Após a recente ação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, o presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a mencionar a Groenlândia como estratégica para os interesses americanos. Contudo, a atenção dos EUA pelo território autônomo da Dinamarca é histórica e já vem de mais de cem anos.
A posição geográfica privilegiada da Groenlândia no Atlântico Norte despertou o interesse dos EUA pela ilha em diversos momentos, seja para garantir o domínio na região após a Guerra Civil, seja para conter a expansão soviética durante a Guerra Fria.
Origem do Interesse dos EUA
O interesse norte-americano pela Groenlândia não é recente. Em 1867, ano da compra do Alasca da Rússia, houve discussões no governo dos EUA sobre anexar a Groenlândia e a Islândia. Naquele período expansionista, buscava-se consolidar rotas marítimas vitais.
Em julho de 1868, jornais americanos noticiaram que William Henry Seward, à época secretário de Estado, planejaria comprar a Groenlândia por 5,5 milhões de dólares em ouro. O governo americano via na ilha potencial para fortalecer seu poder naval diante da crescente influência europeia.
Um relatório encomendado por Seward apontava a abundância de vida selvagem e minerais, como a criolita, usada na fabricação de alumínio. Apesar das vantagens, o Congresso rejeitou a compra e a ideia foi ridicularizada, pois o território era considerado coberto por gelo e pouco vantajoso.
Atuação durante a Segunda Guerra Mundial
Durante a Segunda Guerra Mundial, após a ocupação da Dinamarca pela Alemanha em 1941, os EUA avançaram para proteger a Groenlândia, instalando bases militares ainda hoje ativas.
Documentos desclassificados indicam que em 1946 os EUA ofereceram 100 milhões de dólares em ouro para comprar a ilha, mas a Dinamarca continuou sua administração após a guerra.
Em 1951, os EUA e Dinamarca firmaram tratado de defesa, permitindo a manutenção de bases americanas e o compromisso de defesa do território.
Ameaça da União Soviética e Importância Estratégica
Na Guerra Fria, em 1955, conselheiros do então presidente Dwight D. Eisenhower recomendaram a compra da Groenlândia para monitorar a União Soviética. O governo considerava a ilha essencial para a vigilância de uma possível ameaça atômica.
No entanto, temores diplomáticos e a concessão de amplos direitos de atuação militar em acordo anterior impediram avanços nessa proposta, para evitar acusações de imperialismo.
Interesse Atual e Recursos Naturais
Além da relevância estratégica, o interesse ressurgiu com o potencial de exploração mineral da Groenlândia. A ilha possui recursos como urânio, petróleo, gás natural, terras raras, níquel, cobre, ouro e grafite, cuja extração está suspensa por motivos ambientais.
Em 2019, durante o primeiro mandato de Donald Trump, a ideia de compra foi reiterada, mas rejeitada pela primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, que chamou a proposta de “absurda”. Trump voltou a defender a importância da ilha por sua segurança nacional e posição estratégica no Ártico, especialmente pela atuação da Rússia e China na região.
Status Político da Groenlândia
A Groenlândia foi colonizada em 1721 pela Dinamarca-Noruega e tornou-se parte oficial do Reino da Dinamarca em 1953, com representação parlamentar. Desde 1979 desfruta de autonomia, ampliada por lei em 2009, que concedeu maior controle local e direitos sobre seus recursos naturais.
A soberania da Dinamarca é reconhecida internacionalmente, mas a Groenlândia tem direito ao autodeterminamento e pode decidir sua independência via referendo, direito garantido pela lei de autonomia.
Embora política externa e defesa sejam definidas pela Dinamarca, o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, enfatiza que a soberania e integridade territorial são inegociáveis.
Importância Geográfica e Desafios Ambientais
A Groenlândia é a maior ilha do mundo com cerca de 2 milhões de km², mas possui apenas cerca de 60 mil habitantes, principalmente inuit Kalaallit, vivendo em cidades costeiras. A capital é Nuuk.
A maior parte do território é coberta por gelo, com regiões costeiras livres no verão. O aquecimento global está reduzindo as camadas de gelo, tornando áreas internas mais acessíveis e abrindo rotas marítimas no Ártico, fortalecendo a importância estratégica e econômica da ilha.
Apesar de negar interesse nos minerais, os EUA veem a Groenlândia como um ponto avançado no Ártico para conter a influência de outras potências e proteger novas rotas comerciais e recursos naturais.
