LAURA MATTOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Com o aumento de conteúdos que discriminam mulheres nas redes sociais e o crescimento de casos graves como feminicídios e violência sexual coletiva no Brasil, escolas têm adotado projetos para combater o machismo e a misoginia. Muitas dessas ações surgem a partir de pedidos de alunas que sentem o impacto dessa cultura negativa dentro e fora das instituições de ensino.
No ano anterior, a série britânica “Adolescência” (2025, Netflix), que retrata como a cultura machista nas redes sociais influenciou um aluno a cometer um crime contra uma colega, intensificou o debate em diversas escolas. Outro conteúdo recente da mesma plataforma, o documentário “Por Dentro da Machosfera”, também destaca essa questão.
No Brasil, um dos episódios recentes mais alarmantes foi o estupro coletivo de uma jovem de 17 anos em Copacabana, Rio de Janeiro. Entre os envolvidos estão um ex-namorado da vítima e outros quatro jovens, dois deles estudantes do tradicional Colégio Pedro 2º, que anunciou uma política para prevenir e combater assédio após manifestações estudantis. Esta escola é federal.
A misoginia e o machismo alimentam o cyberbullying, principalmente contra meninas, em aplicativos de mensagens e perfis de fofocas.
Recentemente, no Colégio São Domingos, localizado em Perdizes, São Paulo, alunos foram suspensos devido a mensagens misóginas em grupos de WhatsApp do 9º ano.
Garotos de 14 e 15 anos fizeram um “ranking” avaliando colegas do sexo feminino com base em características físicas. Também compartilharam imagens ofensivas, incluindo uma com menções a Jeffrey Epstein, conhecido por crimes sexuais nos EUA, e outra com uma ameaça explícita, o que gerou rumores falsos sobre uma lista de “estupráveis”. A escola e familiares negaram essas alegações.
Tais casos não são isolados. Eles acontecem em escolas públicas e privadas, em diferentes contextos sociais e ideológicos.
O pai de um dos estudantes envolvidos no São Domingos se mostrou surpreso, afirmando que a família é contra a misoginia. Ele relatou que pediu ao filho que escrevesse uma carta de desculpas às colegas, investigou suas atividades digitais, bloqueou o acesso dele às redes sociais e optou por colocá-lo em terapia.
De acordo com o diretor pedagógico Luís Fernando Weffort, o colégio promoveu reuniões com os alunos, suas famílias e outras turmas. Um grupo formado por professores, psicóloga e advogada foi criado para definir ações institucionais e medidas restaurativas necessárias.
Amizade entre meninas
No Colégio Bandeirantes, em São Paulo, a discussão sobre misoginia e machismo foi incorporada ao currículo e estimulada em grupos estudantis, conforme a coordenadora de Convivência Positiva e Apoio Emocional, Beatriz Kohlbach. Entre esses grupos estão a CCA (Comunidade de Cuidado e Apoio), o Bandiversidade que apoia a comunidade negra e LGBTQIA+ e o Girl UP, ligado a um movimento internacional feminino.
Em março, aconteceu o evento Girl Night, com o tema “Somos amigas, não rivais”. Laura, 16 anos, estudante do 3º ano do ensino médio e integrante do Girl UP, destaca a importância da troca entre as próprias alunas para enfrentar esses desafios.
Ela pontua que muitas meninas se sentem mais confortáveis discutindo esses temas entre si do que com adultos. Elas debatem situações de machismo enfrentadas, questões sobre educação menstrual, a presença feminina nos esportes, ciência, trabalho e a violência contra mulheres, além de atividades como artes marciais para autodefesa.
Na escola municipal Maria Pavanatti Fávaro, em Campinas, também existe um grupo ativo, o Clube da Lua, formado por meninas que solicitaram à direção um protocolo para combater a misoginia.
O grupo relatou episódios em que alunos pressionam colegas para atos afetivos não desejados, e as que recusam, enfrentam perseguições e comentários ofensivos diariamente. Isso tem causado faltas entre as estudantes devido ao impacto emocional.
A professora Karina Mayara Leite Vieira, coordenadora do projeto, afirma que tais situações são frequentes: “comentários como ‘mulher tem que lavar louça’ e ‘não pode jogar futebol’ são comuns. Meninas também são alvo de toques sem consentimento e insultos racistas”.
Ela defende um ensino que promova o entendimento de gênero, valorizando o papel das mulheres na literatura, artes e ciência, para combater a influência negativa das redes sociais.
Outra iniciativa é o Juventudes AntiMisoginia, lançado em 2025 pelo Sesi São Paulo, presente em 134 escolas com cerca de 100 mil estudantes do 9º ano do fundamental ao ensino médio.
O programa surgiu de um grupo feminista no Sesi Regente Feijó, formado por meninas insatisfeitas com o comportamento machista de alguns colegas.
Segundo Lilian Engracia, supervisora técnica do Sesi-SP, o projeto envolve escolher professores interessados na temática, oferecer formação e apoio financeiro para que desenvolvam atividades duas vezes por semana no contraturno escolar, além de criar comitês com estudantes, incluindo meninas e pelo menos um menino.
O programa também visa envolver as famílias, apesar de algum desconforto por parte de alguns pais com o nome do coletivo. Lilian explica que o nome Juventude AntiMisoginia destaca que todos devem combater essa violência.
Luiz Gustavo, 17 anos, aluno do 3º ano do ensino médio no Sesi Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo, faz parte do comitê e reconhece que antes não compreendia o machismo e a misoginia. “Eu não sabia que era errado as mulheres ganharem menos que os homens, isso foi algo que a sociedade patriarcal me ensinou”, conta.

