Na Escola Classe Café Sem Troco, situada na zona rural do Paranoá, o espanhol é cada vez mais falado pelos alunos e professores. Expressões como “buenos días” e “buenas tardes” já fazem parte do cotidiano, refletindo a presença dos estudantes venezuelanos e brasileiros.
Essa iniciativa visa ajudar na integração das crianças e jovens da comunidade Warao Coromoto, um grupo indígena católico da Venezuela que vive em Brasília desde 2023 e conta com cerca de 50 estudantes na escola, entre quase 500 alunos.
Segundo dados da Secretaria de Educação do DF, existem 1.654 alunos migrantes em escolas públicas, majoritariamente no ensino fundamental. As regiões com maior número de alunos imigrantes incluem o Plano Piloto, São Sebastião, Taguatinga, Ceilândia e Paranoá.
Desde o ano passado, o espanhol passou a ser uma disciplina regular do ensino infantil até o 5º ano do ensino fundamental. As aulas são conduzidas por estudantes de letras espanhol da Universidade de Brasília (UnB), em um projeto em parceria com a escola pública.
O educador social Thiago Cardozo, que também estuda letras espanhol na UnB, destaca que o objetivo é promover o espanhol desde a base escolar para facilitar a comunicação e integração entre os alunos brasileiros e imigrantes.
Acolhimento e Inclusão
A escola sempre teve foco na inclusão, tendo sido pioneira em oferecer uma classe especial para alunos com deficiência. Quando souberam da chegada dos refugiados, criaram uma estrutura de apoio para recebê-los.
No início, mais de 30 alunos de diferentes idades foram reunidos numa mesma sala para que se sentissem seguros. Muitos nunca tinham frequentado uma escola antes e enfrentavam dificuldades de comunicação, pois falavam apenas warao, língua nativa da comunidade.
A professora Maria Janerrandra Fogaça relata que o processo exigiu paciência e adaptações, como dividir os alunos em grupos para melhor atendimento. Hoje, os estudantes mais novos estão integrados nas turmas regulares, enquanto os mais velhos recebem apoio específico para avançar nos estudos.
Segundo a diretora Sheyla Passos, a fase de acolhimento foi concluída e agora o foco está na integração plena dos alunos, preparando-os inclusive para exames como o Encceja e a possível oferta de Educação de Jovens e Adultos em horário diurno para acelerar o aprendizado.
Transformação e Oportunidades
A jovem Santa Eduviges Pacheco Lorenzana, 16 anos, descobriu a escola no Café Sem Troco e passou a gostar muito de estudar, especialmente matemática. Ela sente falta da família que ficou na Venezuela, mas valoriza as oportunidades que encontrou no Brasil.
Wilde Zapata, 17 anos, também tem uma história semelhante. Estudante autodidata, já aprendeu a ler em português e tem obtido bons resultados em matemática. Sua família é muito presente e apoia os estudos dos irmãos, todos matriculados na escola.
Além das aulas, a alimentação escolar é outro ponto positivo destacado pelos alunos. Wilde destaca a diferença entre sua vida na Venezuela e no Brasil, com acesso a comida e recursos financeiros.
O cacique da comunidade Warao Coromoto, Eduardo Baez, observa que a vida melhorou muito após a mudança para o Brasil, onde encontram alimentação, educação e melhores condições de vida. Ele deseja que as crianças tenham um futuro com carreiras de alto nível, possivelmente como professores.
Rede de Proteção Integrada
A proteção dos migrantes envolve várias secretarias do governo de Brasília. A Secretaria de Educação assegura o direito de matrícula imediata para crianças migrantes, mesmo sem documentação completa.
A Secretaria de Desenvolvimento Social oferece apoio por meio do Creas Migrantes, auxiliando famílias na documentação e acesso a benefícios, educação e emprego.
A Secretaria de Justiça e Cidadania atua contra a xenofobia e apoia mulheres imigrantes com projetos específicos, enquanto a Secretaria de Saúde disponibiliza um guia para orientar o acesso dos migrantes aos serviços públicos de saúde.
Esses esforços coletivos buscam garantir um ambiente acolhedor e inclusivo para os alunos imigrantes, promovendo sua integração e desenvolvimento na comunidade escolar.
Informações colaboradas pela Agência Brasília.
