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sexta-feira, 16/01/2026

Empresas do Master usam terras públicas para gerar créditos de carbono bilionários

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ANDRÉ BORGES, ADRIANA FERNANDES E LUCAS MARCHESINI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Duas companhias envolvidas diretamente com o grupo Master atingiram uma avaliação superior a R$ 45,5 bilhões, baseada em milhões de créditos de carbono que vêm de uma área pública pertencente à União, o que é ilegal para uso privado.

Documentos obtidos pela Folha revelam que as empresas Golden Green e Global Carbon, controladas por fundos da Reag, investigada pela Polícia Federal, tiveram seus ativos reavaliados em bilhões através de auditorias que se basearam no estoque de carbono da Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM), com 143,9 milhões de hectares.

No entanto, essa terra é pública e destinada para reforma agrária, não podendo ser usada para fins econômicos privados, conforme confirmado pelo Incra. Segundo o órgão, qualquer negociação de créditos de carbono baseada nesta área é irregular e prejudica a União, que já adotou ações administrativas e judiciais.

O Incra abriu processo para impedir o cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural e negou sua certificação no Sistema de Gestão Fundiária, evidenciando que a terra não está regularizada como propriedade privada.

Apesar disso, renomadas auditorias e consultorias valorizaram os créditos de carbono das empresas sem alertar sobre o problema da origem desses créditos.

As empresas justificam que o inventário de carbono foi feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), que estimou 168,8 milhões de toneladas de CO₂ na área, e usaram essa base para precificar seus ativos.

A Ernest Young analisou a metodologia e estabeleceu um valor inicial para o carbono, que foi elevado pela PwC e posteriormente pela Crowe, chegando ao total de R$ 14,6 bilhões, sem menção ao litígio sobre a origem dos créditos.

O mesmo padrão se aplica à Global Carbon, que cresceu de uma pequena empresa para um valor de mercado de R$ 31 bilhões em quatro anos, usando o mesmo solo público em uma região afetada por desmatamento e invasão de terras.

Essas empresas são ligadas a fundos da Reag, investigados por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC, com envolvimento de fundos previamente apontados pelo Banco Central como fraudulentos.

Além do uso indevido das terras, não existe um valor de mercado que justifique os preços atribuídos aos estoques de carbono, que não equivalem a créditos de carbono negociáveis reconhecidos no mercado.

As próprias empresas admitem que seus valores baseiam-se em suposições internas, uma vez que não há transações no mercado para esses ativos, que são diferentes dos créditos de carbono certificados e comercializados.

O economista Marco Aurélio Hardt, da Horbia Partners, responsável pelo mais recente laudo de avaliação da Global Carbon, afirma que suas avaliações se baseiam no preço de uma cesta de commodities e nos dados financeiros fornecidos pelas próprias empresas, sem cálculos próprios.

Hardt ressalta que, embora tenha avaliado a Golden Green em agosto de 2025, essa avaliação se deu sem balanço auditado, o que, segundo ele, está previsto nas normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A Folha tentou contato com os diretores da Golden Green, sem sucesso. A Global Carbon confirmou que a área é pública e declarou que tomou conhecimento disso dois anos após a criação dos ativos, tendo comunicado o Incra para as providências necessárias.

A Global Carbon também informou que está em tratativas avançadas com o órgão para regularizar seus ativos ambientais.

A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o Banco Master e seus controladores nunca foram gestores ou administradores dos fundos envolvidos e que colaboram com as autoridades para esclarecer os fatos e afastar associações incorretas.

A Reag declarou que as empresas estão em fase de preparação e que possuem ativos ambientais registrados, mas ainda não transformaram esses ativos em produtos financeiros, aguardando etapas técnicas e regulatórias.

A Ernst Young esclareceu que prestou apenas um serviço de verificação da metodologia matemática utilizada pela Brasil Mata Viva, sem auditar valores ou sua origem, e que seu relatório era exclusivo para uso interno e não deveria ser divulgado.

A PwC não se manifestou até a publicação. Marcelo Lico, do Grupo Crowe Macro Brasil, afirmou que sua auditoria seguiu todas as normas brasileiras e internacionais, limitando-se a expressar uma opinião sobre as demonstrações financeiras com base nas evidências obtidas.

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