico é o tempo para os laudos anatomopatológicos, que atualmente leva cerca de 25 dias. O ministério está criando centros regionais para reduzir esse tempo para sete dias.
Além disso, a radioterapia é prioridade, e o governo está identificando máquinas não utilizadas e regiões com falta desse recurso, buscando integrar cuidados com transporte e hospedagem para os pacientes.
A proposta é tirar a radioterapia do limite financeiro estadual para repassar os recursos diretamente do ministério, facilitando o acesso em diferentes estados.


