CRISTIANE GERCINA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada, conhecido como consignado CLT, movimentou R$ 117 bilhões em um ano. Porém, os juros dessa modalidade ainda representam um desafio. Criado em 2025 pelo governo Lula para facilitar acesso ao crédito e substituir a antiga linha privada, o programa conta com mais de 20,9 milhões de contratos firmados até agora.
Desde março de 2025, cerca de 9,47 milhões de trabalhadores utilizaram essa linha de crédito. Só entre janeiro e o começo deste mês, foram liberados R$ 26,3 bilhões. No total de 2025, o volume chegou a R$ 94,2 bilhões, dos quais R$ 82,9 bilhões foram contratados diretamente por trabalhadores assalariados pela plataforma do programa.
O restante desse valor corresponde à migração de contratos antigos para o novo sistema, chamado Crédito do Trabalhador.
As taxas de juros variam muito entre instituições, com diferenças superiores a 100%. Segundo dados do Banco Central, na primeira semana de março, os juros do consignado privado variaram de 1,53% a 7,07% ao mês, dependendo do banco.
Pesquisa do Procon-SP em São Paulo comparou as taxas nas maiores instituições financeiras e encontrou variação semelhante: entre 3,19% e 6,61% ao mês para empréstimos de até 12 meses.
Essa variação preocupa o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que avalia soluções para a situação em reunião marcada para 26 de março. O governo, no entanto, descarta estabelecer um teto para os juros, como ocorre no consignado do INSS.
Em nota, o MTE declarou que considera o tema um desafio e não aceitará práticas com juros abusivos. Uma proposta para combater essas taxas elevadas será apresentada e discutida na próxima reunião do Comitê do Crédito do Trabalhador.
Apesar da variação, o consignado CLT ainda é uma opção mais vantajosa que outras linhas de crédito. Por exemplo, o empréstimo pessoal tem taxa média de 8,30% ao mês e o cheque especial de cerca de 8% ao mês, segundo o Procon. O Banco Central informa que esses juros podem chegar a 21,42% ao mês e 926% ao ano, dependendo da instituição.
Cíntia Senna, especialista em educação financeira da Dsop e professora da Unoeste, explica que as taxas do consignado CLT não refletem o nível de segurança dessas operações. “As taxas são altas mesmo com as garantias que o banco tem”, afirma. O consignado conta com garantia do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).
Ela destaca que o problema é pior devido à baixa educação financeira e ao uso do crédito como solução imediata para dívidas. “O número de pessoas usando essa modalidade cresce junto com a inadimplência. Muitas tentam sair do endividamento, mas sem mudar hábitos financeiros, o problema só aumenta”, aponta.
Cíntia lembra também que, embora os juros sejam menores, o consignado compromete a margem de negociação do trabalhador porque os descontos são automáticos no salário. “Não dá para analisar só pela taxa de juros. Os riscos e dificuldades de negociação são maiores que em outras linhas”, comenta.
Ela questiona os juros praticados: “Com tantas garantias, as taxas deveriam ser bem menores, próximas às oferecidas para aposentados e servidores públicos.”
O valor médio emprestado por trabalhador é de R$ 12,3 mil, principalmente para quem recebe até quatro salários mínimos. Destes, R$ 33,2 bilhões foram destinados a essa faixa.
Como funciona o consignado CLT
Chamado Crédito do Trabalhador, o consignado CLT é um empréstimo feito diretamente pela Carteira de Trabalho Digital, sem necessidade de acordo entre empresa e banco, diferente do modelo antigo.
As parcelas são descontadas direto do salário, e o FGTS é usado como garantia, reduzindo o risco para os bancos. Isso poderia permitir juros menores. É possível comprometer até 35% da renda.
Podem pedir o consignado trabalhadores com carteira assinada, incluindo empregados domésticos, rurais, assalariados e microempreendedores individuais (MEIs).
Garantia é até 10% do saldo do FGTS mais a multa rescisória de 40% em caso de demissão sem justa causa.
