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Economia

Especialistas dizem que plano de ajuste fiscal de Milei não funciona para o Brasil

Foto: Patrick T. Fallon/AFP

É consenso que o Brasil precisa ajustar suas contas, mas copiar o plano do presidente argentino Javier Milei não é adequado para nossa realidade. Especialistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado, afirmam que as políticas adotadas na Argentina não seriam eficazes aqui e podem trazer problemas.

O debate começou quando a coordenadora econômica da campanha do candidato Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, elogiou o modelo argentino e disse que seria um bom exemplo para o Brasil durante um evento do Grupo Esfera, em 14 de agosto.

Daniella destacou que Milei é um exemplo em termos de investimento e diminuição da burocracia e impostos. Ela relatou que Flávio orientou sua equipe a revisar e revogar tributos criados ou aumentados no governo atual, tendo identificado mais de mil normas.

Contudo, especialistas apontam duas principais diferenças entre os países que impedem a aplicação do modelo argentino no Brasil: o tamanho e a legislação, já que nosso orçamento é mais rígido e protegido por leis; e o contexto econômico, já que o Brasil não enfrenta uma crise tão grave quanto a argentina pré-Milei, embora precise de ajustes.

O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, explicou que a economia argentina e brasileira são muito diferentes, e o cenário argentino na chegada do plano ‘motosserra’ era bem pior.

Marcus Pestana, presidente da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, concorda, ressaltando que o Brasil não está no fundo do poço como a Argentina estava. Ele também alerta que cortes drásticos enfrentariam barreiras judiciais e do Congresso.

Marcus disse que na Argentina aquele nível de sacrifício foi possível porque o país estava numa crise profunda, o que não é o caso do Brasil hoje. Além disso, o sistema jurídico brasileiro impede muitas das medidas adotadas lá.

As declarações de Daniella Marques foram criticadas pelo ex-presidente argentino Alberto Fernández, amigo pessoal do presidente brasileiro. Fernández afirmou que a experiência argentina não é modelo para nenhum país e destacou que o Brasil apresenta crescimento, investimentos e criação de empregos, situação que não ocorre na Argentina.

A economista e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello, ressaltou as grandes diferenças sociais e geográficas entre Brasil e Argentina. O país necessita de políticas estaduais para garantir o desenvolvimento e reduzir desigualdades, e cortes bruscos podem prejudicar os grupos sociais mais dependentes dos serviços públicos.

Cristina afirma que medidas rápidas e amplas, como a ‘motosserra’, podem aumentar as desigualdades e enfraquecer serviços essenciais, além de reduzir investimentos públicos cruciais para infraestrutura e crescimento econômico.

Viabilidade política

Apesar das declarações, a campanha de Flávio Bolsonaro informa que pretende manter políticas populares que custam ao orçamento, como a valorização real do salário mínimo. Daniella Marques mencionou que talvez seja possível não alterar esse ponto logo no início.

Marcus Pestana também duvida que Flávio faça cortes drásticos em impostos, já que o país enfrenta déficits consecutivos e não pode abrir mão de arrecadação. Ele observa ainda uma distância entre o programa econômico e as decisões políticas do candidato.

A campanha do candidato foi procurada para comentar, mas preferiu não se pronunciar.

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